Pesquisa provoca redução de inseticidas em parreirais de vinho

Publicado em 12/04/2011 10:02 361 exibições

Para conter a proliferação da praga Traça-dos-cachos em parreirais de uva vinífera no submédio do vale do rio São Francisco, os pesquisadores da Embrapa e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) recorreram a artimanhas sexuais a fim de frustrar a procriação da espécie.

Fizeram isso, espalhando na área cultivada um produto que sintetiza o odor do hormônio feminino (feromônio), chamado tecnicamente de Splat Crypto. Aplicado em pontos diversos do pomar como pistas falsas da presença da fêmea, o produto induz tal confusão sexual que os insetos machos passam a voar desnorteados pelo pomar saturado com o cheiro do que poderia ser uma parceira. Desta forma não há acasalamento e a fêmea passa seu ciclo de vida sem se reproduzir.

Quando começou a executar o projeto "Estratégias para o manejo integrado da traça-dos-cachos da videira", em janeiro de 2009, o engenheiro agrônomo José Eudes de Morais Oliveira, pesquisador da Embrapa Semiárido, garantiu que em armadilhas colocadas nas áreas infestadas podia-se contar até 700 desses insetos. Ao final do projeto, neste início de 2011, as quantidades encontradas caíram drasticamente para cerca de 4-5.

Um resultado dessa dimensão, se não garante a extinção da praga assegura a manutenção da população do inseto em níveis tão reduzidos que não afetam a produtividade do parreiral. O manejo pesquisado no projeto praticamente abre espaço para inverter a tendência registrada nos últimos anos da constante presença dessa praga – uma espécie de lagarta - e que tanto prejuízo tem causado às vinícolas, afirma Eudes.

A redução drástica da população do inseto nas áreas pesquisadas foi obtida sem o recurso de qualquer dose de insumos químicos. ”A técnica empregada foi bem mais sutil e sem qualquer dano para o meio ambiente ou de risco de resíduos nas frutas que podem prejudicar a qualidade do vinho e a saúde humana”.

A forma de aplicação é curiosa: o pesquisador adaptou uma pistola de vacinar gado; após carregar com o produto que tem a semelhança de uma substância pastosa de cor acinzentada, é feito um disparo no tronco da videira para deixar fixado o feromônio sintético. É tecnologia muito eficiente e que descarta a necessidade da aplicação de insumos químicos no parreiral.

A opção dos pesquisadores pela estratégia de saturar a área de plantio com o odor da fêmea e embaralhar a percepção sexual do inseto macho tem razões econômicas, ambientais e sociais, e, também, de ordem muito prática. Como no manejo das plantas viníferas não é feito o raleio do cacho, as bagas ficam muito compactados e formam um ambiente para os insetos da Traça se alojarem protegido do alcance dos inseticidas.

De acordo com Eudes, é expressivo o gasto com pulverizações de defensivos agrícolas nas vinícolas para controle dessa praga. Durante a execução do projeto da Embrapa, ele chegou a constatar aplicação desses produtos em intervalos semanais. Nesse ritmo, chega-se a fazer, em média, até dezoito pulverizações por ciclo (fase da poda à colheita) e trinta e seis por ano.

E nem assim se conseguiu evitar perdas que variaram entre 40 e 60% dos frutos. Em alguns casos, onde a infestação foi mais intensa, toda a produção foi perdida.

As lagartas ao se alimentarem dos cachos provocam lesões nas bagas que favorecem o aparecimento de fungos que, por sua vez, causam doenças e inviabilizam a utilização dos frutos para processamento ou consumo in natura.

Quando o ataque da lagarta ocorre próximo à colheita, as bagas se rompem e extravasa suco onde vão proliferar bactérias que provocam a doença conhecida como podridão ácida. A conseqüência é a redução da qualidade dos vinhos ou depreciação dos cachos para o comércio in natura.

A tática recorrente entre os agricultores do uso intenso de produtos químicos, alegando a adoção do controle “preventivo” da praga, não deu bons resultados, garante Eudes.

Embora a pesquisa tenha sido realizada no submédio do vale do São Francisco, em um ambiente de clima tropical semiárido, Eudes acredita que seus resultados podem ser empregados para orientar o manejo e controle da praga em outras regiões vinícolas do país, como o Rio Grande do Sul.

O projeto "Estratégias para o manejo integrado da traça-dos-cachos da videira" foi financiado pela Fundação de Amparo a Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco – FACEPE em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco e Embrapa Uva e Vinho.

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