Mais competitiva, Argentina acelera exportações de milho enquanto Brasil projeta setembro abaixo de 2025
A maior competitividade do milho argentino começa a ganhar peso na disputa pelo mercado internacional justamente em um momento no qual o Brasil ainda tenta acelerar seus embarques. Com grande disponibilidade do cereal e preços atrativos, a Argentina caminha para exportações recordes enquanto as primeiras projeções para setembro apontam volumes brasileiros abaixo dos registrados no mesmo período de 2025, justamente em um dos principais meses para o programa nacional.
As exportações argentinas devem alcançar um recorde de 10 milhões de toneladas no acumulado de agosto e setembro, segundo informações divulgadas essa semana pela Agência Reuters. O movimento é sustentado por uma safra 2025/26 estimada em 71,7 milhões de toneladas, produção que seria recorde, e pela procura internacional diante das dificuldades envolvendo o milho ucraniano e das perdas provocadas pelo calor em partes da Europa.
Segundo Gustavo Idigoras, presidente da CIARA-CEC, entidade que representa exportadores e processadores argentinos, o milho do país apresenta atualmente competitividade tanto em preço quanto em disponibilidade.
Do lado brasileiro, a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) estima embarques de 5,2 milhões de toneladas de milho em setembro, ante quase 7 milhões no mesmo mês de 2025. Segundo a entidade, o milho brasileiro enfrenta neste ano maior concorrência de países como Argentina e Estados Unidos, além da disputa com a demanda doméstica, especialmente do setor de etanol.
Os primeiros dados oficiais de setembro também mostram um ritmo ainda inferior ao do ano passado. Nos quatro primeiros dias úteis do mês, o Brasil embarcou 1,13 milhão de toneladas de milho, com média diária de 281,6 mil toneladas, queda de 18,1% frente às 343,8 mil toneladas por dia registradas em setembro de 2025.
Apesar da diferença negativa na comparação anual, houve recuperação em relação a agosto, quando o Brasil exportou, em média, 221,7 mil toneladas por dia. O ritmo observado no início de setembro é cerca de 27% superior ao do mês anterior.
A maior presença argentina já aparecia entre os pontos de atenção para o programa brasileiro de exportações. Em entrevista recente ao Notícias Agrícolas, Luiz Fernando Gutierrez, coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, destacou que o ritmo dos embarques vinha abaixo do esperado e apontou a Argentina como um dos principais riscos para o desempenho brasileiro.
Segundo Gutierrez, a maior oferta disponível e os preços competitivos do milho argentino aumentam a concorrência entre as duas origens, que disputam compradores em comum. A Hedgepoint trabalha com exportações brasileiras próximas de 41 milhões de toneladas em 2026, o que estaria em linha com o acumulado em 2025, mas o analista ressaltou que a projeção poderia ser revisada caso o ritmo dos embarques permaneça mais fraco.
O cenário de competição internacional também passa pelos Estados Unidos. Em entrevista ao Notícias Agrícolas na quarta-feira (9), Eduardo Vanin, analista e estrategista sênior da Marex e da Agrinvest, avaliou que a recente valorização do milho em Chicago reduziu a competitividade que o produto norte-americano vinha apresentando nos últimos dois anos.
“Do ponto de vista da competitividade do milho americano, foi embora. Não consegue mais ser competitivo como foi nos últimos dois anos”, afirmou.
Vanin relaciona parte da valorização recente das cotações às incertezas envolvendo os fluxos de grãos pelo Mar Negro. Assim, embora os Estados Unidos tenham exercido forte concorrência sobre o milho brasileiro ao longo do ano, o cenário mais recente de preços pode reduzir parte dessa vantagem.
Os dados disponíveis ainda não permitem afirmar que a Argentina esteja retirando diretamente mercados do Brasil. O que se observa é uma oferta argentina maior e competitiva justamente em um período no qual o programa brasileiro permanece abaixo do ritmo de 2025.
As próximas semanas serão importantes para mostrar se a recuperação observada no início de setembro ganha consistência ou se a projeção mais baixa da Anec se confirma. Caso os embarques permaneçam aquém do ano passado, cresce a atenção sobre o cumprimento das projeções brasileiras para 2026 e sobre o papel da demanda doméstica na absorção do milho disponível no país.