Em O GLOBO: Cavendish, Cachoeira e outros presos na Operação Saqueador são transferidos para Bangu 8

Publicado em 02/07/2016 15:41 e atualizado em 03/07/2016 18:24
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Falta de tornozeleiras cria impasse sobre ida dos detidos para prisão domiciliar. (POR POR JULIANA CASTRO)

RIO - Os cinco presos na Operação Saqueador — o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o ex-dono da Delta Fernando Cavendish, o ex-diretor da construtora Cláudio Abreu, o empresário Adir Assad e Marcelo Abbud — foram transferidos, na tarde deste sábado, para o presídio Bangu 8, para onde geralmente são enviados os detidos que possuem curso superior. Cavendish e Assad são formados em engenharia e Cachoeira, em administração. Eles estavam no presídio Ary Franco, em Água Santa, na Zona Norte do Rio.

Na sexta, o desembargador Antonio Ivan Athié, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, converteu a prisão preventiva de cinco alvos da operação, entre eles Cavendish e Assad, em prisão domiciliar. O MPF vai recorrer da decisão.

A decisão do desembargador determina que os cinco envolvidos deverão usar tornozeleiras eletrônicas. O juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, no entanto, decidiu que os presos comprovem ocupação lícita e que a Secretaria estadual de Adminsitração Penitenciária forneça tornozeleiras eletrônicas antes de soltá-los. Enquanto isso não acontecer, os presos na operação com curso superior podem ir para Bangu 8.

A defesa de Cachoeira disse que já apresentou o diploma do cliente. O advogado Kleber Lopes disse ainda que vai entrar com habeas corpus no plantão judiciário, o que deve ser feito por outros advogados dos presos:

— Ele não pode ficar preso porque não tem culpa de o estado não ter tornozeleira eletrônica — disse o advogado de Cachoeira.

A defesa de Cavendish também entrou com habeas corpus no plantão judiciário para que o cliente possa ir para casa, mas a medida foi negada. Os advogados tentam agora que o pedido seja aceito na segunda instância.

Cavendish foi preso quando retornou ao Rio, na madrugada deste sábado. Quando a Operador Saqueador foi deflagrada, na última-quinta-feira, policiais federais foram até o apartamento de Cavendish, no Leblon, mas ele não foi encontrado porque estava na Europa. Ele viajou no dia 22 de junho.

Em nota, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Rio informou que ainda não recebeu o pedido para a soltura dos presos na Operação Saqueador, mas, no momento, não possui tornozeleiras eletrônicas para serem colocadas neles.

"A Seap informa ainda que eles podem ir para prisão domiciliar sem tornozeleira, desde que o juiz autorize.A Seap esclarece que vem se esforçando para honrar seu compromisso junto ao fornecedor para que a entrega e manutenção das tornozeleiras sejam normalizadas", diz a nota.

O MPF ofereceu denúncia contra Cavendish, Cachoeira, Adir Assad e mais 20 pessoas por envolvimento no esquema de lavagem de verbas públicas. A denúncia foi aceita pela Justiça do Rio. De acordo com o procurador da República Leandro Mitidieri, cerca de R$ 370 milhões foram desviados de obras públicas feitas pela Delta e lavados por meio de 18 empresas de fachada, criadas por Cachoeira, Assad e Marcelo Abbud, que também foi preso. Depois, o dinheiro era sacado em espécie e distribuído a agentes públicos, dificultando o rastreamento. Abbud e o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste e Distrito Federal Claudio Abreu também foram beneficiado pela decisão do desembargador e vão para a prisão domiciliar.

Justiça nega recurso e mantém Cachoeira, Cavendish e outros presos na Operação Saqueador em Bangu 8

RIO — O segundo pedido de habeas corpus impetrado pela defesa dos réus da Operação Saqueador foi negado pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região neste domingo. Com a decisão do desembargador José Ferreira Neves, o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o ex-dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, e outros três presos permanecerão em Bangu 8, no Complexo Penitenciário de Gericinó, à espera de tornozeleira eletrônica. Já existe uma decisão judicial que converte a prisão preventiva deles em prisão domiciliar com o uso do equipamento. Mas as tornozeleiras estão em falta por causa de atrasos de pagamento do Estado do Rio ao fornecedor. De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), a situação deve ser normalizada na quinta-feira.

