Protestos contra Dilma: Le Monde noticia com destaque ato de protesto escondido pelos jornais brasileiros

Publicado em 08/12/2014 20:42 1355 exibições
por Augusto Nunes, de veja.com

Le Monde noticia com destaque ato de protesto escondido pelos jornais brasileiros

Le Monde

Os leitores nativos logo terão de aprender francês para saber o que acontece no Brasil, sugere a página do Le Monde acima reproduzida. Como se vê, o jornal editado em Paris noticiou com destaque um fato aqui ocorrido que os jornalões brasileiros esconderam em espaços mesquinhos e textos confusos. Onde a turma que maltrata a verdade em português enxergou uma “passeata da discórdia”, que juntou menos de mil manifestantes desfraldando bandeiras distintas, algumas antagônicas, Le Monde viu o que efetivamente aconteceu: uma manifestação de protesto contra o governo corrupto de Dilma Rousseff.

“O jornalismo é o exercício diário da inteligencia e a prática cotidiana do caráter”, resumiu Cláudio Abramo. Os franceses sabem disso.

(por Augusto Nunes)

Contadores de cabeças do UOL acabam de descobrir os 800 manifestantes mais numerosos de todos os tempos

“A concentração de protesto no vão do MASP reuniu cerca de 800 pessoas”, calculou o UOL às cinco da tarde deste sábado, atribuindo a indecência matemática a uma “assessoria de imprensa da PM” que, se é que existe, nunca deu as caras na Avenida Paulista. Já eram milhares os indignados com o governo mais corrupto desde a chegada das primeiras caravelas.

A multidão continuou crescendo até o fim da passeata na Praça Roosevelt, atestam os dois vídeos enviados à coluna pela mais confiável das fontes: byMel. “O número de manifestantes cresceu ao longo da caminhada”, acautelou-se o redator decidido a impedir que qualquer ajuntamento hostil ao PT e ao Planalto tenha mais de três dígitos.

Vão perder leitores e vão perder a briga. Para aflição dos jornalistas amestrados, para angústia dos quadrilheiros presos ou (ainda) em liberdade, para desespero da presidente cujo segundo mandato agoniza antes de ter começado, as ruas serão progressivamente tomadas por democratas que redescobriram a força da indignação.

O PT do Mensalão e do Petrolão já foi varrido de São Paulo pelas urnas de outubro. Mesmo investindo dinheiro de propina em tubaína, gorjeta e mortadela, as plateias que junta lembram comício em lugarejo. Logo será assim em todo o Brasil. Mas os redatores a serviço de uma causa perdida são duros na queda.

Como o cálculo não foi corrigido, o UOL tem o dever de pendurar na manchete durante ao menos três dias a proeza dos seus contadores de cabeças. Neste 6 de dezembro de 2014, eles descobriram os 800 brasileiros mais numerosos de todos os tempos.

Como identificar um canalha político. Ou: A imprensa petistófila quer calar os descontentes com o governo Dilma

Quer identificar um canalha político, leitor amigo? Há muitos caminhos. Eu exponho aqui um dos critérios. Pode não detectar todos os canalhas do país, mas os que forem pegos nas suas malhas são, com absoluta certeza, canalhas.

O canalha é, sim, favorável à criação dos, como é mesmo?, conselhos populares para aparelhar a administração federal. A propósito: nesta segunda, a ex-ministra do Planejamento em atividade — uma categoria nova inventada por Dilma Rousseff —, Miriam Belchior, voltou a defender a sua criação, negando que sejam uma forma de bolivarianização do país.

Nota: eles são, sim, uma forma de bolivarianização do país — a nosso modo: uma coisa, assim, mais light; um autoritarismo que costumo chamar de liofilizado, desidratado… Quem sabe um dia venha a água quente de uma baita crise para a socialistada toda partir para o pau, né? Enquanto não chega essa hora, caso os conselhos sejam criados, os companheiros ficariam lá, aboletados na máquina pública, ocupando o lugar que não lhes pertence, já que não foram eleitos para governar.

