Mercado eleva previsão para juros (Selic) a 12% em 2015

Publicado em 03/11/2014 09:49 308 exibições
Uma semana depois da reeleição, o clima continua pesado, e o ar, praticamente irrespirável em vastos segmentos do empresariado e do mercado financeiro (por Geraldo Samor, de veja.com)

Economistas de instituições financeiras elevaram a estimativa para a Selic no fim de 2015 a 12%, sobre 11,50% previstos antes, mas a expectativa de que a taxa básica de juros fechará este ano a 11% ainda não foi alterada, mostrou nesta segunda-feira a primeira pesquisa Focus do Banco Central com projeções coletadas após a reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Na quarta-feira passada, o BC surpreendeu ao elevar a Selic em 0,25 ponto porcentual, para 11,25%, em uma decisão dividida e sob a justificativa de que os riscos para a inflação aumentaram. A alta foi bem recebida por agentes econômicos, que viram como sinal de mudança na política econômica no segundo mandato de Dilma.

A pesquisa Focus levantou projeções até a última sexta-feira e, por isso, ainda deve mostrar mudanças nas contas nos próximos relatórios. O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC tem ainda mais uma reunião neste ano, em 2 e 3 de dezembro, para definir o futuro da Selic.

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Copom surpreende e eleva taxa de juros a 11,25% ao ano 

Em relação à alta da inflação, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a projeção para este ano manteve-se em 6,45% e, para 2015 subiu ligeiramente de 6,30% para 6,32%, aproximando-se mais do teto da meta do governo, de 6,5%. O centro da meta (4,5%) fica também cada vez mais distante.

Sobre expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014, a perspectiva foi reduzida a 0,24% neste ano, frente a 0,27% de crescimento previsto antes. Para 2015 a projeção é de expansão da economia de 1%, mesmo número da pesquisa anterior.

O Banco Central elevou, na quarta-feira, a Selic para 11,25%, mas analistas ainda não incorporaram essa mudança

Decisão sobre Selic foi discutida na semana passada pelo Comitê de Política Monetária (Copom)

Decisão sobre Selic foi discutida na semana passada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) (Elza Fiúza/Agência Brasil/VEJA)

(Com agência Reuters)

O mercado e a narrativa da esperança

Uma semana depois da reeleição, o clima continua pesado, e o ar, praticamente irrespirável em vastos segmentos do empresariado e do mercado financeiro.Dilma Rousseff

A maioria das conversas começa com lamentos sobre os quatro anos “em que não haverá reformas”, prossegue com queixas em relação ao crescimento pífio que aguarda o Brasil, e termina, invariavelmente, nas divagações sobre o bolivarianismo que nos espreita — os tons de gravidade variando conforme o interlocutor.

E ainda assim, apesar de toda a retórica fatalista, a Bovespa não se jogou do precipício e o dólar sobe de um jeito comportado, em sintonia com seu fortalecimento contra todas as outras moedas.

Não apenas isso, na sexta-feira a Bolsa conseguiu um rali generalizado, que levantou tanto as empresas estatais quanto aquelas que realmente se dedicam a ganhar dinheiro.

Mas como isto é possível? O fim do Brasil já não estava sentenciado? O índice Bovespa não deveria estar nos 45 mil pontos (em vez dos atuais 54 mil)? E o dólar, não deveria estar mais próximo de 2,80 (em vez de 2,50)?

Será que estamos apenas num pitstop a caminho do Inferno?

O mercado financeiro — a mais sofisticada balança de expectativas — é um equipamento sem coloração política, sem fidelidades partidárias, que processa todas as informações disponíveis e cujo ponteiro só pretende apontar uma coisa: o clima para os negócios é favorável ou não? (Se o clima é bom, o capital tem mais chances de ir bem, e a sociedade colhe os benefícios, direta e indiretamente. Quando o clima é ruim, o capital se retrai, e a sociedade colhe PIBinho, desemprego e desesperança.)