 

Também permanecem presos o ex-diretor da construtora Cláudio Abreu e os empresários Adir Assad e Marcelo Abbud. Cavendish e Cachoeira recorreram à Justiça para serem soltos e não penalizados pela crise financeira do governo estadual. O juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, determinou que eles comprovem ocupação lícita e que a Seap ponha as tornozeleiras antes de soltá-los. No sábado, eles foram transferidos do presídio Ary Franco, em Água Santa, para Bangu 8, porque comprovaram ter diploma de curso superior. Cavendish e Assad são formados em Engenharia, e Cachoeira, em Administração.

A Seap alegou que está “se esforçando para honrar seu compromisso junto ao fornecedor para que a entrega e manutenção das tornozeleiras seja normalizada”, e que espera ter equipamentos disponíveis esta semana, inclusive com a devolução de alguns que estão em uso ou em manutenção.

Em nota, a Seap chegou a dizer que os presos poderiam ir para casa mesmo sem o monitoramento, caso tivessem autorização judicial.

Kleber Lopes, que defende Cachoeira, explicou o pedido de habeas corpus:

— Ele não pode ficar preso, porque não tem culpa de o estado não ter a tornozeleira.

Os cinco são acusados de integrar esquema que desviou R$ 370 milhões de obras públicas feitas pela Delta.

Quem determinou a transferência para prisão domiciliar, na sexta-feira, foi o desembargador Antonio Ivan Athié, do TRF da 2ª Região. O Ministério Público Federal informou que vai recorrer. A decisão de Athié terá, então, que ser submetida aos outros dois integrantes da 1ª Turma Especializada Criminal do TRF-2, os desembargadores Abel Gomes e Paulo Espírito Santo.

Cavendish foi preso quando retornou ao Rio, na madrugada deste sábado. Quando a Operação Saqueador foi deflagrada, na última-quinta-feira, policiais federais foram até o apartamento de Cavendish, no Leblon, mas ele não foi encontrado porque estava na Europa. Ele viajou no dia 22 de junho.

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ESTADÃO: Falta de tornozeleira impede prisão domiciliar de Cavendish

CONSTANÇA REZENDE - O ESTADO DE S.PAULO

Por causa da crise financeira que atinge o Rio, Secretaria de Administração Penitenciária está sem recursos para equipamento

RIO - Um impasse na prisão do empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta Construções S/A, no fim da madrugada deste sábado, 2, fez com que ele fosse transferido para o Presídio de Bangu 8, na zona oeste do Rio de Janeiro. Cavendish estava no Presídio Ary Franco, em Água Santa, na zona norte, um local de triagem dos detidos.

O desembargador Ivan Athié, do Tribunal Regional Federal (TER-2), converteu a pena de Cavendish para prisão domiciliar, na última sexta-feira, 1º. Na decisão, Athié determinou que ele usasse tornozeleiras eletrônicas, entregasse os passaportes e para que não saísse do País.

Empresário teve a prisão decretada pela Justiça, a pedido do Ministério Público Federal

Empresário teve a prisão decretada pela Justiça, a pedido do Ministério Público Federal

Porém, por causa da crise financeira do Rio, a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) está sem recursos para fornecer tornozeleiras para os presos. Por isso, a Justiça determinou que ele fosse transferido para Bangu 8, para onde são levados os presos com nível superior.

A decisão do desembargador também vale para o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o empresário Adir Assad, Claudio Abreu, ex-diretor da Delta, e o empresário Marcebo Abbud, também acusados de participar do esquema usar empresas fantasmas para transferir cerca de R$ 370 milhões de recursos obtidos pela Delta para o pagamento de propina a agentes públicos. Eles tiveram a prisão decretada pela Justiça, a pedido do Ministério Público Federal.

O advogado de Cachoeira, Marcel Versiani, criticou a decisão da Justiça da transferência para Bangu.

"Se não há tornozeleira, a Justiça deve determinar a soltura dele. Não pode transferir para o nosso cliente a omissão do Estado de não fornecer o equipamento. É o que manda a jurisprudência", disse Versiani.

