Setor de FLVs cobra políticas próprias para uma cadeia em que o relógio também define rentabilidade
O setor de frutas, legumes e verduras chega à disputa presidencial com uma cobrança que vai além de mais crédito ou infraestrutura: a cadeia quer ser tratada pelas políticas públicas de acordo com características que o diferenciam das grandes commodities. Perecíveis, sensíveis ao tempo, à temperatura, ao manuseio, à aparência e à qualidade, esses produtos podem perder valor rapidamente depois da colheita.
Para entidades e empresas ouvidas pelo Notícias Agrícolas, isso exige do próximo governo instrumentos específicos para produção, conservação e comercialização, passando por irrigação, crédito, seguro rural, cadeia fria, fiscalização, defesa fitossanitária, logística e inteligência de mercado.
Na prática, a produtividade da horticultura não termina na lavoura. Produzir é apenas parte da equação, já que conservar qualidade até a venda também é produtividade.
Política agrícola ainda não acompanha a lógica dos perecíveis
Para o diretor executivo do Ibrahort, Manoel Oliveira, parte importante dos gargalos da horticultura começa dentro da porteira e está relacionada à forma como as políticas agrícolas foram historicamente estruturadas.
Segundo ele, instrumentos de crédito e seguro ainda não atendem plenamente às particularidades das culturas hortícolas, que possuem ciclos, riscos e necessidades de investimento diferentes das grandes culturas de grãos.
Entre as prioridades apontadas pelo setor estão linhas de crédito mais adequadas para irrigação, cultivo protegido, telados, packing houses, câmaras frias e tecnologias de pós-colheita, além de seguros específicos para culturas com elevada exposição a riscos climáticos, sanitários e de mercado.
Oliveira também destaca a segurança hídrica, a ampliação do acesso à irrigação e a redução da burocracia nas outorgas de água, além da necessidade de fortalecer pesquisa, inovação e processos regulatórios ligados a registros de defensivos para Minor Crops e produtos biológicos.
A diferença não é apenas operacional. Em algumas culturas, o produtor concentra alto volume de investimento em uma única safra e fica exposto a perdas rápidas diante de eventos extremos, doenças ou problemas de mercado.
Para Oliveira, pequenos e médios produtores também precisam de acesso mais simples aos instrumentos disponíveis, já que representam parcela relevante da produção hortícola nacional.
“FFLVO tem relógio”: depois da colheita, cada hora custa
Se os desafios começam no campo, eles continuam depois da colheita. “FFLVO tem relógio”, resume Valeska de Oliveira Ciré, Country Manager da International Fresh Produce Association (IFPA) no Brasil.
A frase traduz uma característica central da cadeia de frutas, flores, legumes, verduras e ovos: cada hora perdida em transporte, armazenagem, inspeção ou falta de refrigeração pode reduzir qualidade, aumentar desperdício e corroer margem.
Ciré aponta como prioridades investimentos em cadeia fria, infraestrutura rodoviária e portuária, centros de distribuição e processos aduaneiros mais ágeis. O problema também aparece com força nas frutas voltadas à exportação.
Para o diretor executivo da Abrafrutas, Eduardo Brandão, as condições das rodovias, a falta de estrutura adequada para perecíveis em portos e aeroportos e o número insuficiente de fiscais federais agropecuários nos pontos de egresso têm dificultado os embarques brasileiros.
Na prática, a limitação de infraestrutura obriga exportadores a adaptar a operação ao que está disponível.
Júnior Silveira, sócio-diretor da Xportare, afirma que áreas refrigeradas em aeroportos muitas vezes são inadequadas para receber frutas que precisam manter temperatura controlada e que, nos portos, o número de tomadas disponíveis para manter contêineres refrigerados ligados enquanto aguardam o navio é limitado.
Segundo ele, isso exige uma forte engenharia logística para evitar que a qualidade da fruta seja comprometida antes mesmo do embarque.
As limitações se somam às dificuldades de fiscalização. Silveira cita o número considerado insuficiente de agentes do Ministério da Agricultura e da Receita Federal e afirma que greves e operações-padrão podem reduzir a fluidez dos embarques em portos e aeroportos.
Para uma cadeia perecível, a demora não significa apenas custo adicional. Pode significar perda de qualidade e, em casos mais severos, perda do próprio valor comercial.
