Folha: Crise na Petrobras tem potencial para superar a do mensalão

Publicado em 15/11/2014 03:33 e atualizado em 16/11/2014 16:10 259 exibições
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ANÁLISE da folha:

Crise na Petrobras tem potencial para superar a do mensalão

IGOR GIELOW (DIRETOR DA SUCURSAL da Folha de S. Paulo em BRASÍLIA)

Mal saído das urnas, o governo Dilma enfrenta uma crise com potencial de superar a do mensalão em impacto institucional. Parece muito difícil para a presidente escapar dos respingos do viscoso óleo da corrupção encontrado pela Polícia Federal no subsolo da Petrobras.

O trabalho do governo será o de administrar o dano, imprevisível dado que ainda há muito a ser descoberto.

Para ficar na frase eternizada pelo antecessor e candidato a sucessor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, "nunca antes neste país" altos executivos de grandes financiadores de campanhas eleitorais foram presos acusados daquilo que todo mundo no universo paralelo da política sempre soube.

Três frentes políticas principais desafiam o Planalto. Primeiro, a governabilidade, já que é principalmente sobre a base aliada no Congresso e membros do Executivo que pende a espada de Dâmocles do escândalo --ao menos 70 nomes são ventilados como envolvidos em algum grau.

Segundo, a gestão do caso por Dilma. Ela era a chefe do setor energético, foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras e, no Planalto, acompanhou a estatal. Ou sabia do caso, o que nega, ou foi enganada, o que politicamente é desastroso.

A alegação de que demitiu os diretores suspeitos leva ao questionamento sobre ela ter tentado resolver o problema internamente, mas não tomando a providência legal óbvia, que seria chamar a PF e o Ministério Público.

Por fim, Dilma insiste que a polícia investigará "doa a quem doer". Com algumas das empresas mais ricas do Brasil e um caminhão de políticos sob suspeita, a PF está sob pressão --e o ministro da Justiça intimidar delegados que expressaram opiniões em redes sociais fechadas não ajuda em nada.

À mão de Dilma está o expediente de brandir a bandeira da reforma política, já que está sendo desnudado como são pagas campanhas no país. Ela já tinha voltado ao tema desde a reeleição, talvez de olho na Lava Jato.

Além disso, é preciso um plano de contingência para tentar estancar o desmoronamento da credibilidade e das ações da Petrobras.

A confusão causada pelo adiamento da divulgação do balanço da estatal e o potencial de dano da investigação contra a empresa nos EUA só agudizaram a crise.

E isso tudo ocorre com o PMDB rebelado na Câmara, com o ministério à espera de mudanças, com o mercado apostando contra o governo, com a gambiarra fiscal em evidência e com a adoção de medidas associadas à oposição.

Não é pouca coisa. Como disse um integrante do governo, há uma sensação de "dique da Holanda" em rompimento. É a maior crise do governo Dilma Rousseff.

 

RENATO ANDRADE

Petrotempestade

BRASÍLIA - A nova fase da operação Lava Jato antecipou a tempestade política que muitos previam chegar somente no início de 2015.

A prisão de executivos de empresas que respondem por boa parte do financiamento de campanhas eleitorais no país terá consequências inevitáveis sobre a forma como se faz política atualmente no Brasil.

Mas a primeira vítima efetiva da avalanche provocada pela PF será a Petrobras, estatal que está no epicentro da crise que eclodiu em março.

A credibilidade da maior empresa do país está no chão. O envolvimento de ex-diretores da estatal no esquema desbaratado pela PF travou operações corriqueiras, como a publicação do resultado da companhia no último trimestre.

O Palácio do Planalto reconhece que é preciso agir rápido para tentar, de alguma forma, limpar a imagem da empresa e evitar que os futuros desdobramentos das investigações comprometam, ainda mais, a capacidade da estatal de investir e operar.

A reformulação do comando da empresa é dada como certa. A dúvida, até o momento, é a extensão dessa mudança e o tempo de execução.

A saída de Graça Foster da presidência da Petrobras deixou de ser mera especulação. Mesmo sem ligação direta com o escândalo de desvio de recursos, sua permanência na cadeira é politicamente inviável.

Substituir a executiva não é tarefa fácil. O primeiro obstáculo está dentro do próprio Palácio do Planalto. Graça pertence ao restrito grupo de pessoas que a presidente Dilma Rousseff gosta e confia.

A segunda dificuldade é encontrar, fora da empresa, um nome com respaldo no mercado de petróleo que esteja disposto a assumir o comando da estatal no momento mais delicado de seus 61 anos de história.

Dilma tem nas mãos uma decisão difícil de ser tomada. E não poderá adotar o ritmo cadenciado que sempre usou para promover mudanças. Tempo é algo cada vez mais escasso para a gigante do petróleo.

