Global Advisor: PIB terá taxa zero em 2014 por má gestão do governo

Publicado em 29/08/2014 12:27 e atualizado em 29/08/2014 16:36 531 exibições
Na Folha de S. Paulo, Mantega nega recessão

 A queda de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo semestre somada à revisão da taxa relativa aos três primeiros meses do ano, de uma alta de 0,2% para um recuo de 0,2%, projetam um crescimento zero para a economia em 2014. "Não há mais como o PIB crescer nos terceiros e quarto trimestres a ponto de levar a economia a um crescimento superior a zero neste ano porque os investidores e os consumidores vão esperar para tomar decisões de investimentos e compras", disse o sócio-diretor da Global Financial Advisor e consultor econômico Miguel Daoud.

O baixo desempenho do PIB, que acaba de confirmar a situação econômica de recessão técnica, de acordo com Daoud, resulta da má gestão econômica por parte do governo e que tem levado os investidores e os consumidores perderam a confiança na economia. "O Ministério da Fazenda e Banco Central pisam no freio e no acelerador ao mesmo tempo. Só para dar um exemplo mais recente, o Copom aumentou a taxa de juros e o BC liberou compulsório", lembrou o consultor.

De acordo com ele, gestão econômica que leva ao crescimento requer coerência diante dos investidores e consumidores. "Estamos em uma recessão técnica e não me venha o ministro Mantega perguntar que recessão é essa em que o Brasil recebe US$ 60 bilhões de Investimento Estrangeiro Direto (IED) e a taxa de desemprego é uma das menores da história", criticou o consultor.

Para Daoud, o ministro da Fazenda Guido Mantega parece desconhecer que o IED que entra no Brasil vai para o mercado financeiro. "Não há atividade operacional mais rentável do que ingressar dinheiro no Brasil e direcioná-lo para o mercado financeiro", disse, acrescentando que se fosse verdade o que o ministro fala os investimentos em Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) não estaria caindo.

Segundo divulgou hoje o IBGE, a Formação Bruta de Capital Fixo caiu 5,3% no segundo trimestre em relação ao primeiro trimestre, a quarta queda consecutiva na margem, e recuou 11,2% na comparação com idêntico período do ano passado. Quanto ao emprego, disse Daoud, a baixa taxa de desemprego se dá pelo diferencial entre a População Economicamente Ativa (PEA) e a população ocupada. "Ocorre que a PEA não cresceu na mesma proporção do crescimento orgânico da população ocupada. Além disso, há 50 milhões de pessoas na rede de proteção social, que consomem mas não produzem, gerando desequilíbrio entre oferta e demanda e inflação", disse. 

Na Folha: Mantega culpa cenário externo, seca e Copa por PIB negativo e nega recessão

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, culpou o cenário internacional fraco, a seca –e o consequente aumento de custo da energia– e a redução de dias úteis em função da Copa pelo resultado negativo da economia brasileira no segundo trimestre.

O PIB do país caiu 0,6% no segundo trimestre na comparação com os três primeiros meses deste ano.

Como o resultado do primeiro trimestre foi revisado para queda de 0,2% (contra alta de 0,2% informado anteriormente), segundo parte dos economistas, o país entrou em recessão técnica.

É a primeira recessão técnica desde o fim de 2008, quando houve recuo de 3,9% no último trimestre daquele ano e de 1,6% no trimestre seguinte.

Mantega, entretanto, negou que o país tenha entrado em recessão.

"Não dá pra dizer [que o país está em recessão]. Não há parâmetros universalmente aceitos para definir o que é uma recessão. O segundo trimestre foi influenciado pelo primeiro e se houver uma revisão, você deixa de ter dois trimestres negativos. Não se deve falar em recessão no Brasil pois, para mim, recessão é quando se tem uma parada prolongada, de vários meses. Aqui estamos falando de um, no máximo dois [trimestres]. E recessão é quando se tem desemprego. O emprego continua crescendo e a massa salarial também. Não dá para dizer que a economia está parada. O mercado consumidor não está encolhendo."

