Irrigação melhora o desempenho de pomares de maçãs no Sul

Publicado em 07/04/2020 11:13

Estudos científicos desenvolvidos pela Embrapa Uva e Vinho (RS) comprovaram que a associação entre irrigação e adubação (fertirrigação) é capaz de driblar os efeitos negativos das mudanças climáticas no cultivo de maçãs na Região Sul do Brasil. Após quatro safras, a aplicação simultânea de fertilizantes e água resultou em plantas mais equilibradas e com maior carga produtiva, garantindo um aumento médio de produtividade de 34% para cultivares do Grupo Gala e superior a 120% na cultivar Fuji Suprema, responsáveis por 90% da produção brasileira de maçãs.

A irrigação sempre foi prática obrigatória para a fruticultura em regiões tropicais e subtropicais, mas não para as de clima temperado, na qual a distribuição de chuvas era capaz de suprir a maior parte da necessidade hídrica da macieira. Mas a escassez pluvial e o forte calor que marcaram os últimos anos vinham tirando o sono dos pomicultores. A solução veio da ciência: além de aumentar a produtividade, a conjugação entre as técnicas de irrigação e fertilização demonstrou ser capaz de gerar maçãs mais vermelhas, uniformes e graúdas, características importantes para o mercado interno e de exportação, que crescem a passos largos no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM), de importador, o País passou a abastecer não apenas o consumo interno, como também a exportar 15% de sua colheita. 

Os custos da prática de irrigação por hectare variam de R$ 8 mil a R$ 10 mil. Mas o pesquisador da Embrapa Gilmar Ribeiro Nachtigall garante que o retorno do investimento é rápido e ocorre no primeiro ou segundo ano de produção. Há dez anos, ele conduz pesquisas em áreas comerciais nos municípios gaúchos de Vacaria e Monte Alegre dos Campos, em parceria com a Agropecuária Schio, Agrimar e Netafim.

Maçã de qualidade em todas as etapas: mudas, plantas e frutos

Para os adeptos do ditado popular que diz que “maçã todo dia, vida sadia”, Nachtigall garante que o uso da irrigação e da fertirrigação também não tem contraindicações, pelo contrário. A cada fase da cultura registram-se benefícios específicos. Logo após o plantio e durante todo o crescimento, a disponibilização da quantidade certa de água garante macieiras mais bem formadas, com maior número de ramos, o que possibilita maior produção de frutos. Os resultados indicam que as plantas irrigadas começam a produzir frutos antecipadamente, ou seja, um ano antes do que no sistema convencional (sem irrigação), reduzindo os custos de implantação do pomar.

Realidade que está sendo vivenciada na safra 2019/2020 pelo produtor Cláudio Andreazza, de Caxias do Sul (RS). Ele se diz impressionado com o resultado da fertirrigação em seu pomar. Andreazza fez a implantação no ano passado e, na avaliação dele, as plantas cresceram como se houvesse passado três anos. “É impressionante o resultado! Já neste ano a previsão de safra é de dez toneladas por hectare e as frutas estão bem graúdas”, comenta empolgado com os resultados do sistema.

A falta de água antes ou nas primeiras semanas após o florescimento pode ter um efeito negativo no crescimento das brotações e também afetar o desenvolvimento dos frutos, podendo inclusive diminuir o tamanho final da maçã, o que significa redução nos ganhos do produtor. Com a irrigação na fase de plena produção há maior produtividade e qualidade dos frutos, com uma cor vermelha uniforme.

Ao longo das pesquisas foram conduzidos experimentos com o uso da irrigação, ou seja, somente com fornecimento de água; e outros com fertirrigação, no qual o sistema, além da água, é utilizado para adubar as macieiras com diferentes nutrientes. Os resultados mostram que os dois manejos resultam em plantas mais equilibradas e com maior capacidade de carga produtiva, sendo a fertirrigação um pouco superior.

Pesquisas indicam ainda que as cultivares possuem necessidades diferentes no que se refere a água e nutrientes. Por isso, os experimentos estão sendo conduzidos com as duas principais cultivares plantadas no Brasil, a Fuji e a Gala. Foi identificado que elas apresentam respostas distintas, de modo que os sistemas de irrigação e fertirrigação devem ser instalados de forma independente, de modo a respeitar o ciclo e as necessidades hídricas e nutricionais de cada uma.

Bons resultados transcendem as fronteiras brasileiras

A irrigação e a fertirrigação são práticas adotadas em importantes países produtores da fruta, como Estados Unidos, Canadá, Chile e Espanha. No Brasil, passaram a ser consideradas mais recentemente, a partir das variações climáticas verificadas, que têm sido motivo de preocupações para os produtores de maçãs no sul do Brasil. A irregularidade e má distribuição das chuvas estão causando problemas para a qualidade e produtividade de macieiras.

