Preço do leite sobe 17,6% no primeiro trimestre e mercado reage à oferta restrita no campo

Publicado em 21/05/2026 16:18
Menor captação, custos elevados e disputa entre laticínios impulsionam valorização do leite ao produtor em 2026.

O mercado brasileiro de lácteos iniciou 2026 com forte valorização dos preços pagos ao produtor. Dados do Cepea mostram que o leite cru acumulou alta de 17,6% no primeiro trimestre, reflexo direto da redução na oferta e da concorrência mais intensa entre indústrias na busca por matéria-prima. Em março, o valor médio pago ao pecuarista avançou 10,5% frente a fevereiro, alcançando R$ 2,3924 por litro na chamada “Média Brasil”.

Apesar da recuperação recente, os preços ainda permanecem abaixo dos registrados no ano passado. Na comparação com março de 2025, o leite apresenta desvalorização real de 18,7%, considerando os dados corrigidos pela inflação oficial. No acumulado do trimestre, a média nacional ficou em R$ 2,2038 por litro, resultado 23,6% inferior ao observado no mesmo período do ano anterior.

A escalada dos preços acontece em um cenário de oferta mais curta no campo. O ICAP-L, índice que mede a captação de leite, caiu 3,9% entre fevereiro e março e acumula retração de 11,1% no trimestre. A sazonalidade climática, aliada ao aumento dos gastos com alimentação animal e às margens apertadas registradas em 2025, reduziu o ritmo produtivo em diversas regiões leiteiras do País.

Custos seguem pressionando a atividade leiteira

Mesmo com a valorização do leite pago ao produtor, os custos continuam avançando dentro das propriedades. Em abril, o Custo Operacional Efetivo da atividade registrou alta de 1,1% na Média Brasil, acumulando avanço de 3,24% nos quatro primeiros meses do ano. O encarecimento da nutrição animal, dos suplementos minerais e das operações mecanizadas continua pressionando a rentabilidade da pecuária leiteira.

O diesel foi um dos principais responsáveis pelo aumento das despesas no período. A valorização média de 5,42% do combustível impactou diretamente os custos de frete e das atividades mecanizadas nas fazendas. Além disso, suplementos minerais ficaram 7,6% mais caros em abril, com Minas Gerais registrando o avanço mais expressivo entre as regiões acompanhadas pelo Cepea.

Os concentrados também voltaram a subir após um período de estabilidade. Em São Paulo, a alta foi de 2,53% entre março e abril. A elevação ocorreu após aumentos nas cotações do milho e da soja durante março, movimento que encareceu as formulações de ração utilizadas no rebanho leiteiro.

Apesar da pressão dos custos, houve melhora no poder de compra do produtor em relação ao milho. Em março, foram necessários 29,64 litros de leite para adquirir uma saca de 60 quilos do cereal, redução de 6,3% frente ao mês anterior. O resultado foi favorecido pela forte valorização do leite, mesmo com o milho também registrando alta no período.

Derivados avançam no atacado, mas consumo perde força

A menor disponibilidade de leite no campo também sustentou os preços dos derivados lácteos no atacado paulista durante abril. Pesquisa do Cepea, realizada com apoio da OCB, apontou alta de 20,17% para o leite UHT, que fechou o mês cotado a R$ 5,03 por litro. A muçarela avançou 12,65%, alcançando média de R$ 34,86 por quilo.

O leite em pó apresentou valorização mais moderada, de 1,52%, encerrando abril em R$ 30,47 por quilo. Segundo analistas do Cepea, os estoques mais ajustados e a dificuldade de reposição da matéria-prima favoreceram os reajustes ao longo do mês. As negociações entre indústrias e canais de distribuição permaneceram aquecidas principalmente na primeira metade de abril.

Entretanto, o cenário começou a mudar na primeira quinzena de maio. O leite UHT registrou queda de 3,64% em relação à média de abril, enquanto a muçarela praticamente estabilizou. O comportamento mais cauteloso reflete uma demanda enfraquecida no varejo, diante dos preços mais altos nas gôndolas.

Os pesquisadores do Cepea avaliam que o consumidor começou a demonstrar maior resistência aos reajustes dos derivados. Isso tende a limitar novos aumentos no curto prazo, especialmente entre maio e junho. Ao mesmo tempo, a expectativa de recuperação gradual da produção eleva a cautela da indústria em relação a novos repasses ao produtor rural.

Importações seguem elevadas e exportações recuam

No comércio exterior, o Brasil registrou queda tanto nas importações quanto nas exportações de lácteos em abril. As compras externas recuaram 10% frente a março, somando 218,38 milhões de litros equivalentes de leite. Já os embarques brasileiros caíram 28,67%, totalizando apenas 3,99 milhões de litros equivalentes.

Mesmo com a retração mensal, as importações continuam bastante acima do observado no ano passado. Na comparação anual, o volume adquirido pelo Brasil cresceu 34,1%, enquanto as exportações diminuíram 14%. Com isso, o déficit da balança comercial de lácteos aumentou 35,53% em relação a abril de 2025.

O leite em pó continua liderando as importações brasileiras, respondendo por 69,2% do total comprado no exterior. Já os queijos representaram 30,1% das aquisições e apresentaram forte crescimento mensal. Nas exportações, os principais produtos embarcados foram queijos e leite condensado.

Para especialistas do setor, a combinação entre importações elevadas, consumo mais cauteloso e possível reação da produção nacional pode reduzir o ritmo de valorização do leite nos próximos meses. Ainda assim, o mercado segue atento ao comportamento da oferta nas propriedades e à capacidade de recuperação da demanda interna.

Com informações do boletim Cepea

Por: Michelle Jardim
Fonte: Noticias Agrícolas

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