Ao ser liberado para a prisão domiciliar, Cavendish deve seguir para o seu apartamento da Rua Delfim Moreira, local nobre do bairro do Leblon, na zona sul. Por nota, a  Seap informou que os presos poderiam ir para prisão domiciliar sem tornozeleira, desde que o juiz autorize.

"A Seap esclarece que vem se esforçando para honrar seu compromisso junto ao fornecedor para que a entrega e manutenção das tornozeleiras sejam normalizadas. Cabe ressaltar que ainda não foram apresentados os diplomas de nível superior", informou a secretaria. 

Cavendish foi preso no Aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador, na zona norte do Rio de Janeiro. Ele foi escoltado por agentes da Polícia Federal, depois de chegar de um voo vindo de Roma. Ele estava fora do País desde o dia 22 de junho. Depois de passar por exames no Instituto Médico Legal (IML), ele foi encaminhado para o Presídio Ary Franco.

 

Operação Lava Jato/ESTADÃO

Metade dos R$ 100 mi da Andrade Gutierrez ao PT foi propina, aponta delator

POR RICARDO BRANDT, JULIA AFFONSO, FAUSTO MACEDO E FÁBIO SERAPIÃO/BRASÍLIA

 

Otávio Azevedo afirmou em delação premiada que dos valores repassados ao partido entre 2009 e 2014, de R$ 38 milhões a R$ 48 milhões foram corrupção

O ex-diretor da Andrade Gutierrez Otávio Marques Azevedo afirmou em sua delação premiada que dos cerca de R$ 94 milhões que a empresa doou para o PT, entre 2009 e 2014, cerca de 40% a 50% eram propinas por contratos no governo federal. A origem seriam os contratos da Petrobrás, nas obras das usinas de Belo Monte, no Pará, e Angra 3, no Rio, estádios da Copa, entre outras.

“As doações ao PT de 2009 a 2014 de R$ 94 milhões, estimando o depoente que R$ 40 milhões foi de propina”, afirmou Azevedo, em sua delação premiada fechada com a Procuradoria Geral da República. “O valor da propina de R$ 40 milhões é estimado, podendo ter ficado entre R$ 38 milhões e R$ 48 milhões.”

A Andrade Gutierrez é uma das maiores doadoras de campanhas e partidos. Em 2014, ela foi a segunda maior doadora, com repasses de R$ 93,6 milhões. O PT foi o partido mais beneficiado, com R$ 39,3 milhões. (Veja os maiores doadores)

OTAVIO SOBRE DOAÇOES PT

Investigadores da Lava Jato comprovaram que dinheiro da corrupção descoberta na Petrobrás abasteceu os caixas do partido. As doações oficiais para as legendas e para as campanhas foram usadas como mecanismo de lavagem de dinheiro. Em Curitiba, a força-tarefa da Procuradoria da República prepara ações cíveis para acionar na Justiça os partidos envolvidos. Os procuradores conseguiram com a Andrade o maior acordo de leniência já feito na Lava Jato, a empreiteira vai pagar R$ 1 bilhão pelo envolvimento em fraudes em contratos públicos.

Em sua delação premiada, o ex-presidente da Andrade deu detalhes sobre o acerto milionário de propinas com o PT, das cobranças frequentes feitas pelo ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto e sobre a relação dos pagamentos com interesses do grupo em contratos com o governo federal.

Propina retroativa. “Em 2008, no tocante a à doação da campanha, Flávio Machado (executivo e delator) foi procurado pelo tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, sobre um assunto novo, que deixou Flávio Machado preocupado”, conta o ex-presidente da Andrade. “O assunto o pagamento de propina de 1% sobre todas as obras federais presente, futuras e passadas da Andrade Gutierrez, isto é, de 2003 para frente”, afirmou Azevedo.

Ex-tesoureiro do PT, Ferreira – preso agora na Operação Custo Brasil, que apura propinas ao PT via Ministério do Planejamento – teria marcado uma reunião em que participaram ele, João Vaccari e o então presidente do PT, Ricardo Berzoini.

