Recebimento de cacau cresce 25,3% na safra 25/26, enquanto moagem inicia reação

Publicado em 09/10/2026 11:38
Moagem e exportações de derivados reagem no terceiro trimestre, enquanto o processamento de janeiro a setembro permanece 18,5% abaixo do mesmo período de 2023

A melhora da disponibilidade de cacau nacional observada ao longo de 2026 se confirmou no fechamento do ano-safra 25/26. Dados compilados pelo SindiDados – Campos Consultores e divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) mostram que o recebimento de amêndoas totalizou 226.497 toneladas entre outubro de 2025 e setembro de 2026, o que representa um crescimento de 25,3% em relação ao ciclo anterior. No terceiro trimestre, a moagem e as exportações de derivados também reagiram.  “Os resultados representam sinais positivos para a cadeia, mas a consolidação desse movimento dependerá da continuidade da produção nos próximos ciclos e de uma recuperação consistente da demanda", analisa a presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi.

No terceiro trimestre, o recebimento alcançou 71.652 toneladas, alta de 7,7% em relação ao segundo trimestre e de 5,0% em relação ao mesmo período de 2025. Foi o maior volume de um terceiro trimestre na série de 2023 a 2026. O resultado acompanha a sazonalidade da safra que concentra volumes maiores de cacau entre abril e setembro. “O fechamento da safra confirma uma melhora importante da disponibilidade de cacau brasileiro. O desafio é manter esse desempenho nos próximos ciclos, pois uma safra melhor ainda não representa uma recuperação estrutural da produção. Essa continuidade dependerá do clima, da sanidade das lavouras, da produtividade, da assistência técnica e dos investimentos no campo”, afirma Anna Paula.

Moagem reage no trimestre, mas permanece abaixo dos níveis anteriores à crise

A moagem de cacau somou 53.743 toneladas no terceiro trimestre, um crescimento de 8,1% em relação ao segundo trimestre e de 16,4% em relação ao mesmo período de 2025.  No acumulado de janeiro a setembro, alcançou 155.169 toneladas, alta de 7,7% frente a 2025, mas ainda 8,6% abaixo de 2024 e 18,5% inferior a 2023. Apesar da reação recente, ainda não recuperou os volumes anteriores à crise.

“A moagem apresentou uma reação importante no terceiro trimestre, acompanhada pelo avanço das exportações de derivados. Ainda assim, o processamento acumulado permanece significativamente abaixo dos níveis de 2023 e 2024. Para que a maior oferta de cacau se traduza em mais atividade industrial, renda e empregos, a demanda por derivados precisa se recuperar de forma consistente”, avalia a executiva.

Importação de amêndoas reflete condições de oferta e demanda

Pelo segundo trimestre consecutivo, não houve importação de amêndoas de cacau. Todo o volume importado entre janeiro e setembro de 2026, de 18.068 toneladas, ingressou no primeiro trimestre, o que representa uma queda de 57,1% em relação ao mesmo período de 2025.  A ausência de importações nos dois últimos trimestres ocorre em um cenário de maior disponibilidade de matéria-prima nacional e de moagem ainda inferior aos patamares anteriores à crise.

A AIPC ressalta que esse movimento é conjuntural e não comprova autossuficiência estrutural. “As importações têm caráter complementar, e sua necessidade varia conforme as condições de oferta e demanda. Quando a disponibilidade nacional aumenta e/ou a demanda diminui, a necessidade de abastecimento externo tende a recuar", avalia Losi.

Exportações de derivados avançam; mercado interno segue sem recuperação robusta

As exportações brasileiras de derivados de cacau somaram 17.311 toneladas no terceiro trimestre, alta de 22,1% em relação ao trimestre anterior e de 54,3% em relação ao terceiro trimestre de 2025. No acumulado de janeiro a setembro, os embarques alcançaram 44.050 toneladas, um avanço de 10,2% em relação ao mesmo período de 2025. A Argentina e os Estados Unidos praticamente dividiram a liderança entre os destinos no terceiro trimestre, com cerca de 32% do volume exportado cada um.

