Acordo Mercosul–UE reacende debate sobre competitividade do leite brasileiro e pressiona cadeia por eficiência e dados
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE), assinado após mais de duas décadas de negociações e já judicializado, voltou a colocar o setor lácteo brasileiro em estado de alerta. Embora a redução de tarifas dentro de cotas para produtos como queijos e leite em pó europeus gere apreensão entre produtores, especialistas ouvidos avaliam que os maiores desafios não estão, necessariamente, na concorrência externa, mas em problemas estruturais da própria cadeia do leite no Brasil.
Do ponto de vista da prestação de serviço ao produtor rural e ao mercado, o consenso é que o acordo escancara dificuldades antigas: custos elevados, margens apertadas, volatilidade de preços, falta de dados confiáveis e baixa eficiência produtiva e industrial.
Gestão ineficiente pesa mais que tarifa, diz Embrapa.
Para o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Dr. Paulo Martins, a narrativa de que o produtor brasileiro será automaticamente prejudicado pela entrada de lácteos europeus precisa ser relativizada. Segundo ele, o principal entrave à competitividade do leite nacional está na gestão deficiente, tanto na produção primária quanto nos laticínios.
“O principal problema brasileiro é a baixa qualidade de gestão no setor primário e nos laticínios. Isso faz com que os nossos produtos sejam mais caros”, afirma. Para o pesquisador, reconhecer essa realidade é condição básica para avançar em eficiência e redução de custos.
Dr. Paulo Martins destaca ainda que é fundamental aprofundar estudos sobre os subsídios recebidos pelos produtores europeus, especialmente transferências diretas e possíveis incentivos a insumos. Caso esses subsídios sejam confirmados, caberia ao Brasil discutir medidas compensatórias. Ainda assim, ele avalia que há tempo suficiente para ajustes internos antes que o acordo produza efeitos mais concretos no mercado.“O que não dá é para não fazer o acordo. Ele será bom para o Brasil no seu conjunto”, resume.
Outro ponto sensível para o produtor é o receio de que a previsibilidade de importações europeias seja usada como argumento para pressionar o preço do leite pago ao campo. Para o pesquisador da Embrapa, essa leitura simplifica excessivamente a dinâmica do mercado.
“A indústria não é a vilã do setor”, afirma Martins. Segundo ele, quem mais captura valor na cadeia são os supermercados e as indústrias que utilizam leite como matéria-prima para outros alimentos, como biscoitos, doces e chocolates. Esses elos têm maior poder de barganha e influenciam os preços pagos aos laticínios, que acabam repassando essa pressão ao produtor.
Além disso, o grande número de laticínios no país faz com que o preço do leite seja resultado direto da oferta e demanda. Quando há escassez, como em 2022, com retração de cerca de 10% na produção, os preços sobem. Em momentos de excesso de oferta, como no cenário atual, influenciado pelo crescimento da produção e pelas importações, os preços tendem a cair.
Na avaliação de Paulo Martins, a elevada volatilidade de preços não é fruto apenas de disputas entre produtores e indústria, mas da ausência de dados confiáveis ao longo da cadeia. A falta de informações sobre produção primária e industrial cria um ambiente de incerteza, no qual ninguém consegue prever, com segurança, os preços praticados em horizontes de médio prazo.
“Isso mostra imaturidade e desorganização da indústria”, afirma. Para ele, a coleta e divulgação de dados consistentes são essenciais para reduzir a instabilidade e permitir decisões mais racionais por parte de produtores, laticínios e investidores.
Europa não muda o jogo da oferta, avalia indústria.
Do lado da indústria, o CEO da Cia do Leite, Ronaldo Carvalho, adota um tom ainda mais cauteloso ao avaliar riscos e ganhos do acordo para o setor lácteo brasileiro. Segundo ele, o tratado não altera de forma relevante a dinâmica de oferta no curto e médio prazo.
“Eu não vejo nem risco e nem ganho”, afirma. Carvalho destaca que os principais fornecedores externos de leite em pó para o Brasil já são Argentina e Uruguai, países com custos de produção mais competitivos, moeda mais fraca e logística mais favorável do que a europeia. Nesse contexto, a entrada de produtos da UE não mudaria de forma significativa o volume ofertado no mercado brasileiro.
Para ele, mesmo com subsídios, o custo da terra na Europa, a limitação de área produtiva e a força da moeda tornam o leite europeu menos competitivo frente aos vizinhos do Mercosul.
Se por um lado o acordo não deve inundar o mercado brasileiro com lácteos europeus, por outro pode abrir oportunidades pontuais para produtos brasileiros de maior valor agregado. Carvalho avalia que a exportação de commodities lácteas para a Europa é pouco viável, mas vê espaço para nichos específicos.
“Alguns produtos de valor agregado nosso podem, sim, entrar no mercado europeu”, afirma, com destaque para produtos proteicos, que vêm ganhando força no mercado interno e poderiam avançar também no exterior.
Ainda assim, ele pondera que a cadeia produtiva do leite no Brasil é conservadora e tende a reagir lentamente. Investimentos e mudanças estratégicas só devem ocorrer após a consolidação efetiva do acordo e o mapeamento claro das oportunidades.
Barreiras sanitárias e ESG entram no radar. Apesar do potencial, os entraves técnicos e sanitários são considerados reais. Segundo Carvalho, é natural que a UE busque criar barreiras sanitárias e ambientais como forma de conter a entrada de produtos brasileiros, especialmente se a balança comercial passar a favorecer o Brasil.
Nesse cenário, estados do Sul aparecem em vantagem. De acordo com o executivo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão há mais de uma década à frente de outras regiões na adequação a exigências sanitárias, certificações e práticas ligadas à sustentabilidade.
Para acessar o mercado europeu, ele avalia que será indispensável investir em ESG, rastreabilidade, certificações e, sobretudo, em uma narrativa consistente. “O europeu agrega valor contando uma boa história”, afirma, citando o apelo ambiental, familiar e emocional dos produtos lácteos vendidos na Europa.
No fim das contas, tanto a pesquisa quanto a indústria concordam em um ponto central: o acordo Mercosul–UE não cria, por si só, uma crise para o leite brasileiro, mas expõe fragilidades históricas da cadeia. Competitividade, acesso a crédito, eficiência produtiva, organização de dados, sanidade e estratégia de mercado seguem sendo os verdadeiros desafios para atender tanto o mercado interno quanto possíveis oportunidades externas.
Para o produtor rural, a mensagem é clara: mais do que temer o produto europeu, será necessário olhar para dentro da porteira e da indústria, profissionalizar a gestão e se preparar para um mercado cada vez mais exigente e volátil.