“Berzoini objetivamente disse a orientação, que deveriam contribuir com 1% sobre toda as obras federais que a Construtora Andrade Gutierrez tivesse. Não se propôs a virar um comercial da Andrade Gutierrez, no sentido de o PT ajudar em troca de propina paga”, afirmou o delator. “Não era comissão (os 1% dos contratos) nem nada do tipo por intermediação, era propina mesmo.”

Para o ex-presidente da Andrade, “a consequência de não pagar estava implícita do fato de o PT ser do governo federal”. “Foi o que o depoente entendeu.”

OTAVIO SOBRE DANO NO PT

Azevedo explicou que os executivos do setor de construção do Grupo Andrade Gutierrez consideram “esse tipo de coisa”, propina, “como um custo comercial qualquer”. Mas que após reuniões internas, a empresa aceitou os pagamentos “presentes e futuros”, rejeitando a propina retroativa a todos contratos desde 2003. Contou ainda que “deu o cano” no PT em muito acerto de propina.

Cobrador de carnê. Além de Azevedo, executivos da Andrade fizeram também acordo de delação premiada. Nos termos, eles detalham o papel de Vaccari como cobrador das propinas e registram as visitas do ex-tesoureiro do partido na sede da empresa em São Paulo. “A postura del era burocrática, como um cobrador de um carnê”, disse o ex-diretor. “Vaccari dizia claramente, ‘na lata: vocês estão atrasados com Belo Monte'”.

A empreiteira foi uma das principais integrantes do Consórcio Construtura da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, valor de R$ 15 bilhões na obra.

OTAVIO SOBRE VACCARI COBRANÇAS

Ao todo, a Andrade Gutierrez doou entre 2008 e 2014 um total de R$ 292,5 milhões para os partidos políticos. É o que mostrou um laudo pericial contábil da Polícia Federal, anexado aos autos da Lava Jato. A tabela foi feita com base na análise dos dados da contabilidade da empresa e confirmam os valores citados pelo ex-diretor. O PT é o partido que aparece com maior volume de recursos recebidos, R$ 91 milhões – equivalente a 31%. O PSDB é o segundo com R$ 72 milhões (24%), seguido do PMDB, com R$ 63 milhões (21%).

O ex-presidente do grupo afirmou em sua delação premiada o aumento de doações ao PT em 2011 em relação a 2007 – anos sem eleição – tem relação com “saldo de campanha” e “propina mesmo”. “Sobre as transferências de valores ao PT fora do período eleitoral, em 2011, bastante elevado relativamente aos anos anteriores, à reunião de 2008 com certeza fora esses fatores, reto de dívida da campanha de 2010 e parte da propina solicitada.”

OTAVIO SOBRE DOAÇÕES FORA DA ELEIÇÃO

laudos doações

O procurador da República, da força-tarefa da Operação Lava Jato afirmou que a ocultação de propinas em doações eleitorais e partidárias afeta o equilíbrio da democracia. “É muito claro, com base em estudos no Brasil e no exterior, que as doações, como vinham acontecendo por parte de empreiteiras, acabavam gerando uma captura do Estado. Isso não mostrava que as doações eram corrupção, mas sim funcionavam dentro de um esquema imoral. As mesmas empreiteiras doavam para partidos A e para o partido concorrente B valores semelhantes, o que mostra que ela não estava fazendo exercício de uma opinião político-partidária, mas estava fazendo investimento na expectativa de que aquelas doações, em algum momento, gerassem um retorno econômico. Era imoral, era par obter benefícios. O que a Lava Jato veio para mostrar, além disso, é que em diversos casos essas doações, além de serem imorais , elas eram ilegais. Eram um simples mecanismo para disfarçar a corrupção. Era a venda da democracia.”

Ricardo Berzoini não foi localizado.

COM A PALAVRA, O PT

“O Partido dos Trabalhadores refuta totalmente as ilações apresentadas. Todas as doações que o PT recebeu foram realizadas estritamente dentro dos parâmetros legais e posteriormente declaradas à Justiça Eleitoral.”

Assessoria de Imprensa do PT Nacional

COM A PALAVRA, A DEFESA DE JOÃO VACCARI NETO

“A acusação que é dirigida ao Vaccari tem por base palavra de delator, que não é prova de nada. A palavra do delator depende de provas para sua confirmação. Essas provas inexistem porque tal fato não é verdadeiro.”

