Importações de leite em pó mantêm pressão sobre produtores brasileiros

Publicado em 27/01/2026 15:27 e atualizado em 27/01/2026 16:02
Setor cobra medidas nacionais e avanço da investigação antidumping para conter desequilíbrio do mercado

O aumento expressivo das importações de leite em pó mantém sob forte pressão o setor leiteiro nacional no início de 2026. Mesmo após medidas adotadas por importantes estados produtores, como Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o volume importado segue elevado, pressionando os preços pagos ao produtor e comprometendo a sustentabilidade da atividade.

O cenário foi debatido em live realizada pelo Sistema Faemg Senar nessa segunda-feira (26), que reuniu produtores, sindicatos, cooperativas, Sistema CNA, lideranças políticas e técnicos do setor. O encontro teve como foco a discussão de soluções e a busca por caminhos para reduzir os impactos das importações sobre a cadeia leiteira. No último ano, a captação aumentou 7,9% no Brasil e as importações permaneceram em patamares elevados, o que ampliou a oferta além da capacidade de absorção do mercado e pressionou os preços.

“Os produtores brasileiros estão competindo em condições desiguais. Temos uma produção eficiente, que cumpre rigorosamente as regras ambientais e sanitárias, mas enfrentamos produtos importados que chegam ao país a preços muito mais baixos”, afirma o presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio de Salvo. Segundo ele, a continuidade desse cenário ameaça a renda no campo e a permanência dos produtores na atividade.

Durante o debate, as entidades reforçaram a necessidade de medidas nacionais que tragam maior previsibilidade ao setor. “É fundamental dar continuidade à investigação antidumping e convencer o governo da urgência de medidas antidumping provisórias que garantam mais segurança ao produtor”, destaca De Salvo.

Entenda o histórico

A CNA protocolou, em 2024, pedido de investigação antidumping contra o leite em pó importado da Argentina e do Uruguai. O governo federal acatou a solicitação com base nos indícios técnicos apresentados e instaurou o processo. Em agosto de 2025, no entanto, houve o entendimento de que não haveria similaridade entre o produto importado e o leite produzido no Brasil, o que poderia interromper a investigação. Após articulação das federações, esse posicionamento foi revertido, permitindo a continuidade do processo e a possibilidade de adoção de medidas provisórias.

Segundo o assessor técnico da CNA Guilherme Dias a crise do leite se intensificou a partir de 2023, quando o aumento das importações passou a impactar de forma mais direta o mercado brasileiro. O Sistema Faemg Senar e a CNA iniciaram articulações junto ao governo federal.

O tema ganhou visibilidade nacional com a realização do 1º Encontro dos Produtores Brasileiros de Leite, em Brasília, que reuniu mais de 600 produtores. Em 2023, a segunda edição do encontro contou com mais de mil participantes e ampliou a pressão por soluções estruturais. Entre as medidas adotadas, destaca-se a publicação do Decreto nº 11.732/2023, que alterou regras do Programa Mais Leite Saudável.

Em março de 2024, mais de sete mil produtores participaram do “Minas Grita pelo Leite”, liderado pela Faemg, em Belo Horizonte. Como conquista desse movimento, o estado mineiro suspendeu o diferimento do ICMS para o leite em pó importado, iniciativa seguida por Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Alagoas e Pernambuco. No ano seguinte, o governo mineiro incluiu o queijo muçarela na diferenciação tributária.

Balança comercial reforça alerta

O histórico da balança comercial de lácteos mostra que o Brasil é, tradicionalmente, um importador desses produtos, com volumes de importação superiores às exportações na maior parte das últimas décadas. Entre o fim dos anos 1990 e os anos 2000, o país registrou déficits acentuados, impulsionados pela entrada de leite em pó principalmente proveniente da União Europeia e Nova Zelândia.

Nesse contexto, a CNA articulou a aplicação de direito antidumping contra produtos da União Europeia e da Nova Zelândia contribuiu para reduzir o ritmo das importações e trazer maior equilíbrio ao mercado interno. Observa-se novo crescimento das importações e ampliação do déficit da balança comercial, especialmente a partir de 2022.

Como consequência, a participação dos produtos importados na captação nacional saltou de patamares históricos entre 2% e 4% para níveis entre 8% e 10%, reduzindo a competitividade da produção brasileira. “Os dados mostram que instrumentos de defesa comercial ajudam a equilibrar o mercado. Não se trata de fechar o mercado, mas de garantir concorrência justa. O produtor brasileiro quer competir, desde que seja em condições iguais”, conclui Antônio de Salvo.

Fonte: Faemg

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