Na Bloomberg: Produtores da Ucrânia se preparam para o plantio de milho e trigo

Publicado em 06/03/2014 16:33

As tensões crescentes com a Rússia estão aumentando as preocupações de produtores rurais da região de Poltava, na Ucrânia. Patrulhas policiais vigiam os municípios vizinhos para evitar ataques.  O produtor ucraniano Viktor Skochko, que se juntou a milhares de pessoas durante as manifestações contra o governo nas últimas semanas, na capital Kiev, está de volta a sua fazenda para preparar a terra para as novas safras. 

Skochko, que também é diretor da processadora multinacional Astarta Holding NV, na região de Poltava, reuniu seus agricultores na semana passada para ajudar a mantê-los focados no trabalho e lembrá-los que os seus esforços no setor agrícola são importantes para a Ucrânia. “Todos estão muito preocupados”, disse o produtor.

"Dissemos a eles que devemos nos preparar para a temporada de plantio, pois se deixarmos nosso plantio de lado, isso nos traria uma catástrofe irrevogável", afirmou Skochko, que trabalha na agricultura desde 1983. "Somos agricultores e nosso dever é produzir alimentos".
 
Skochko gerencia 2.900 funcionários em uma área de 43 mil hectares. “Ainda não tivemos impactos em nossas operações, e até 15 de março deveremos estar 100% prontos para começar o plantio, se o clima permitir”.    

A Ucrânia, que já foi conhecida como o celeiro da União Soviética, deve assumir o posto de terceiro maior exportador de milho e sexto maior fornecedor de trigo, este ano. 

Alta dos grãos
Os preços dos grãos já subiram bastante no mercado internacional desde que Viktor Yanukovch foi deposto da presidência do país. Porém, há poucas evidências de que os produtores ucranianos não serão capazes de produzir trigo e milho suficientes para atender seus mercados.     

Odessa e quarto outros portos na região do Mar Negro, por onde 87% dos grãos do país são transportados, estão distantes de Crimea, portanto os embarques não devem ser afetados. A empresa Western Bulk ASA, que opera mais de 120 navios que transportam commodities, incluindo grãos, disse que o movimento de cargas não foi afetado. Os portos estão funcionando normalmente, com exceção de Sevastopol, que exige "permissão especial" para entrar e sair, de acordo com a Agência Golfo Co.

Exportações em alta 
A Ucrânia já exportou a maior parte dos grãos que produziu em 2013. 

As exportações de grãos desde 1º de julho de 2013 totalizaram 24,7 milhões de toneladas, 36% acima do volume exportado no mesmo período do ano passado, conforme informou o Ministério da Agricultura. Os embarques de fevereiro foram de 2,8 milhões de toneladas, das quais 340 mil toneladas foram enviadas nos primeiros três dias de março. 

O Ministério prevê que as exportações irão desacelerar antes da colheita deste ano, com a queda dos estoques, que devem alcançar 8,7 milhões de toneladas nos quatro meses até o final de junho. 

A consultoria agrícola AAA, com base em Kiev, aumentou sua previsão para produção de grãos no país para 57,9 milhões de toneladas. Em fevereiro, as previsões apontavam para 56,8 milhões de toneladas. Segundo Sergey Nalyvka, diretor da AAA, afirma que a umidade do solo e temperatura adequadas indicam um possível aumento na produtividade. 

Preocupações com o abastecimento 
A preocupação com o suprimento de grãos aumentou no país depois que o ex-presidente Yanukovych rejeitou estreitar os laços comerciais com a Europa, o que provocou protestos que levaram a conflitos de rua mortais e expulsão do presidente 22 de fevereiro.

Skochko disse que a mudança do governo local foi ordenada. As estátuas de Vladimir Lenin nas vilas de Shishaki e Yareski foram removidas por guindastes, sem maiores incidentes, ao invés de serem quebradas pela população. Autoridades locais planejam renomear as ruas em homenagem aos heróis da Maidan, a praça emblemática em Kiev onde a maior parte das manifestações contra o governo foi realizada. Maidan também foi o epicentro da Revolução Laranja, em 2004.

A instabilidade no país pode levar os produtores a saírem de suas terras, caso o governo ucraniano mobilize suas reservas militares, afirmou Vladimir Klimenko, o presidente da Associação de Grãos da Ucrânia, em uma conferência em Hong Kong, no dia 4 de março. Os preços domésticos do milho estão subindo, enquanto alguns produtores seguram suas vendas, como uma proteção no caso da moeda do país sofrer uma depreciação.

Com a economia da Ucrânia já em crise, o impasse com a Rússia provocou a queda da hryvnia (moeda da Ucrânia) em 10% em relação ao dólar, na semana passada. Só este ano, a moeda já caiu 12%.

A depreciação da moeda aumenta o custo da compra de insumos agrícolas cotados em dólar, como sementes, fertilizantes e combustível. “A maior parte dos produtores já comprou o que precisava até fevereiro”, afirmou Nikolay Vernitsky, diretor de pesquisa agrícola da ProAgro.

Incentivo para exportação 
A moeda mais fraca também encoraja os produtores a aumentar os embarques para o exterior.  

A Ucrânia ainda tem 1,8 milhões de toneladas de trigo e 6 milhões de toneladas de milho para embarcar, da safra de 2013, segundo a consultoria UkrAgroConsult. Os estoques globais de trigo antes da colheita deste ano irão totalizar 183,7 milhões de toneladas, 4,5% acima do volume do ano anterior, segundo informações do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). 

Os estoques globais de milho irão atingir 157,3 milhões de toneladas até 1º de julho, 17% acima do volume do ano passado. 

O setor da agropecuária representava 16% dos empregos do país e 8,2% do PIB da Ucrânia em 2010, segundo um relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). 

Celeiro da União Soviética 
Quando a Ucrânia fazia parte da União Soviética, em 1989, e fornecia cerca de 32% do trigo, os produtores colhiam 27,4 milhões de toneladas do grão, de acordo com dados do USDA. Após a dissolução do bloco em 1991, a produção caiu para 3,6 milhões, em 2003 depois que o gelo destruiu 2/3 da safra. 

O país é conhecido por ter solos pretos férteis e clima semelhante ao do estado norte-americano de Kansas. Cerca de 8% da terra arável da Ucrânia foi retirada da produção agrícola depois do colapso da usina nuclear de Chernobyl, em 1986.

Ao longo das últimas duas décadas, os produtores têm plantado menos cevada e mais milho, colhendo um recorde de 30,9 milhões de toneladas do grão no ano passado, em comparação com 3,79 milhões em 1993. A produção de cevada caiu para 7,56 milhões de toneladas no ano passado. A produção, há 20 anos, era de 13,6 milhões. Apenas os EUA e o Brasil exportam mais milho que a Ucrânia.

Informações: Bloomberg

Tradução: Fernanda Bellei

Fonte: Notícias Agrícolas

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