Na VEJA: Doleiro diz ter vídeos que provam negociação de propinas para PMDB

Preso, Lúcio Funaro diz que operava um esquema que recolheu 100 milhões de reais para o partido

O doleiro Lúcio Bolonha Funaro sabia que, uma hora qualquer, seria alcançado pela Lava-Jato. Aconteceu na manhã de sexta-feira passada, quando foi preso preventivamente. Tanto sabia que, nas últimas semanas, passou a conversar com advogados sobre a possibilidade de fazer delação premiada. Figurinha fácil em escândalos, Funaro tem muito a dizer e a mostrar. A pessoas próximas, ele já afirmou ter recebido 100 milhões de reais de empresas com contratos públicos, propina desembolsada para remunerar serviços do deputado Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara, de quem é um antigo parceiro de negócios. Funaro também contou que boa parte dos 100 milhões foi transferida, a mando de Cunha, a caciques do PMDB e deputados do chamado "centrão", o que explicaria a eleição de Cunha para o comando da Casa. Como delator, Funaro terá de provar o que diz para conseguir a redução de pena. Aos advogados, disse que isso não será difícil. Ele garante ter gravado empresários e parlamentares que visitaram seu escritório em São Paulo para discutir os valores dos contratos e das respectivas propinas. Gravação em vídeo, para não deixar margem a dúvidas.

A prisão de Funaro é um desdobramento da delação de Fábio Cleto, ex-­vice-presidente da Caixa Econômica Federal e, assim como o doleiro, notório operador de Eduardo Cunha. Cleto declarou à força-tarefa da Lava-Jato que Cunha cobrava propina das empresas interessadas em obter recursos do FI-FGTS, um fundo de investimentos em infraestrutura administrado pela Caixa. Em cada contrato, segundo disse Cleto, Cunha embolsava entre 0,3% e 1% do valor total. Cabia a Funaro participar da coleta da comissão. O método teria sido aplicado quando o FI-FGTS aprovou o repasse de 940 milhões de reais à Eldorado Celulose, empresa da J&F, holding que abriga também a JBS, a maior empresa de carnes processadas do mundo. Os investigadores descobriram que Funaro, nessa operação, arrecadou ao menos 9 milhões de reais, o que confere com o 1% de que fala Cleto. A Polícia Federal fez busca e apreensão na sede da JBS e na casa de seu dono, Joesley Batista, em São Paulo. Na delação, Cleto disse que Cunha também embolsou propina em operações do FI-FGTS com a OAS e a Odebrecht.

A corrupção no fundo funcionava no modelo tradicional. Cunha escalava Cleto, seu preposto na Caixa, para criar dificuldades, e, depois, vendia facilidades. Se a empresa não pagava a propina, Cleto pedia vista do processo. Certa vez, Cunha contou com a ajuda de Henrique Eduardo Alves, ex-ministro de Dilma e Temer, então na presidência da Câmara, para pressionar a cúpula da Caixa a aprovar a liberação de recursos do FI-FGTS à OAS Óleo e Gás e ao Estaleiro Atlântico Sul, de propriedade da Camargo Corrêa e da Queiroz Galvão. No gabinete de Henrique Alves, Cunha disse a executivos da Caixa que, se o dinheiro não saísse, Cleto impediria o avanço de qualquer projeto de interesse do governo. Conforme revelado por VEJA.com, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, já denunciou Henrique Alves, Eduardo Cunha, Fábio Cleto e Lúcio Funaro por participação no esquema de corrupção da Caixa. O cerco ao PMDB é amplo e irrestrito. Outro delator acusou o presidente do Senado, Renan Calheiros, e a cúpula do partido de receber propina de um ex-dire­tor do grupo Hypermarcas.