 

HÉLIO SCHWARTSMAN

Uma defesa do estelionato

SÃO PAULO - Como escrevi aqui antes de pleito, por uma combinação de deficiências da democracia com circunstâncias da vida, cidadãos esclarecidos deveríamos torcer para que os candidatos se pusessem a praticar estelionato eleitoral tão logo fossem ungidos nas urnas. É com satisfação, portanto, que constato que Dilma Rousseff vem desmentindo parcialmente sua campanha.

Os juros não tiveram de esperar mais do que três dias para ser elevados, o reajuste da gasolina demorou um pouco mais: 12 dias. Os números ruins para o governo, que vinham sendo providencialmente escondidos, começaram a aparecer.

É improvável, porém, que a presidente despenque subitamente do palanque e comece a tomar as medidas recessivas necessárias para conter a inflação e acertar as contas públicas (se esse ajuste for adiado, a tendência é que fique mais custoso depois). Ela já deu repetidos sinais de que mantém ao menos um pé no mundo maravilhoso do marketing. No mais recente deles, fantasiou que o Brasil encontra-se numa situação fiscal "até um pouco melhor" que a da maioria dos países do G20.

Ao que tudo indica --e faz todo o sentido do ponto de vista da psicologia humana--, Dilma só tomará as decisões mais dolorosas se for compelida a isso. A boa notícia é que as pressões vêm não só do mercado, cujo cartaz não é dos melhores, mas também de outros setores da sociedade, inclusive o PT. Parece que uma ala do partido se deu conta de que a viabilidade eleitoral da legenda em 2018 cresce se a parte difícil do ajuste vier agora, permitindo uma retomada do crescimento no biênio final.

Para reforçar a pressão é importante que o Congresso rejeite a "brecha fiscal" que o governo pede. A negativa, é claro, não resolveria o buraco nas contas públicas, mas melhoraria um tantinho a institucionalidade do país e, de quebra, ainda ajudaria a fazer com que Dilma seja menos Dilma, o que é bom para a economia.

 

ANDRÉ SINGER

Escolha de Sofia

Nos próximos dias, Dilma Rousseff tomará a decisão mais difícil e relevante desde que assumiu a Presidência. Ao definir o nome do novo ministro da Fazenda, apostará por uma das vias em que o Brasil hoje se divide quanto à forma de equacionar o impasse posto para o país. Precisará escolher um dos lados, com perdas inevitáveis do outro.

Há certo consenso entre os especialistas de que a fórmula seguida nos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva dependeu da valorização das commodities nos anos 2000. A forte expansão da economia globalizada, em parte puxada pela China, que demandava gigantescas quantidades de bens primários, foi crucial para que o modelo funcionasse.

Em 2008 o ciclo parece ter terminado. Demorou quatro longos anos para a ficha cair. Até 2010, o olé que o lulismo aplicou à primeira onda da crise mundial funcionou. Usando as alavancas do Estado, evitou-se que chegasse aqui a destruição que atingiria a Europa e os EUA. Em clima de euforia, Dilma foi eleita com relativa tranquilidade.

Em 2011, diante da segunda onda recessiva, Dilma tentou o mesmo movimento, sem sucesso. Os empresários acharam que o Estado tinha se tornado "intervencionista" e o PIB parou de crescer. O mau humor empresarial e a estagnação na Europa, com a China também em desaceleração, criaram o atual impasse.

O neoliberalismo tem propostas nítidas sobre o que fazer. Propõe recessão via expressivos cortes de gastos públicos e, no bojo dela, modificações legais pró-mercado. A inflação cairia e o capital do mundo todo exploraria as novas condições de competitividade obtidas com o rebaixamento do custo da mão de obra. Em 2018, a economia teria voltado a crescer, e as chances eleitorais seriam boas. Com um nome do mercado, Dilma referendará essa visão.

Na outra ponta, os desenvolvimentistas defendem preservar as conquistas obtidas pelos trabalhadores e evitar a recessão. Mas precisam resolver a quadratura do círculo. O crescimento depende de investimento privado e os empresários estão convencidos de que o ajuste neoliberal é necessário. A escolha de um nome que esteve vinculado a Guido Mantega representaria continuar tentando encontrar uma saída prática onde a teoria não apresenta soluções definidas.

Entre um e outro polo, há opções intermediárias, como a nomeação de alguém vinculado à carreira pública, mas muito sensível aos reclamos do mercado. Neste caso, Dilma corre o risco de ficar com o pior dos dois mundos ao fazer concessões recessivas que desagradarão aos trabalhadores, mas não em quantidade suficiente para conquistar os capitalistas. Quem viver verá.

Fonte:
Folha de S. Paulo

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