Alternativas ao Diesel: Biodiesel ganha espaço com controle de qualidade e foco em frotas de alta demanda
O agronegócio brasileiro vive um momento em que a dependência exclusiva dos combustíveis fósseis se traduz em vulnerabilidade econômica e operacional. Em um cenário marcado por preços elevados do petróleo, instabilidades geopolíticas globais que afetam diretamente a logística de importação e distribuição de diesel, e gargalos com falta de produto em momentos pontuais da safra, a busca por independência energética tornou-se prioridade para o produtor rural.
É nesse contexto que o Notícias Agrícolas dá continuidade à série de reportagens especiais para abordar as principais alternativas atuais ao diesel. O biodiesel consolida-se como um pilar essencial na transição energética das frotas agrícolas, especialmente com o avanço em direção a misturas mais elevadas. Contudo, desafios técnicos inerentes à sua composição química exigem atenção rigorosa ao longo da cadeia de suprimentos.
Conforme explica Gilles-Laurent Grimberg, CEO da Actioil do Brasil e Associado da Ubrabio, a menor estabilidade oxidativa do biodiesel é uma característica química conhecida e plenamente gerenciável. Ela decorre da presença de ésteres de ácidos graxos, especialmente os mais insaturados, que são mais suscetíveis à oxidação na presença de oxigênio, calor, luz e determinados metais.
"Isso não significa que o biodiesel seja inadequado ao uso. Significa que sua qualidade precisa ser tratada de maneira diferente daquela do diesel puramente fóssil", destaca o especialista. A engenharia atua fortemente na seleção das matérias-primas, controle do processo produtivo, utilização de antioxidantes, controle de contaminantes e monitoramento contínuo. No Brasil, esse controle já é respaldado pela regulamentação, como a Resolução ANP nº 920/2023, que exige o monitoramento da estabilidade oxidativa e a rastreabilidade dos antioxidantes empregados.
Outro ponto frequentemente debatido envolve os riscos de desgaste prematuro e corrosão. Grimberg esclarece que um biodiesel dentro das especificações técnicas não provoca corrosão e pode beneficiar componentes submetidos a atrito no sistema de injeção. Os problemas operacionais costumam surgir apenas quando o combustível se degrada ou sofre contaminação por água.
"Por isso, as adaptações necessárias são essencialmente preventivas, como manter materiais compatíveis, tanques limpos, drenagem de água, filtragem adequada, controle da oxidação, redução de longos períodos de estocagem e acompanhamento periódico da qualidade. Em outras palavras, não se trata de corrigir um combustível ruim, mas de preservar um combustível bom ao longo de toda a cadeia logística", resume o executivo.
exige de cuidados específicos
No ambiente da fazenda, esse cuidado estende-se ao gerenciamento dos tanques para evitar a proliferação de fungos e bactérias. É preciso compreender que o biodiesel não cria água nem gera espontaneamente fungos e bactérias. A proliferação microbiológica depende fundamentalmente da presença de água livre, acumulada no fundo ou na interface combustível/água.
"A melhor defesa contra contaminação microbiológica é monitorar o tanque e mantê-lo seco, removendo água de fundo e fazendo inspeções periodicamente. Na prática, as medidas essenciais incluem proteger o tanque contra a entrada de umidade, realizar a drenagem periódica do fundo ao menos uma vez por semana, evitar condensação excessiva, controlar filtros e manter boa rotatividade do combustível, pois tanque bem gerenciado é tão importante quanto combustível de boa qualidade", comenta Grimberg.
Em relação ao tempo de armazenamento e ao uso de aditivos, a avaliação técnica mostra que não existe um prazo universal de validade aplicável a qualquer condição climática ou tipo de tanque. A regulamentação brasileira adota uma abordagem baseada em especificações, estabilidade e monitoramento contínuo. Quanto aos aditivos, o antioxidante atua sobre as reações de oxidação e integra o marco regulatório, enquanto o biocida é uma ferramenta específica para controle microbiológico. "Se drenar o tanque semanalmente, não é necessário utilizar o biocida. Como os micro-organismos não se desenvolvem sem a presença de água, o uso desse tipo de produto deve ficar restrito a necessidades específicas", orienta o executivo.
A versatilidade do combustível também transparece na escolha das matérias-primas. Matérias-primas com maior proporção de ácidos graxos insaturados apresentam melhor comportamento em baixas temperaturas, mas maior suscetibilidade à oxidação e índice de iodo mais elevado; já as ricas em cadeias saturadas oferecem maior estabilidade oxidativa, porém com maior tendência à cristalização sob frio intenso. "Portanto, o biodiesel não é uma formulação simples, mas sim uma composição de ésteres que pode ser adaptada, misturada e especificada para atender às condições de utilização, abrindo espaço para formulações regionais adequadas ao clima brasileiro", complementa Grimberg. No Sul, Sudeste ou em regiões de altitude, o comportamento a frio é solucionado por engenharia de formulação e uso de melhoradores de fluxo, sem necessidade de abandonar o insumo.
No que tange aos impactos em motores modernos com sistemas de pós-tratamento (DPF), estratégias de pós-injeção para regeneração podem permitir que uma parcela do combustível atinja o cárter. Devido à volatilidade diferenciada do biodiesel, sua presença no lubrificante merece acompanhamento em condições severas de marcha lenta e baixa carga. Contudo, Grimberg reforça que "não devemos transformar um fenômeno específico de determinadas estratégias de regeneração em uma condenação geral do biodiesel", já que a solução reside na calibração adequada do motor e no cumprimento dos intervalos de manutenção. Além disso, estudos mostram que o biodiesel pode até favorecer a oxidação da fuligem no DPF.
No panorama de disponibilidade do combustível, o Brasil já opera em grande escala com o B15 (mistura obrigatória de 15% em vigor desde agosto de 2025). Para teores superiores, a viabilidade depende da homologação do motor, embora a grande maioria da frota nacional já possa rodar com B100 sem adaptações. Com a revisão das regras pela ANP em 2026 para adequação à Lei do Combustível do Futuro, o espaço para usos voluntários tende a crescer. "O Brasil já acumulou mais de duas décadas de experiência com biodiesel e avançou progressivamente de misturas muito baixas até o atual B15. O próximo passo não é simplesmente colocar mais biodiesel no tanque, mas acompanhar esse crescimento com qualidade, engenharia, monitoramento, boas práticas de armazenamento e evolução tecnológica dos motores", conclui o CEO. Para a agricultura tropical brasileira, o insumo vai além da substituição parcial: "ele representa a possibilidade de transformar parte da própria capacidade produtiva do agronegócio em energia para movimentar o campo".
Em suma, o biodiesel desponta como uma rota altamente promissora e de rápida integração para a autonomia do agronegócio, trazendo como principais pontos positivos a compatibilidade com a infraestrutura e os motores já existentes, a excelente lubricidade que protege os componentes de atrito no sistema de injeção e o respaldo de normas regulatórias rigorosas para o controle de qualidade.
Por outro lado, entre os desafios destacam-se a menor estabilidade oxidativa natural, a exigência de cuidados rigorosos contra contaminação por água e a necessidade de adotar práticas preventivas estritas de armazenamento, limpeza de tanques e filtragem. Ainda assim, por seu alto potencial de resposta frente a gargalos logísticos e crises de abastecimento de petróleo, os ganhos estratégicos e operacionais superam amplamente as barreiras de controle técnico.