Após 1º trimestre desafiador, setor de HFs liga alerta máximo para falta de combustível e possível greve dos caminhoneiros
Representantes de todos os elos da cadeia de flores, frutas, legumes e verduras se reuniram em Campinas no interior de São Paulo para discutir o atual momento do setor, identificar os desafios e debater oportunidades para o futuro nos campos da produção, logística e comercialização.
“O começo de 2026 foi bastante desafiador para a economia de uma forma geral, para o produtor e para o varejo. O mercado começou o ano devagar, receoso e cuidadoso. Tem muita preocupação com custos de produção e com consumo nas gôndolas. Não é uma mensagem pessimista, mas é uma análise que a gente faz de que o mercado iniciou o ano de forma mais conservadora, observadora. O produtor está fazendo a conta e seu planejamento para poder reduzir custos, ter melhor eficiência e, por outro lado, o varejo olhando para poder reduzir perdas. Essa é a conta que todo mundo está fazendo, porque reduzir perdas, no caso do varejo, também é ter ganhos”, avalia Valeska Oliveira Ciré, Country Manager da IFPA Brasil.
“É um ano bastante desafiador em que ainda há um ajuste de oferta e demanda. Os produtores terminaram um ano muito difícil ano passado, em que a gente teve uma condição climática boa e com isso tivemos um excesso de oferta. Isso fez com que os preços estivessem mais acessíveis para o consumidor, mas para os produtores, infelizmente, a grande maioria não conseguiu pagar os custos de produção e isso tem sido impactante para o planejamento desse ano”, aponta Manoel Oliveira, diretor executivo do Ibrahort.
Já para o setor de flores, o primeiro trimestre de 2026 foi bastante positivo, com crescimento maior do que o projetado, puxado por duas das principais datas comemorativas, o Valentine's Day e o Dia das Mulheres.
“O começo do ano foi até melhor do que nós imaginávamos. A gente estava trabalhando com uma previsão de crescimento desse ano de 5% a 6%, e até agora, no primeiro trimestre, praticamente fechado já, os números estão apontando em algo em torno de 8%, 9%. O mercado está firme principalmente em flores de corte, mas também em plantas, plantas floridas e plantas verdes, que são os três subgrupos fortes do nosso setor. Os produtores investiram muito em técnicas de produção com o objetivo de ter produtos de maior durabilidade e isso está ajudando muito. Isso já é um bom sinal para as próximas duas datas fortes do setor, que são o Dia das Mães e Dia dos Namorados”, comenta Renato Opitz, diretor de comunicação do Ibraflor.
COMBUSTÍVEIS E CAMINHÕES
Um dos grandes desafios do momento tem sido a crise de combustíveis, como o diesel, que estão subindo de preço pelo país e, em alguns casos, apresentando dificuldades de abastecimento.
“A gente está entrando em um ambiente especulativo. A gente não consegue ainda ter uma previsibilidade de onde as coisas vão parar, mas já tem desabastecimento de combustível e já começou a oscilação de preços. Embora a gente tivesse muito estoque no Brasil, as novas compras já estão com valores muito inflacionados. Isso é preocupante até pela falta de produto para o produtor poder fazer seus plantios”, alerta Oliveira.
“É muito preocupante porque nós temos produtos perecíveis. Nós não podemos correr o risco desses produtos ficarem parados em estradas, com o risco de perder 100% da carga. Então, é com muita apreensão e nós estamos acompanhando para ver se as medidas que estão sendo anunciadas, como redução de impostos federais, eventualmente impostos estaduais, ou até o aumento na porcentagem do biodiesel, do etanol, se isso vai ajudar a arrefecer um pouco, mas estamos muito preocupados”, relata Opitz.
Os produtores também já estão sentindo esses impactos, seja para abastecer máquinas agrícolas e frotas de logística, ou para realizar atividades no campo, como a irrigação em áreas de tomate.
“Devido a nossa cultura ser uma cultura irrigada, e não é em todos os lugares que a gente tem acesso à energia como padrão, os motores de irrigação são a diesel. Isso impacta na produção e na logística também, que a gente sabe que nossa maior malha é a rodoviária, de logística do produtor para a revenda ou para quem tem a cadeia verticalizada para o packing house e depois para a rede de mercado. Então isso altera muito no custo e infelizmente vai chegar ao consumidor”, lamenta Ricardo Pereira Marques, da Santa Bárbara Tomates.
“Com certeza é um problema para a gente enfrentar e equacionar, porque grande parte das flores depende do transporte e todas as frotas têm esse problema. Como, ao contrário de outros países no mundo, o Brasil optou por uma política de adiar um pouco esse aumento, imaginando que a guerra fosse terminar logo, agora o aumento está vindo de uma vez só, com especulação muito forte, esse risco da greve de caminhoneiros também bastante impactante”, acrescenta o diretor do Ibraflor.