O avanço dos embarques contribui para explicar a melhora da moagem e constitui um dos sinais positivos do trimestre. De acordo com Anna Paula Losi, “a continuidade desse desempenho nos próximos períodos será necessária para confirmar uma recuperação consistente da demanda por derivados".

Já as importações de derivados recuaram 16,1% no trimestre, para 9.373 toneladas. No acumulado do ano, totalizaram 32.709 toneladas, uma queda de 2,0% em relação a 2025. Em conjunto com a moagem ainda reduzida em comparação histórica, o dado é compatível com um mercado doméstico ainda frágil.

Oferta e demanda precisam avançar juntas

A evolução dos indicadores brasileiros encontra paralelo no cenário internacional, com maior disponibilidade de matéria-prima, menor pressão imediata sobre a oferta e sinais, ainda que fracos, de reação por parte da moagem. A demanda, contudo, ainda está aquém do período pré-crise e as perspectivas para a próxima safra permanecem sujeitas a incertezas.

Para a AIPC, consolidar a melhora observada em 2026 dependerá tanto da continuidade da produção quanto da recuperação do consumo de derivados nos mercados brasileiro e internacional. “Os resultados do terceiro trimestre mostram uma evolução importante, mas precisamos que a produção se sustente nos próximos ciclos e que a demanda se recupere de forma consistente. É da combinação entre produção e moagem que depende a capacidade de gerar valor e sustentar os investimentos de toda a cadeia, do produtor à indústria”, conclui Anna Paula Losi.

Mercado internacional – Análise Lucca Bezzon e Leonardo Rossetti (StoneX)

O terceiro trimestre de 2026 foi marcado pela consolidação do movimento de acomodação dos preços iniciado no primeiro semestre. A recuperação produtiva observada na safra 25/26, especialmente na Costa do Marfim, ampliou a disponibilidade de amêndoas e contribuiu para a recomposição dos estoques globais, reduzindo parte das preocupações com a oferta que dominaram o mercado nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, os sinais de recuperação da demanda permaneceram graduais, limitando o potencial de recuperação mais consistente das cotações.

Ao longo do trimestre, a atenção do mercado começou a migrar da safra recém-encerrada para as perspectivas da temporada 26/27. Relatos de desenvolvimento mais lento das vagens na Costa do Marfim e em Gana aumentaram as dúvidas sobre o ritmo de chegada da nova safra aos portos, trazendo volatilidade aos preços. As condições climáticas no Oeste Africano e os primeiros sinais de fortalecimento do El Niño também passaram a ganhar relevância nas expectativas para os próximos meses.

Pelo lado da demanda, os dados de moagem indicaram continuidade da recuperação observada desde o início do ano, favorecida pela maior disponibilidade de matéria-prima e por custos inferiores aos registrados durante o pico da crise. Ainda assim, a demanda por derivados permaneceu desigual, com desempenho relativamente mais favorável para o pó de cacau do que para manteiga e liquor. Em conjunto, o trimestre foi caracterizado pela transição de um mercado focado na escassez imediata para um ambiente mais equilibrado, embora ainda dependente da evolução da próxima safra africana para definir sua direção de médio prazo.

Para o quarto trimestre, a atenção do mercado deve permanecer concentrada no ritmo de recuperação da safra 26/27 no Oeste Africano. A oferta acumulada após a forte produção de 25/26 tende a limitar os riscos imediatos de escassez e a reduzir a sustentação das cotações. No entanto, o desenvolvimento mais lento das lavouras na Costa do Marfim e em Gana, aliado às incertezas climáticas relacionadas ao Harmatã e ao fortalecimento do El Niño, devem manter os preços instáveis. Pelo lado da demanda, a maior disponibilidade de amêndoas favorece a continuidade da recuperação das moagens, embora o consumo final ainda apresente sinais de fragilidade, especialmente nos segmentos dependentes de manteiga e de liquor. Assim, o cenário mais provável combina preços abaixo dos níveis observados durante a crise de oferta, mas ainda sujeitos a elevada volatilidade, à medida que o mercado busca maior visibilidade sobre o potencial produtivo da nova safra africana.

Fonte: StoneX

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