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Com descontrole de cancro cítrico, Brasil corre risco de perder principal comprador de limão tahiti

Publicado em 04/07/2022 17:15
Após uma série de notificações, Mapa trabalha para reverter situação junto à União Europeia, suspende alguns exportadores e alerta para gravidade do caso

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Após uma série de notificações partindo da União Europeia para o Brasil, o setor exportador de lima ácida (limão tahiti) do país está em alerta com o risco do país perder a principal parceria comercial do setor em decorrência de cargas com cancro cítrico enviadas à Europa nos últimos meses. A informação foi confirmada ao Notícias Agrícolas por um auditor fiscal federal Agropecuário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e também pela Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). 

André Augusto Francese, auditor fiscal do Mapa, explica que o problema começou a ser observado no segundo semestre do ano passado, quando o Brasil foi notificado pela primeira vez pela União Europeia, mas se agravou entre janeiro e maio de 2022, período em que foram registradas 32 interceptações da carga brasileira em território europeu. 

O cancro cítrico é uma considerada uma doença não existente na Europa, o que aumenta a fiscalização dos produtos. O setor está em alerta porque a região corresponde por cerca de 85% do destino da lima ácida produzida no Brasil. No ano passado, os embarques foram de aproximadamente 153 mil toneladas, o que gerou receita na ordem de US$ 122 milhões no período. 

André afirma que o fechamento deste mercado poderia gerar um efeito dominó para todo o setor produtivo do país, que inclusive é responsável pela geração direta de pelo menos 200 mil empregos e traz uma nova também para as áreas produtoras de laranja. 

Para debater o assunto com a cadeia produtiva no Brasil, André conta que o Mapa já realizou duas conferências para falar sobre a gravidade do problema. A segunda reunião, que aconteceu na semana retrasada, também contou com a partipação das principais lideranças do setor, o departamento de sanidade vegetal do Mapa e as lojas agropecuárias que fornecem assistência técnicas aos produtores. 

"Eu fiz essa segunda conferência porque com o número que tínhamos em maio, estávamos preocupados com uma notificação da União Europeia e essa notificação é um passo para o bloqueio", afirma. A notificação chegou para as autoridades brasileiras na semana passada. "O Brasil recebeu a notificação da Europa onde eles deram 30 dias para nós apresentarmos um plano de ação e que garanta que não se tenha mais encaminhamento de remessa com cancro cítrico", explica. 

Acrescenta ainda que caso o bloqueio de aconteça, o problema pode ser ainda maior para o setor já que esse volume da fruta não tem espaço no mercado interno e também não é absorvido pela indústria do suco.

"Vai acontecer um efeito dominó de problema financeiro onde começa pelo produtor e vai até o exportador. O problema maior é que o tahiti está no mesmo local onde estão as plantações de laranja e o abandono desses pomares por problema financeiro e por não ter onde colocar essa fruta, vai gerar fontes de contaminação que passarão para a laranja e com isso, estou falando com você do fim da citricultura do Estado de São Paulo", acrescenta.

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Doença pode ser identificado a olho nu nos pomares
Foto: Fundecitrus

Eduardo Brandão, diretor executivo da Abrafrutas, reconhece o problema e afirma que o setor está há meses tentando evitar que as portas da União Europeia se fechem para o Brasil. Para ele, o cenário atual é uma junção de fatores dos últimos anos, principalmente a alta no custo de produção que gerou menos aplicações de produtos nos pomares e agora resultam em áreas de produção doentes no Brasil. 

O porta-voz afirma que através das informações de rastreabilidade o Mapa chegou até os exportadores que estão enviando mercadoria com cancro cítrico e suspendendo por 60 dias as atividades. Sem mencionar as empresas, Eduardo afirma que atualmente mais de 50 estão cadastradas para exportar e cerca de 15 são responsáveis pelo envio das cargas não aceitas pela União Europeia. 

"Não é mais um trabalho educativo, isso estava sendo feito no ano passado. O Mapa está indo nas propriedades, suspendendo esses embarques para União Europeia por 60 dias, que é o tempo para se fazer o diagnóstico até a empresa se enquadrar nas normas necessárias", afirma. 

Ressalta ainda que é possível detectar o cancro cítrico a olho nu e que por isso é importante que o produtor também entenda a gravidade do problema e se atente na hora de fazer a seleção. "Infelizmente tem uma cadeia toda pagando pelos erros de alguns. É um problema muito sério porque caso isso aconteça, o Brasil deve levar no mínimo para conquistar essa reabertura", conclui. 