Esse cenário ajuda a explicar por que o combate às perdas aparece como demanda transversal. Estimativas do setor apontam que cerca de 30% da produção brasileira se perde entre a colheita e o consumo.
Segundo Oliveira, além de reduzir a rentabilidade do produtor, essas perdas também contribuem para encarecer os alimentos para a população.
Competitividade não termina na porteira e nem começa no embarque
Para a IFPA, porém, infraestrutura é apenas uma parte do problema, já que a fragmentação também é um dos principais gargalos da cadeia. Segundo ela, o Brasil reúne bons produtores, empresas de tecnologia, varejistas sofisticados, exportadores competitivos e instituições de pesquisa reconhecidas, mas ainda tem dificuldade para fazer esses diferentes elos funcionarem como um sistema.
Entre os problemas estão falta de informação compartilhada sobre oferta e demanda, pouca padronização, diferenças de qualidade e especificação, rastreabilidade desigual, dificuldade de acesso à tecnologia e relações comerciais orientadas excessivamente para o curto prazo.
“Muitas vezes produzimos primeiro e perguntamos depois quem vai comprar”, afirma. Para a liderança, o caminho deveria ser o inverso: entender primeiro o consumidor e o comprador, identificar tendências e, a partir daí, planejar variedade, calendário, embalagem, certificações e volumes.
A lógica também vale para a promoção comercial. Segundo ela, o Brasil é eficiente em mostrar que produz, mas precisa avançar na capacidade de identificar quem compra, por que compra, quais atributos valoriza e quanto está disposto a pagar.
A próxima fronteira de eficiência, na avaliação da executiva, não está apenas dentro da fazenda, mas na conexão entre empresas, produção, dados, compradores e consumidores.
Exportação mostra o custo (e o ganho) das decisões públicas
A experiência recente da uva brasileira ajuda a mostrar como decisões tomadas fora da propriedade podem alterar diretamente a competitividade.
Durante anos, exportadores brasileiros enfrentaram tarifas para vender uvas à União Europeia enquanto concorrentes, como o Peru, tinham acesso preferencial ao bloco.
Com o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, a uva brasileira passou a entrar no mercado europeu sem tarifa desde 1º de maio de 2026.
Para Silveira, a mudança encerra um período de desigualdade competitiva e permite ao Brasil disputar esse mercado em condições mais próximas às de seus concorrentes.
O episódio também é citado pelo setor como exemplo de como acordos comerciais podem ampliar previsibilidade e estimular investimentos.
Porém, a abertura de mercados não depende apenas de tarifas.
Brandão destaca que o Brasil avançou fortemente na abertura de destinos para frutas nos últimos anos, com participação de parcerias público-privadas em análises de risco de pragas e promoção comercial.
Segundo ele, o próximo governo precisará manter esse ritmo e ampliar recursos destinados a programas fitossanitários.
Um dos exemplos citados é o Programa Nacional de Combate à Mosca-da-Carambola. Para Brandão, os recursos atualmente destinados ao monitoramento, prevenção e controle da praga são insuficientes para atender às necessidades do programa.
A preocupação é direta: problemas fitossanitários podem se transformar em barreiras comerciais e limitar tanto a abertura quanto a manutenção de mercados.
As quatro fontes ouvidas convergem em um ponto: frutas, legumes e verduras não podem ser tratadas apenas como mais uma extensão da política agrícola desenhada para grandes commodities.
Para a IFPA, o Brasil deveria criar uma Política Nacional de Competitividade e Promoção dos Produtos Frescos, com metas, orçamento e governança permanente entre produção, varejo, food service, exportadores, pesquisa e poder público.
Na avaliação do Ibrahort, a horticultura também precisa ganhar maior espaço nas discussões nacionais sobre política agrícola, especialmente em temas como segurança hídrica, perdas e desperdícios, adaptação climática, mão de obra, assistência técnica, comercialização e logística.
A demanda central que atravessa as diferentes posições da cadeia é a mesma: reconhecer que produtos frescos têm uma lógica própria.
Para um setor em que tempo, temperatura, aparência e qualidade determinam preço e até a possibilidade de venda, aumentar produtividade não significa apenas colher mais. Significa também garantir que uma parcela maior do que saiu da lavoura chegue ao consumidor preservandoqualidade e valor comercial.