O ministro também atribuiu o baixo desempenho do PIB às medidas adotadas pelo Banco Central para combater a inflação. "A política monetária restritiva, que foi necessária, causou uma redução de consumo de 0,7% a 1% considerando o PIB anualizado."

REVISÃO

Um dia depois de o governo divulgar previsão de alta de 3% para 2015, o ministro afirmou que o resultado do segundo trimestre "ficou aquém das nossas expectativas" e que a previsão de crescimento de 1,8% para este ano terá de ser revista.

Segundo ele, a revisão do número sera apresentada em setembro ao Congresso. Economistas esperam crescimento fraco para este ano. O último boletim Focus, do Banco Central, mostra previsão de alta de apenas 0,7%.

O ministro afirmou que vai ser preciso analisar não apenas o passado, mas também a perspectiva para o segundo semestre. Ele lembrou que, em doze meses, o crescimento anualizado do PIB é de 1,4%.

De acordo com Rebecca Palis, gerente do IBGE responsável pelo PIB, as revisões são necessárias para aplicar o ajuste sazonal no PIB, o que permite a comparação com o trimestre anterior, excluindo efeitos típicos de cada período (como feriados fixos e maior volume de safra concentrada em um trimestre).

Palis disse que é "preciso tomar cuidado" com taxas muito próximas a zero, como a do primeiro trimestre (revista de 0,2% para -0,2%), que pode voltar a ser positiva após nova revisão, nos cálculos do terceiro trimestre.

TERCEIRO TRIMESTRE

Segundo o ministro, a maior parte dos efeitos negativos do período não deve se repetir no terceiro trimestre, que, acredita, será positivo. "No terceiro trimestre vamos ter 10% a mais de dias úteis. É como termos 10% a mais de produção e comércio."

"O cenário internacional não ajudou. Os EUA tiveram PIB negativo, Japão e Alemanha também. E são países arrumados e com produtividade elevada", disse Mantega.

A desaceleração da economia internacional, segundo cálculos do Ministério da Fazenda, teve um impacto de 0,6 a 0,7% no PIB, considerando o número anualizado, e reduziu nossa capacidade de exportar.

Mas, na visão do ministro, o impacto externo não deve se repetir no segundo semestre. "Talvez tenhamos uma melhora no cenário internacional no segundo semestre", afirmou.

A Argentina também foi citada como uma das causas do fraco desempenho no trimestre. "Exportamos menos carros para a Argentina e essa é uma das causas de estarmos crescendo menos."

Apesar disso, ele disse que uma eventual ajuda do governo brasileiro para o país vizinho "não está na pauta". "A Argentina é nosso parceiro e nos reunimos com frequência", disse Mantega sobre o encontro com seu par argentino Axel Kicillof.

  Renato S. Cerqueira/Futura Press/Folhapress  
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que vai rever a previsão de alta de 1,8% para este ano
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que vai rever a previsão de alta de 1,8% para este ano

De acordo com o ministro, o segundo fator a puxar o PIB para baixo no trimestre, a seca e seus efeitos no aumento de custo da energia, também não devem gerar impacto no desempenho do segundo semestre. "A seca afetou a expectativa dos investidores e foi um fator importante que prejudicou o desempenho da economia", disse. "O impacto da seca já está absorvido."

Mantega disse ainda que o trimestre teve uma média de 20 dias úteis, abaixo dos 22 dias usuais, e que isso teve um impacto no comércio e na produção.

"No terceiro trimestre, vamos ter 22 dias úteis. Parece pouco, mas faz uma grande diferença. Sabemos que o terceiro trimestre será positivo e os dias úteis terão impacto nessa conta."

Segundo ele, as medidas do Banco Central para ampliar e baratear a oferta de crédito ao consumidor devem estimular a economia no segundo semestre. "O crédito estava muito apertado pois houve uma luta para resolver a inflação. Agora isso está resolvido e o crédito vai voltar e vai voltar a ter consumo."

