Brasil precisa superar barreiras internas para avançar como origem estratégica no mercado global de cacau

Publicado em 25/09/2026 14:10 e atualizado em 25/09/2026 14:48
Exigências internacionais e gargalos internos desafiam a expansão sustentável da cacauicultura nacional

O mercado global do cacau atravessa um momento de profundas transformações estruturais. Impulsionado por gargalos históricos de produção na África Ocidental e pela rigidez de novas exigências socioambientais internacionais, como a regulamentação europeia antidesmatamento (EUDR), o setor busca fontes de suprimento que garantam segurança de entrega, sustentabilidade e conformidade jurídica. Nesse cenário, o Brasil emerge com potencial para se consolidar como uma origem estratégica e um hub global de cacau sustentável.

Para Luis Collaço, gerente de ESG da Nestlé Brasil, o país reúne vantagens competitivas únicas para ocupar esse espaço. "O Brasil possui uma posição privilegiada no cenário global por ser um dos únicos países que reúne todos os elos da cadeia do cacau e do chocolate, desde o cultivo até o processamento, a fabricação e o varejo", destaca. Segundo ele, iniciativas como o Nestlé Cocoa Plan e o programa Mais Inteligência, Mais Cacau demonstram que a combinação de assistência técnica, gestão rigorosa e melhoramento genético permite elevar a produtividade por hectare e a rentabilidade das fazendas parceiras.

Estimular a permanência das novas gerações na cacauicultura é um dos desafios do setor

A expansão da cacauicultura nacional foca na eficiência produtiva e no ganho de escala. Enquanto polos tradicionais na Bahia e no Pará respondem por grande parte da oferta por meio do adensamento e de sistemas agroflorestais como a cabruca, novas fronteiras agrícolas avançam impulsionadas por irrigação e novas tecnologias.

No entanto, a volatilidade gerada pela alta valorização internacional do produto nos últimos anos contrasta com a realidade cotidiana das áreas de cultivo, onde o produtor rural ainda lida com cenários de incerteza e margens operacionais apertadas.

Para Paulo Gonçalves, produtor de cacau e fundador da Espírito Cacau, o momento atual revela um cenário contraditório. "O cacau vive hoje um paradoxo: nunca alcançou tanta valorização, mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão desafiador produzir", avalia. Segundo ele, a insegurança no campo persiste devido a fatores que vão muito além da cotação internacional, incluindo problemas de infraestrutura, escassez de mão de obra especializada e dificuldades para planejar investimentos de longo prazo.

Paulo Gonçalves, da Espírito Cacau

Essa vulnerabilidade financeira é um ponto crítico para toda a cadeia. Embora ferramentas de gestão e assistência técnica ajudem a elevar a produtividade, Gonçalves alerta que a sustentabilidade precisa começar na base. "Em muitas regiões produtoras, a conta não fecha na fazenda. A baixa produtividade e a renda insuficiente dificultam investimentos em tecnologia e renovação. Se a conta não fecha para quem produz o cacau, dificilmente teremos sustentabilidade no longo prazo", pondera. Na mesma linha, Collaço reforça que o agricultor precisa estar "no verde financeiramente" para conseguir implementar práticas de preservação ambiental com segurança.

Em paralelo, a adaptação às demandas globais de rastreabilidade e desmatamento zero impõe um ritmo acelerado de digitalização. Com o avanço de normativas como a EUDR, o georreferenciamento de propriedades e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), a conformidade torna-se passaporte obrigatório para o mercado externo. Contudo, o grande obstáculo reside em simplificar processos sem penalizar o pequeno produtor. Como adverte Gonçalves, "não podemos deixar todo o custo dessa transformação nas mãos do produtor".

Para que o Brasil se consolide de fato como uma potência cacaueira global rumo a 2030, o setor precisará construir parcerias mais equilibradas, garantindo que o ganho de competitividade e a conformidade socioambiental venham acompanhados de suporte financeiro adequado e viabilidade econômica real dentro da porteira.

Pilares para o futuro da cacauicultura brasileira

Sob a ótica do produtor, Paulo Gonçalves destaca que o crescimento do setor precisa ser respaldado por uma engrenagem financeira que funcione desde a base, alertando que a alta cotação internacional não elimina os entraves de infraestrutura, a escassez de mão de obra e os riscos de longo prazo.

Para Gonçalves, o grande trunfo do Brasil diante desse novo cenário é transformar a conformidade ambiental e o rigor na rastreabilidade em ferramentas reais de valorização. Ao conectar o monitoramento tecnológico, como o uso do CAR e o georreferenciamento, à identidade de origem e à qualidade, o país deixa de comercializar apenas uma commodity genérica e passa a oferecer um ingrediente diferenciado, sustentável e com alto valor agregado para o mercado global de chocolates.

Olhando para o futuro da cultura, a Nestlé possui iniciativas que abrangem frentes vitais como a formação de novas lideranças por meio do programa Cacauicultores do Futuro, que estimula a permanência dos jovens no campo para garantir a longevidade e a sucessão familiar na atividade.

A equipe do Notícias Agrícolas participou recentemente de uma imersão na Bahia promovida pela Nestlé para o programa Cacauicultores do Futuro, vinculado ao Cocoa Plan. A ação reuniu cerca de 40 jovens em propriedades históricas e unidades industriais do estado, conectando o manejo agronômico de ponta à integração regional da cadeia, que abrange desde o cultivo em fazendas tradicionais, até o processamento nas indústrias moageiras do sul baiano e a fabricação de produtos.

 

Por: Ericson Cunha
Fonte: Notícias Agrícolas

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