Esse temor da confirmação de uma iminente greve dos caminhoneiros é outro ponto importante que está deixando todos os alertas do setor ligados, já que os impactos dessa paralisação seriam grandes e imediatos.
“Nós estamos com produtos frescos, então não tem onde estocar produto, a gente tem que colher e comercializar. Então isso é impacto direto, é perda, é ruptura de fornecimento imediato, isso é um caos. Teoricamente a gente não poderia deixar acontecer, teria que ter alguma intervenção, alguma visão das lideranças para impedir que isso acontecesse. Estamos aguardando para ver se isso de fato vai se concretizar, mas todo mundo está temeroso", afirma a liderança do Ibrahort.
O produtor de tomate Ricardo Pereira Marques destaca os impactos da greve na produção do setor e relembre que na última paralisação da categoria teve grandes prejuízos no campo. “É horrível, principalmente para mim que sou do setor do tomate de mesa. Quando a gente não consegue transitar, por ser um produto altamente perecível, a gente acaba tendo muita perda direta. Isso (greve dos caminhoneiros) já aconteceu há alguns anos e lembro que na situação eu tive que descartar cerca de 20 toneladas de tomate. Não conseguia transitar, o tomate passou do ponto e não teve jeito, teve que fazer o descarte. Estamos muito apreensivos e torcendo para ser resolvido da melhor maneira”.
O varejo também acompanha a situação de perto e com nível de apreensão elevado. Na visão de Francisco Homsi, vice-presidente do Grupo OBA Hortifruti, o impacto de uma parada de caminhões seria imediato e provocaria desabastecimento nas gôndolas dos mercados.
“O impacto do ponto de vista da nossa empresa, que lida com frutas frescas, é direto, é no dia seguinte. É terrível isso, é muito difícil. Nós vivemos num país de dimensão continental e dependemos do caminhão, o caminhão é muito importante. A nossa empresa tem uma situação particular que é bastante confortável, do CD até a loja nós temos frota própria, mas para o produto chegar, para frutas, legumes e verduras chegarem até o nosso CD, precisa de uma estrutura de transporte. Então o impacto é no dia seguinte, o impacto é imediato”, alerta Homsi.
“É ruim, definitivamente é ruim. O que a gente tenta é mostrar para o mercado, não vamos sofrer por antecedência, o que a gente precisa fazer é ter boas conversas, boas conversas com iniciativa pública, iniciativa privada, para que esse setor possa se organizar. A gente sabe que uma eventual greve é ruim não só para alimentos, mas para todo o Brasil, mas, perecíveis, a gente sabe o quanto sofre, porque estamos falando de alimento que precisa estar na mesa do consumidor”, diz a liderança da IFPA.
Diante desse cenário de temeridade, as autoridades governamentais também estão se mobilizando para trazer soluções e apresentar medidas que possam mitigar esses prejuízos na cadeia agrícola.
“A Secretaria e o Palácio dos Bandeirantes já estão de olho nesse assunto, a gente está montando um gabinete de crise para poder observar e acompanhar a evolução. Por enquanto a gente não tem nenhum factual ainda, mas a gente tem um grande receio porque a gente sabe que para o HF o transporte é um componente muito caro do custo. Então o governo do estado está observando a evolução desse assunto. É difícil o estado falar alguma coisa agora, uma vez que a gente ainda não tem uma posição firme sobre a paralização, mas o estado de São Paulo está atento, está com o seu gabinete de crise monitorando a situação. Uma greve teria impacto direto em diversas cadeias, o HF é uma das principais, o histórico nos diz que o impacto dessa questão é muito forte para o HF, mas o estado está atento e observando a evolução”, declarou o Subsecretário de Abastecimento e Segurança Alimentar de São Paulo, Diogenes Kassaoka.
MERCOSUL - UNIÃO EUROPEIA
Mas nem todas as perspectivas do setor de flores, frutas, legumes e verduras são negativas. O avanço do acordo de comércio entre Mercosul e União Europeia, que deve entrar em vigor em breve, anima produtores e exportadores brasileiros, já que novas oportunidades de negócio devem aparecer.
“Finalmente temos boas notícias, depois de mais de 20 anos de negociação. A IFPA tem representantes na Europa que participam de várias reuniões lá e a expectativa é a mais positiva possível, porque a gente sabe que isso vai gerar um equilíbrio nessa competitividade do mercado brasileiro com outros mercados concorrentes. Vai colocar a gente em patamar de equilíbrio com o Peru, com a Colômbia, com outros mercados que já acessam, já têm tarifas reduzidas ou não têm tarifas para a Europa. Com certeza vai aumentar a exportação, melhorar a nossa competitividade e ampliar o nosso leque de produtos exportados. A Europa já é um grande destino das exportações brasileiras de frutas, mas isso vai nos dar mais equilíbrio nessa concorrência global”, comemora Ciré.