El Niño deve impactar produção e comercialização de frutas na América do Sul e elevar volatilidade da oferta

Publicado em 21/07/2026 08:24
Peru, Chile e Colômbia já monitoram possíveis reflexos do fenômeno sobre diferentes culturas, com expectativa de mudanças na oferta e na comercialização ao longo da safra

A intensificação do fenômeno El Niño em 2026 deve trazer desafios para a produção e a comercialização de diversas frutas na América do Sul. Com previsão de temperaturas acima da média em alguns países e aumento das chuvas em outros, produtores e exportadores já monitoram possíveis impactos sobre produtividade, qualidade dos frutos, calendário de colheita e oferta ao mercado internacional.

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño já está em desenvolvimento e os modelos climáticos indicam um evento de intensidade moderada a forte, com possibilidade de atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro de 2026. O período coincide com importantes safras de exportação de frutas no Peru, Chile e Colômbia.

No Peru, o principal impacto esperado é o aumento das temperaturas entre agosto e dezembro nas regiões produtoras de La Libertad, Lambayeque, Piura e Ica. Para os mirtilos, especialistas alertam que invernos mais amenos podem comprometer o acúmulo de horas de frio, alterando a floração, a brotação, o tamanho dos frutos, a firmeza e a vida útil pós-colheita. Já para as uvas, o calor pode antecipar a colheita, reduzir o calibre das bagas e concentrar a maturação em um período mais curto.

Os reflexos do fenômeno já começam a ser observados na citricultura peruana. Até a semana 27 de 2026, as exportações de tangerinas acumulavam queda de 43%, principalmente porque as temperaturas elevadas retardaram a coloração externa dos frutos, embora a qualidade interna permaneça preservada. O cenário levou produtores a enfrentarem atrasos na colheita e preocupações com a redução da acidez, o envelhecimento dos frutos e perdas de frutas com padrão comercial.

Enquanto isso, no Chile, a principal preocupação está relacionada ao aumento das chuvas e da instabilidade climática entre agosto e dezembro. As cerejas são consideradas a cultura mais vulnerável, diante do risco de chuvas próximas à colheita, granizo durante a floração e rachaduras nos frutos. Uvas, mirtilos e frutas de caroço também podem sofrer impactos devido ao maior risco de doenças, como botrytis e míldio, além de perdas de firmeza e qualidade pós-colheita.

Na Colômbia, o cenário é diferente. O setor de bananas, que vem registrando níveis recordes de produção e exportação, pode enfrentar redução das chuvas e aumento do estresse hídrico durante o segundo semestre, especialmente na região do Caribe. A expectativa é de que a menor disponibilidade de água afete o desenvolvimento das lavouras e reduza a produção, sobretudo em áreas sem sistemas de irrigação.

O mercado de abacates também deve sentir os efeitos do fenômeno. A expectativa é de maior volatilidade da oferta durante a safra 2026/27, com impactos sobre produtividade, tamanho e qualidade dos frutos nas principais regiões produtoras da América do Sul. Apesar da continuidade da expansão das exportações, a combinação entre eventos climáticos e diferentes calendários de produção deve aumentar a variabilidade da oferta e dos preços no mercado internacional.

Comercialização também entra no radar

Além dos efeitos sobre a produção, o El Niño também influencia as estratégias comerciais do setor.

No caso dos mirtilos peruanos, especialistas reunidos no Seminário Internacional de Consultoria sobre Mirtilos, em Trujillo, defenderam que a preparação das plantas para enfrentar o estresse climático deve começar antes da ocorrência dos eventos extremos. O manejo do sistema radicular, da fertirrigação, do estado hídrico e o monitoramento fisiológico das plantas foram apontados como fatores fundamentais para aumentar a resiliência dos pomares.

As discussões também abordaram a necessidade de adaptar as decisões de comercialização à condição da fruta. Dependendo da qualidade obtida, produtores podem priorizar mercados mais próximos para reduzir riscos de perdas durante o transporte de longa distância.

O manejo pós-colheita também ganha importância. O resfriamento rápido após a colheita foi destacado como uma das principais ferramentas para preservar a qualidade dos frutos em um cenário de temperaturas elevadas.

No setor de cítricos, produtores peruanos também já trabalham em medidas para reduzir os impactos futuros do fenômeno, incluindo ajustes no manejo da água, fertilização e poda, além da diversificação dos mercados de exportação. A preocupação, segundo representantes do setor, não se limita à safra atual, mas também aos possíveis efeitos do El Niño sobre a floração e a produção de 2027.

Embora os diferentes setores estejam investindo em estratégias de adaptação, como novas variedades, monitoramento climático, melhorias no manejo das lavouras e tecnologias de pós-colheita, a expectativa é de que o El Niño aumente a incerteza sobre a oferta de frutas sul-americanas ao longo dos próximos meses, influenciando tanto o ritmo das exportações quanto a dinâmica do mercado internacional.

Por: Guilherme Dorigatti
Fonte: Notícias Agrícolas

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