Renan é investigado em oito inquéritos da Lava-Jato, mas a situação de Cunha é bem mais delicada. Com dois de seus tarefeiros capturados, Cunha recorre à estratégia de sempre: a ameaça. No domingo 26, o deputado visitou o presidente interino Michel Temer no Palácio do Jaburu. Pediu ajuda para se salvar da cassação de mandato e, caso renunciasse à presidência da Câmara, para eleger um aliado para o posto. É notório que Cunha levantou muitas doações de empresas ao PMDB e, por isso mesmo, pode causar um estrago enorme aos peemedebistas que hoje ocupam cargos de destaque em Brasília. "O Cunha pode implodir o governo Temer", disse Funaro numa conversa recente. Pode ser bazófia. Ou não. Procurado por VEJA, Cunha disse que não recebeu recursos ilícitos: "Quero ver provar". Temer, por sua vez, pôs sua equipe em campo para tentar atender, nos bastidores, às exigências de Cunha.

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Pena da política tem de ser Lava Jato perpétua, por JOSIAS DE SOUZA (UOL)

Não se fala noutra coisa. A corrupção generalizou-se de tal forma no Brasil que ficou impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de corrupto. Pela primeira vez desde a chegada das caravelas, a gatunagem é combatida em toda sua latitude. E a plateia, que morria de passividade, passou a viver uma epidemia de cólera, desnorteando as autoridades.

Uma característica curiosa da corrupção era observada nos partidos políticos. O corrupto estava sempre nas outras legendas. Agora, ele está em toda parte. Outro traço marcante era que, guiando-se por algum autocritério, todos os políticos eram probos. Hoje, são honestos apenas até a próxima delação. O suor do dedo respinga em todos —de vermelhos a bicudos. Não se salvam nem os mortos.

Não há mais alternância no poder. O que existe é uma mera mudança de cúmplices. Confirmou-se a velha suspeita de que o sistema político brasileiro não é constituído por três poderes, mas quatro: o Legislativo, o Executivo, o Judiciário e o Dinheiro, que paira sobre os outros.

Todo aquele idealismo, aquele ímpeto de servir à sociedade, aquela ânsia de entregar-se ao bem público, toda aquela conversa estava impulsionada pela grana. Para entender o Brasil, era indispensável um certo distanciamento. Que começava com a abertura de contas secretas (se preferir, pode me chamar de trusts) na Suíça.

Dois fenômenos empurram a política para os novos tempos: a disposição dos países estrangeiros de colaborar no combate à roubalheira e a percepção de que corrupção passou a dar cadeia no Brasil. Para reduzir as penas, os corruptos levam os lábios ao trombone, oferendo matéria-prima para o avanço das investigações. Hoje, quem ama o feio leva muito susto.

Ouve-se ao fundo um zunzunzum a favor da fixação de um prazo para as investigações. “Os principais agentes da Lava Jato terão a sensibilidade para saber o momento de aprofundar ao extremo e caminhar para uma definição final. Isso tem que ser sinalizado”, disse o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) dias atrás. Hã, hã… O país não pode ficar dez anos nessa situação”, ecoou Michel Temer. Hummm!

Já está entendido que desse mato não sai coelho. Sai apenas jacaré, Renan, cobra, Sarney, hiena, Jucá, gambá, Cunha, porco-espinho, Zé Dirceu, gorila, Vaccari e um etcétera pluripartidário. Pela primeira vez, a oligarquia é investigada, encarcerada e presa. Verificadas as circunstâncias, é possível ser otimista a, vá lá, médio prazo, e ver o lado bom das coisas, mesmo que seja preciso procurar um pouco.

Num instante em que a força-tarefa de Curitiba começa a abrir filiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, fica claro que a saída para o combate à roubalheira é a federalização do modelo Lava Jato de investigação, uma engrenagem que tritura o crime com quatro pontas: Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público e Judiciário.

Se as últimas investigações demonstram alguma coisa é que o sistema político brasileiro apodreceu. A corrupção tornou-se um atributo congênito do político, como as escamas do peixe. A cosa nostra só voltará a ser coisa nossa quando os larápios se convencerem de que a festa acabou.

Como disse Temer, “o país não pode ficar dez anos nessa situação”. Contra um assalto intermitente, exige-se uma vigilância permanente. A política brasileira talvez volte ao normal se for condenada à Lava Jato perpétua.

Fonte: O GLOBO + ESTADÃO + VEJA + UOL

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