A liberação das exportações russas pode afetar a exportação brasileira de trigo?

Publicado em 31/05/2011 09:34 349 exibições
Os analistas ouvidos nesta segunda-feira sobre os efeitos da volta da Rússia como forte exportador mundial fazem ressalvas que vão desde as incertezas sobre a real produção russa, uma vez que as safras de primavera ainda estão sendo plantadas e as de inverno não foram colhidas até a grande ressalva sobre a qualidade: mesmo que os russos injetem 10 milhões (cf. USDA) ou 20 milhões (cf. os russos) de toneladas no mercado, ainda assim continuará faltando trigo de boa qualidade, principalmente o trigo-pão, uma vez que o trigo russo é do tipo brando e, deste, da sua pior qualidade, só servindo para alimentos de baixa qualidade ou para ração animal. Só afetará as exportações para o norte da África e para o Oriente Médio. Todos os demais mercados importadores, mais exigentes, como o Japão, Coréia do Sul, Taiwan, China e Filipinas continuarão a demandar produtos do Canadá, dos Estados Unidos e da Austrália, que produzem trigo duro e que estão sofrendo com problemas de produção atualmente. As safras de trigo canadense, americano e australiano continuam com problemas ou se seca (EUA) ou de excesso de umidade (Austrália e Canadá). 45% da safra americana de trigo de inverno continua em condição ruim/muito ruim e 54% do trigo de primavera está plantado no país, contra a média de 84% no período. A França, maior exportador europeu de trigo brando deverá sofrer uma quebra de 12% e a Alemanha de 7,2%.

Assim, as perspectivas de preços para os próximos meses continua elevada. As exportações de trigo brasileiro, na última temporada, foram encaminhadas para compensar as exportações russas, que estavam suspensas. Agora, com a sua volta, os exportadores brasileiros precisam intensificar as vendas para outros mercados, como os africanos e asiáticos, que já compravam do Brasil, onde não haja a pressão russa.

O importante é não deixar cair a opção de exportação de trigo, que tantas vantagens trouxe para o triticultor brasileiros na última safra e que poderá trazer muito mais, com o intercâmbio de tecnologia e o ingresso de recursos financeiros diretos. E tão importante quanto exportar é realmente exportar e não vender aqui nos nossos portos para multinacionais que venham aqui comprar. Nossa recomendação é que se organize uma comissão brasileira que pesquise e procure alguns países para negociar diretamente, sem a presença de políticos, mas apenas de Traders.

Efeitos da volta da Rússia como grande exportador de trigo
Diante de uma perspectiva (a safra ainda não foi colhida) de um “ano muito bom” para o trigo na Rússia, a cotação deste cereal, negociado na Bolsa de Paris caiu quase 5% para € 238,5/tonelada nesta segunda-feira. Esta foi a primeira reação à decretação do fim do embargo das exportações russas de trigo, decretadas em agosto passado diante da pior seca em 50 anos que devastou as safras daquele país e que fizeram as cotações internacionais subir mais de 75% nos últimos dez meses. Até aquela data a Rússia era o segundo maior exportador de trigo do Mundo, com exportações ao redor de 18,5 milhões de toneladas. As estimativas do USDA para as exportações russas desta temporada eram de 10 milhões de toneladas, mas os analistas russos estimam que, para 2011/12 o total das exportações pode atingir 20 milhões de toneladas. Além desta informação, também houve chuvas no norte da Europa, onde a seca estava dominando até recentemente.

A Alemanha recebeu poucas chuvas e a previsão para os próximos três dias  mostra chuvas para o sudeste da Inglaterra, Alemanha e França, segundo os Institutos de Meteorologia europeus.
“No entanto, as incertezas ainda são grandes”, disse um operador da Toepfer, a maior empresa comercial de grãos do país, acrescentando que a produção alemã de trigo deverá cair de 14 para 22,8 a 23,3 milhões de toneladas nesta temporada. A Alemanha é o segundo maior produtor de trigo da Europa Ocidental, depois da França. “Deve-se notar que as áreas em toda a França Ocidental norte já estão praticamente perdidas e que a previsão indica chuvas não muito pesadas na maioria das áreas”, acrescentou,usando de cautela.

Previsão de exportações russas já tinha sido integrada aos preços

A empresa francesa Agritel, por sua vez, informou nesta segunda-feira que a elevação das exportações russas de trigo tinha sido integrada aos preços, tendo sido assunto do mercado nos últimos 30 dias, devendo, portanto, ter um impacto limitado no mercado, até por que as incertezas sobre os volumes ainda são muito grandes.

Mesmo boa, a produção russa ficará abaixo das de 2008 e 2009

A produção russa de trigo de inverno teve danos pequenos e as perspectivas da safra de primavera está muito boa, comentou o vice-premiê russo Viktor Zubkov nesta segunda feira. Mesmo que tudo corra muito bem, os analistas acreditam que a produção de trigo russo de 2011/12 deva ficar entre 85 e 90 milhões de toneladas, abaixo das 97 milhões colhidas em 2009 e das 108 milhões colhidas em 2008.

Lobby dos comerciantes russos

O levantamento das exportações russas de trigo pode ser também o resultado de um bem sucedido lobby dos comerciantes russos de trigo, acusados de acumular pesadas reservas em portos prevendo uma retomada das negociações com o exterior. “É claramente do interesse dos comerciantes russos e das corporações de agricultores falar sobre grandes estoques nos silos à medida que a colheita se aproxima, a fim de liberar espaços”, registrou o relatório de uma grande casa de comércio de commodities da Europa na última sexta-feira. O governo teria mais de 6 milhões de toneladas de trigo em reserva.

Por outro lado, esta liberação das exportações também seria do interesse político, diante das perspectivas de eleições legislativas e presidencial em 2012, levando alguns observadores a prever que o governo enfrenta um equilíbrio difícil entre manter a posição regulamentar do lobby agrícola de um lado e a inflação dos alimentos de outro.

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Fonte:
Trigo & Farinhas

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