Empiricus: Alguém vai pagar esta conta, por Roberto Altenhofen

Publicado em 19/08/2014 12:07 e atualizado em 20/08/2014 15:19 768 exibições

00:13- O divisor de águas

Os mercados têm mais um pregão de alívio, com o dólar perto da estabilidade e a Bolsa se aproximando do patamar de 58 mil pontos, algo que não vemos desde a metade do ano passado.

Hoje o mundo ajuda, com novas evidências de resfriamento das tensões na Rússia, mas, pelo menos nos mercados, não podemos atribuir a nossa performance a elementos externos.

 

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Nota-se um descasamento entre o comportamento da Bolsa brasileira e dos principais índices de ações do mundo, representados no gráfico pelo Stoxx 500 (Europa) e o S&P 500 (EUA).

Até o divisor de águas de 14 de março, enquanto o mundo subia a nossa tendência era fortemente declinante.

A data marcou a divulgação da pesquisa CNI/Ibope, a primeira a apontar forte piora na avaliação do governo. De lá para cá tivemos muitas pesquisas eleitorais, um rali de estatais e alta acumulada de 28% para o índice de ações brasileiro.

01:26- Inflação zerada

A boa notícia desta terça-feira na esfera econômica diz respeito ao recuo da inflação: o IGP-M registrou deflação de 0,35% na segunda prévia de agosto. A queda nos índices era esperada, não somente pela estagnação da economia, mas pelo componente sazonal. 

Aqui cabe esclarecimento: a inflação não está em zero, como afirmou a presidente Dilma ontem ao Jornal Nacional. No contexto, a medição da inflação (e a meta) é anual. Como se eu dissesse que a Selic está em 0,041% (e não em 11%) porque, de ontem para hoje, a taxa over (diária) foi 0,041063%.

Mas o esclarecimento mais importante diz respeito às flutuações sazonais e sua relação com o regime de metas. A meta de inflação é de 4,5% (e não de 6,5%). Em tese você tem uma banda para cima para baixo para abarcar choques exógenos; e não um teto da meta que você persegue e comemora quando flutuações sazonais colocam dentro da banda, que por sinal é bem generosa.

01:58- Adiando o repasse também para o BB

Recentemente abordamos aqui no M5M o “grande truque” das contas públicas. Ou, como a União vem sangrando a Caixa para poupar o Tesouro Nacional e conseguir pagar benefícios sociais.

O tema posteriormente ganhou destaque na Folha de S. Paulo: “a Caixa Econômica Federal está travando uma disputa com o Tesouro Nacional porque está pagando benefícios sociais do governo, como o seguro-desemprego e o Bolsa Família, mas só recebe os repasses correspondentes com muitos meses de atraso.”

Hoje, matéria de capa do jornal Valor Econômico mostra como o governo tem feito o mesmo com o Banco do Brasil e o crédito agrícola.

 

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Neste ponto, a questão não chega mais a ser o cumprimento ou não da meta de superávit primário, mas sim a credibilidade do dado.

O superávit primário que seria, grosso modo, a “economia do governo”, ou quanto sobrou para o governo depois de pagar as suas contas, acabou tornando-se um resultado inflado por uma série de artifícios de contabilidade criativa ou itens não-recorrentes estratégicamente posicionados.

02:23- O(s) grande(s) truque(s)

Dentre esses artifícios de contabilidade criativa e/ou itens não-recorrentes estrategicamente posicionados, temos, entre outros::

+ atraso de repasses para CEF
+ atraso nos repasses para BB
+ leilão de linhas 4G
+ aumento dos dividendos distribuídos pelas estatais, em meio à tomada de dívida pelas mesmas
+ reabertura do Refis
+ leilão de excedente de produção futura do pré-sal com pagamento antecipado pela Petrobras, sem licitação

Sem contar artifícios sobre outras contas, como empurrão à balança comercial através da transferência de plataformas de petróleo para Petrobras brasileira para subsidiárias da Petrobras no exterior, sem que elas tenham se movido uma palha do lugar...

Em nosso evento de ontem, tanto Eduardo Giannetti quanto Mansueto Almeida frisaram que há espaço para ajuste nas contas públicas. Mas ambos mostraram-se receosos quanto ao real tamanho do ajuste. Antes, é preciso conhecer de fato a realidade das contas.

03:17- “Falta confiança”

O Índice de Confiança do Empresário Industrial marcou 46,5 pontos em agosto, ainda bastante aquém do nível mínimo satisfatório de 50 pontos  e da média histórica de 57,4 pontos do indicador.