O ministro disse ainda que os dados relativos ao mês de julho já indicam melhoras em relação ao segundo trimestre, em setores como papelão ondulado e vendas e produção de automóveis. Outro estímulo para a economia, segundo o ministro, virá dos investimentos nas concessões de óleo e gás, estradas e aeroportos.

"Os canteiros de obras dessas concessões já estão sendo instalados, mas vai haver um aumento do investimento na construção civil no segundo semestre."

Outro ingrediente que, na visão do ministro, vai ajudar a manter a atividade econômica é a massa salarial, que continua crescendo "de 2% a 3% na conta anualizada". "Massa salarial, mais crédito e menos inflação: pode-se dizer que o segundo semestre vai ser melhor."

Na sua opinião, parte dos problemas que afetaram a economia nos dois primeiros trimestres do ano foi "conjuntural, portanto passageira".

"A perspectiva é de crescimento moderado de forma que o ano vai terminar melhor do que começou", disse ele.

  Editoria de Arte/Folhapress  

Com o resultado do segundo trimestre, a economia brasileira acumula alta de 0,5% nos seis primeiros meses deste ano. Nos últimos quatros trimestres encerrados em junho, o PIB soma uma alta de 1,4%.

Do primeiro para o segundo trimestre, ditaram o tombo do PIB a indústria e os serviços, com quedas de 1,5% e 0,5%, respectivamente. A agropecuária teve leve alta de 0,2%.

Ao olhar a economia por outro ângulo (o destino da produção gerada por esses três grandes setores), o consumo das famílias, item de maior peso na composição do PIB, cresceu apenas 0,3%.

Já os investimentos em máquinas para a produção, transporte, agropecuária, energia, entre outros, e em construção civil tiveram forte retração de 5,3%. Esse componente é tido como dos mais importantes do PIB, pois sinaliza o quanto a economia terá capacidade de crescer no futuro por meio do aumento da sua capacidade produtiva e da infraestrutura.

Até mesmo o consumo do governo (na compra de insumos para saúde, educação e outros serviços públicos) recuou 0,7%.

Editoria de Arte/Folhapress
 

ESTAGNAÇÃO

Desde o fim de 2013, o PIB está estagnado, passado o boom do crédito e sob efeito de juros e inadimplência maiores. Endividadas, as famílias já não têm o mesmo ímpeto para gastar. A inflação maior neste ano (e concentrada em alimentos) também corroeu seus rendimentos, o que freou o consumo de bens de menor essencialidade.

Os investimentos, por seu turno, sofrem com a menor confiança de empresários, também com mais juros mais elevados e bancos menos dispostos a emprestar diante das incertezas da economia do país.

Sob o prisma da produção, a indústria sente os reflexos do menor consumo (especialmente de bens de maior valor, como veículos) e a competição cada vez maior com produtos vindos do exterior. Até mesmo os serviços, que sustentavam o PIB, já mostraram contração na esteira da crise da indústria (que contrata serviços de transporte, consultorias, empresas de terceirização e outros) e do consumo dos lares do país.

Editoria de Arte/Folhapress
 

COMÉRCIO EXTERIOR

De abril a junho, as importações apresentaram queda de 2,4% em relação a igual período do ano passado. No comparativo com o trimestre anterior, o recuo foi menor, de 2,1%.

Segundo o IBGE, tiveram destaque negativo na pauta de importações as máquinas e tratores, as compras da indústria automotiva, de equipamentos eletrônicos, de materiais elétricos, da indústria extrativa mineral, dentre outros.

Por outro lado, as exportações de bens e serviços cresceram 1,9% em relação ao segundo trimestre de 2013. A alta foi ainda maior, de 2,8%, quando comparada com os três primeiros meses de 2014.

O índice cresceu impulsionado pelo aumento nas vendas externas de produtos da indústria extrativa mineral (sobretudo petróleo e carvão), da metalurgia, da agropecuária e de outros segmentos.

Fonte:
Global Advisor + Folha

0 comentário