Na última semana, as “informações disponíveis” vinham do Planalto e apontavam para um clima mais favorável. Todo o círculo íntimo da Presidente se empenhou na construção de uma narrativa para sinalizar aos mercados que Dilma 2.0 vai, sim, mudar em relação à primeira versão do software — aquela versão lenta, confusa, cheia de bugs, sempre ameaçando os jogadores com um ‘system shutdown’.

Nelson BarbosaAs peças dessa nova narrativa incluem a promessa de um ajuste fiscal “violentíssimo” (no adjetivo fornecido por uma fonte — provavelmente palaciana — à repórter Claudia Safatle, doValor) e o vazamento de uma lista de nomes sacrossantos para o Ministério da Fazenda (de São Trabuco ao padre Meirelles, passando pelo que parece ter mais chances, o beato Barbosa). Para terminar, uma pitada de juros e a iminência de um aumento da gasolina.

Obviamente, essa ‘narrativa da esperança’ encontrou terreno hostil: uma terra árida, chamuscada pela seca de credibilidade dos últimos quatro anos, e tornada ainda mais estéril depois de uma campanha que satanizou o capital. Mas, como é típico da esperança, ela ainda assim vingou, e hoje floresce no preço dos ativos. A Bovespa fechou sexta-feira quase 12% acima do ponto mínimo atingido na segunda-feira pós-reeleição.

Mas mesmo as melhores profissões de fé têm prazo de validade, e precisam ser corroboradas por atos congruentes com a retórica.

É por isso que esta semana será particularmente crítica. É improvável que o novo velho Governo, em busca de reverter um divórcio que já parecia fato consumado, consiga manter a empatia dos mercados apenas prometendo levantar a tampa do vaso da próxima vez.

Há, também, o problema da assimetria entre o dito e o feito. Agora que as expectativas foram elevadas, o custo de uma decepção seria enorme. Tomara que o Governo entenda que, se houver recuo, todo o esforço feito até agora na construção dessa narrativa se voltará contra ele, produzindo um buraco negro de credibilidade que engoliria qualquer resto de boa vontade daqui para frente. Até a capacidade do Planalto de testar ‘balões de ensaio’ seria comprometida, o que diminuiria a capacidade do Governo de lidar com crises na economia. A hora é de entregar.

Mas o que será que uma Presidente que acredita profundamente em política industrial e que, bizarramente, segue o modelo econômico da ditadura que combateu conseguirá entregar a um País eternamente em crise de abstinência de uma dose cavalar de capitalismo na veia?

A média dos economistas ortodoxos diz que, para colocar o tripé macroeconômico nos eixos, o Brasil precisaria de um superávit primário de 3% do PIB em 2015 e de um ciclo de aperto monetário que aumente a Selic entre 2 e 3 pontos percentuais a partir dos níveis atuais.

Este seria o cenário ideal, o da cartilha, e portanto improvável no País do ‘acochambramento’, do ‘puxadinho’, do ‘dar um tapa’. “Aqui a gente não faz tudo o que precisa ser feito, mas também não aceita que se faça nada,” diz um amigo da coluna. Fazemos sempre algo entre o nada e o ideal. Fazemos aquilo que chamamos, com magna condescendência, de ‘o possível neste momento’.

Assim, provavelmente, o Governo vai acabar se comprometendo com um superávit mais tépido, entre 1,5% e 2% do PIB, e o Copom subirá a Selic entre 1,0 e 1,5 ponto percentual. E os mercados ainda assim vão dar aleluias porque, além dessa esperança cuidadosamente manufaturada, ironicamente o maior ativo do Governo Dilma neste momento é o baixíssimo nível de expectativas em relação à sua capacidade de fazer a coisa certa.

A boa notícia, a se acreditar nesta tese, é que nunca nos tornaremos um País bolivariano. Mas daí a implantarmos um capitalismo de verdade, aí também já seria pedir demais.

Por Geraldo Samor

Fonte:
veja.com

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