O indicador subiu 0,1 p.p. sobre julho, o que seria uma boa notícia, não fosse a queda de expressiva de 6 p.p. em relação ao mesmo período do ano passado, que mostra o tamanho do atraso.

Na semana passada, Benjamin Steinbruch, da CSN e presidente interino da Fiesp, disse que “hoje em dia só louco investe no Brasil”.

04:14- Alguém vai pagar a conta

Temos algumas curiosidades interessantes na economia brasileira atual.

Queixamos de ter o maior juro real do mundo, e atualmente um juro médio para o consumidor da ordem de 43% ao ano (maior dos últimos 2 anos).

Por outro lado, temos uma TJLP abaixo da inflação e taxas bem mais baixas para alguns setores beneficiados, como exemplo juro BNDES de 6% ao ano para caminhoneiros ou transportadoras dentro do Finame, dentre outros.

Quando você cria um privilegiado, automaticamente cria um desprivilegiado.

Seja agora ou depois, alguém vai sempre ter de pagar a conta.

Dias de paz, dias de luta, por Rodolfo Amstalden

Bolsas internacionais se recuperam à medida que surgem novas notícias de trégua entre Rússia e Ucrânia. Porém, cabe a ressalva de que não existem quaisquer sinais concretos de paz duradoura por enquanto.

Na Europa, em específico, notamos também alguma esperança de que o Bacen de Mario Draghi possa ser mais generoso nos estímulos monetários. Em tese, eram os alemães que bloqueavam essa generosidade extra. Mas agora até mesmo o Bundesbank tem se mostrado preocupado com um cenário de estagnação.

Podemos falar de recessão técnica ou simplesmente de recessão. Fato é que o PIB do 2T14 provavelmente apontará recuo e a estimativa para o ano cheio caminha rapidamente para o zero a zero. Segundo nossas contas, na melhor das hipóteses, a economia brasileira fechará o ano parada. Nosso cenário base é de leve queda do PIB em 2014, com efeitos mais claros sobre o nível de emprego neste segundo semestre.

Ibovespa futuro abre em leve queda de 0,30%, com dólar futuro subindo 0,10%.

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+ BVMF3 (CP: compra, LP: compra)

Destas coisas que demoram, mas uma hora acontecem: BM&F Bovespa começou a migração para a nova clearing, plataforma capaz de juntar derivativos, ações, renda fixa e câmbio. Esse primeiro passo foi para derivativos. Com a clearing 100% implementada, o processo de pós-negociação passa a ser muito vantajoso para os clientes da Bolsa, por reduzir os requisitos absolutos de margem. Em termos práticos, isso significa menos opex, menos capex e mais negócios.

+ POMO4 (CP: neutro, LP: neutro)
Segunda prévia do Ibovespa adicionou PNs da Marcopolo e excluiu ONs da MMX. A entrada no índice dá visibilidade e estimula liquidez, mas não traz mudança nos fundamentos. Marcopolo é uma ótima empresa, redonda, com forte posição de mercado e histórico consistente de resultados. Mas a queda recente (-15% no ano) não a torna propriamente uma barganha. Diante da compressão observada no ROE e a 14x lucros 2014E, estamos neutros.

+ TELECOM
Telecom Italia estaria preparando oferta pela Vivendi no valor de 7 bilhões de euros, numa operação que daria à francesa 20% da TIM Brasil - e também da própria italiana. A oferta superaria em 250 milhões de euros a proposta da Telefónica e envolveria compra e incorporação da GVT pela TIM Brasil. Muitos rumores, não dá pra saber quem vai levar o "prêmio". Quem levar terá sérios problemas para pagar a conta. Quem não levar (principalmente OIBR) estará num contexto de concorrência pesada.

+ BBAS3 (CP: neutro, LP: neutro)
Vale a pena ler a matéria no Valor explicando como o Tesouro tem segurado repasses de subsídios agrícolas ao Banco do Brasil, de modo a maquiar o resultado fiscal. Ao mesmo tempo, o BB conversa com o ministro da Fazenda para enquadrar instrumento híbrido de capital como Basileia III. É o famoso Zé com Zé. BBAS3 sobe 23% no ano na esperança de que esse tipo de improviso seja resolvido a partir de 2015.

+ BRKM5 (CP: neutro, LP: neutro)
Enquanto PETR sobe 27% no ano, BRKM cai 25%. Braskem estuda parar produção de algumas unidades caso o preço da nafta seja de fato reajustado em circa 6% a partir de setembro. Como você pode imaginar, esse é mais um problema indiretamente associado ao subsídio à gasolina doméstica. Entendemos que a queda de BRKM5 no ano é exagerada, mas preferimos ainda aguardar os resultados desse imbróglio.

Fonte:
Empiricus

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