O documento oficial para União Europeia ainda não foi enviado pelo Brasil. A Abrafrutas ressaltas que, enquanto isso, os produtores que estão suspensos pelo Mapa estão sendo orientados a escoar a mercadoria para outros destinos como por exemplo Chile e Oriente Médio, sob a condição de fazer uma boa seleção da mercadoria a ser enviada. 

Na sexta-feira passada a Abafrutas emitiu uma nota oficial destinados aos exportadores de Limão. Confira na íntegra:  

Prezados Associados e Exportadores de Limão, Fui informado pela equipe executiva da Abrafrutas sediada em Brasília que, em
reunião hoje com o Diretor da área de Sanidade Vegetal do MAPA Dr. Carlos Goulart,sobre o tema de suspensões de empresas exportadoras de limão em função de detecções de cancro cítrico nas cargas exportadas ou em exportação, processo esse
desencadeado ontem no final da tarde, foram disponibilizadas as seguintes informações:

- A DG SANTE, agencia de controle fitossanitário da UE, informou ao MAPA um total de 42 detecções de cancro cítrico em cargas de limão provenientes do Brasil, resultado da somatória das detecções do final do segundo semestre de 2021 mais as
ocorrências em 2022 até o momento. Nunca na história da relação entre o Brasil e a EU nas exportações de cítricos, tal descontrole tinha sido detectado;

- A mesma agência cobrou do MAPA explicações sobre as razões desse descontrole sobre uma praga quarentenária regulada onde o padrão deveria ser zero e quais medidas corretivas e punitivas seriam implementadas;

- Foi verificado pelo MAPA o transito interestadual de limão em carretas para outros Estados com descarga em território considerado livre de cancro cítrico com objetivo de exportação;

- Foi também verificado pelo MAPA a fuga das cargas para exportação de pontos de egresso considerados mais exigentes na fiscalização;

- Resultados de auditorias realizadas pelos serviços oficiais de fiscalização nesta semana em packing houses mostraram containers prontos para exportação com frutas contaminadas por cancro, mostrando alto risco de continuidade do problema; Diante de tais situações, o MAPA, sem consulta prévia ao setor privado decidiu:

- Suspender por 60 dias empresas e Unidades de Consolidação que tiveram qualquer detecção de cancro cítrico desde o final de 2021 até o momento;

- Intensificar as inspeções em todos os pontos de fiscalização e egresso de limão em todo o País, considerando o limão como “canal vermelho” nas exportações;

- Manter as auditorias e fiscalizações nas regiões produtoras em packings e unidades de produção;

- Recadastrar todas as UPs e UCs a partir de 1º de agosto para exportações de
lima ácida para a UE;

Foi também informado que já começaram as pressões políticas para um arrefecimento nas inspeções e em outros temas correlatos, contudo, o MAPA está fazendo o necessário para que não ocorra o fechamento do mercado da UE para o limão brasileiro e também paralisações em processos de exportação do limão e outros produtos agropecuários para a UE e outros países.

Contudo, o MAPA não abrirá mão de proteger a cadeia produtiva do limão na continuidade das exportações para a UE, bem como a reputação da Organização Nacional de Proteção Vegetal do Brasil. Considerando que as notificações formais para as empresas e UCs sobre as suspensões estão ainda em andamento e que o MAPA já sinalizou para os executivos da Abrafrutas em Brasília a manutenção do rigor e aplicação das medidas mencionadas, cabe a todos do setor a máxima atenção e respeito à legislação vigente no tema do
cancro cítrico.

Importante mencionar também que prosseguem, em ritmo acelerado, os procedimentos para operacionalização das medidas tomadas pelo setor privado com relação a melhorar os controles e garantia de qualidade das frutas exportadas daqui para a frente e que foram apresentados na última reunião da Abrafrutas com os exportadores no dia 24 passado.

Eu, como produtor e exportador de limão, fundador e Presidente em exercício da Abrafrutas, em conjunto com os membros da Diretoria e do Grupo Executivo, fiz e estou fazendo o possível para defender os legítimos interesses da cadeia produtiva da lima ácida do Brasil, visando minimizar os impactos das duras mas necessárias medidas tomadas pelos órgãos fiscalizadores.

Atenciosamente,
Waldyr Promicia
Presidente da Abrafrutas

 

Por:
Virgínia Alves
Fonte:
Notícias Agrícolas

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