Estimativas da Embrapa mostram que atualmente a área de macieira com irrigação ou fertirrigação no sul do Brasil ultrapassa os 200 hectares, número que possui potencial de crescimento expressivo nos próximos anos, segundo Nachtigall.  O pesquisador explica que a utilização da irrigação e fertirrigação envolve grandes, médios e pequenos produtores, porém, percebe-se maior adesão dos pequenos e médios produtores, cujas características envolvem o uso de tecnologias de ponta em seus pomares. “Percebemos que os resultados que apresentamos referentes aos benefícios da irrigação e da fertirrigação estão chamando a atenção e fazendo com que os produtores considerem investir nessas práticas”, avalia.

Parceiro na realização dos experimentos há cinco anos, André Weber, agrônomo e responsável técnico da Agropecuária Schio, está bastante satisfeito com os resultados na área de 20 hectares. Ele destaca o aumento do calibre das frutas e uma produção mais homogênea, fatores importantes na hora da comercialização dos frutos. “Hoje qualquer produtor que for realizar o plantio de novas áreas precisa investir em duas coisas: fertirrigação e cobertura com tela”, indica. 

Irrigação e a fertirrigação: como utilizar

A recomendação é que sejam instalados sistemas de irrigação localizada, por gotejamento, com gotejadores espaçados em, no máximo, 60 cm entre si, de forma a permitir a formação adequada do bulbo úmido no solo. O mesmo sistema é empregado na fertirrigação. A elaboração dos projetos de irrigação e fertirrigação deve ser feita por profissional capacitado de modo a atender a todos os requisitos necessários ao seu funcionamento.

Para o manejo da irrigação, é fundamental o monitoramento da disponibilidade de água no solo, visando identificar a quantidade de água e o momento correto de aplicação. Essa prática requer informações específicas sobre os tipos de solo e irrigação, espaçamento utilizado no pomar e as cultivares plantadas. Os resultados mostram que o monitoramento da tensão da água no solo, a partir do uso de tensiômetros de punção na linha das plantas, é eficiente para estimar os índices de umidade do solo adequados para a cultura da macieira.

“O uso dos tensiômetros é um fator importante do processo, pois garante a correta aplicação da água para obter os melhores resultados”, detalha Nachtigall. Ele orienta que o monitoramento da umidade do solo deve ser realizado diariamente, ou então em intervalos de tempo não superiores a dois dias, de modo a identificar os momentos exatos de déficit hídrico no solo. 

Já com relação à fertirrigação, ele explica que os produtos são escalonados ao longo do ciclo produtivo, oferecendo os nutrientes que a planta precisa no momento certo do ciclo, distinto do manejo em sequeiro, no qual a adubação é feita com produtos granulados em fases específicas do desenvolvimento dos frutos. Ele alerta que é importante respeitar as taxas de absorção e as quantidades necessárias dos nutrientes em cada fase de desenvolvimento da cultura, de forma a obter o máximo desempenho nutricional das plantas. “O produtor precisa estar atento ao fato de que o manejo da fertirrigação deve ser feito para cada tipo de solo e diferenciado para as cultivares do grupo Gala e Fuji, respeitando seus ciclos fenológicos”, esclarece o pesquisador.

A adubação escalonada via fertirrigação permite ao técnico ou produtor ajustar pontualmente as quantidades de nutrientes aplicadas. Por exemplo, se identificada baixa taxa de desenvolvimento vegetativo em determinado período, pode-se aumentar as quantidades de nutrientes, assim como quando se observa crescimento acima do esperado, levando à redução do volume planejado. Dessa forma, obtêm-se plantas equilibradas nutricionalmente e maior qualidade de produção.

A irrigação e a fertirrigação estão se caracterizando como tecnologias indispensáveis para a fruticultura do futuro, pois garantem frutos de qualidade, superando as intempéries e as mudanças climáticas. É a ciência oferecendo alternativas para garantir e incrementar a lucratividade da pomicultura.

Fonte: Embrapa

NOTÍCIAS RELACIONADAS

O papel social da cacauicultura
Produtor de cacau possui dificuldade em encontrar equilíbrio financeiro sem produtividade
Greening registra menor avanço em nove anos e SP mantém força-tarefa contra a doença
Cacau recua em Londres após atingir máxima de um ano
Indústria paraense apoia cultivo de cacau em cinturão citrícola paulista
IFPA Brasil consolida protagonismo do setor de frutas, flores, legumes e verduras na América Latina