“Reinaldo, essa é uma forma indireta de chamar a ministra de canalha?” Não! Eu nunca sou ambíguo nem oblíquo. Quando quero chamar de canalha, chamo, arcando com as consequências. Apenas a defesa dos conselhos não torna ninguém um canalha — pode ser um fã do autoritarismo político, mas ainda não é um canalha.

O segundo elemento para compor a canalhice vem agora: se o sujeito for favorável aos conselhos, mas considerar que os protestos de rua contra Dilma são, como é mesmo?, “golpistas”, “antidemocráticos” ou “injustificados”, aí, meu caro leitor, fique longe do vivente. Trata-se, sim, de um canalha, capaz de fazer qualquer coisa. Em nome de sua causa, ou de seu conforto, ele pode até bater a sua carteira.

Ora, como é que as mesmas figuras, incluindo jornalistas e colunistas do nariz marrom, que defendem ardentemente os conselhos porque, dizem eles, é parte da democracia, atacam aqueles que saem às ruas para lutar contra a corrupção? No sábado, houve outra manifestação em São Paulo. Os que comandaram o protesto fizeram questão de se distinguir dos tontos que pedem intervenção militar. Mais do que isso: deixaram claro que o impeachment de Dilma tem um pressuposto: só se ficar provado que ela sabia da roubalheira na Petrobras.

Assim, para que a ministra Miriam Belchior integre a minha galeria dos canalhas, ainda falta o segundo elemento: se, também ela, ao lado de defender os conselhos, considerar golpistas os protestos contra Dilma, então canalha é, sim. Mas não porque eu quero. E sim porque ela quer, já que é inconcebível que alguém possa ser favorável a conselhos participando da gestão pública, mas contra a livre expressão dos cidadãos nas ruas.

Alguns jornalistas, imantados pelo petismo, mas se fingindo de independentes, estão fazendo uma confusão danada. Pesquisa Datafolha informa que 66% dos entrevistados defendem a democracia como a melhor forma de governo — só 12% entendem que uma ditadura pode ser eventualmente necessária.

Os números do Ibope são bem diferentes: 40% asseveram sua preferência pelo regime democrático, ante 20% que flertam com regime autoritário. A diferença é gigantesca. Quem está certo? Bem, ultimamente, institutos têm feito pesquisas para referendar conclusões a que seus analistas já chegaram antes das entrevistas. Não é deliberada má-fé; é só contaminação ideológica.

Eu só aceito falar para grupos em que a democracia tenha 100% de aceitação. Qualquer cretino, de esquerda ou de direita, que venha com alternativas leva o seu sapato no traseiro.

Ainda voltarei a esse tema muitas vezes. Mas não deixa de ser significativo que esse debate tenha ganhado relevância justamente agora, quando insatisfeitos com o governo Dilma vão às ruas e descobrem o caminho do Congresso.

Não se intimidem com a patrulha. A democracia só merece esse nome quando é exercida e testada. Os insatisfeitos que protestam, segundo os pressupostos da lei e da ordem, respeitando o direito de terceiros, zelando por todos os valores que as esquerdas desprezam, fazem o Brasil que dá certo.

E deixem chiar os canalhas!

NOBLAT: Impeachment não é golpe, mas também não há razões o suficiente para isso — por enquanto

(Foto: Dario Oliveira/Código 19/Estadão Conteúdo)

O povo vai às ruas pedir que o governo seja derrubado — e alguns infiltrados pedem a intervenção militar (Foto: Dario Oliveira/Código 19/Estadão Conteúdo)

GOLPE? JAMAIS! IMPEACHMENT? DEPENDE

Artigo publicado no blog do jornalista Ricardo Noblat no site do jornal O Globo

Ouvi do prefeito de uma das capitais brasileiras mais importantes: “Foi a ação dos Black blocs que nos salvou, os governantes, quando o povo saiu às ruas em junho de 2013 cobrando melhores condições de vida”.

A ação dos baderneiros mascarados esvaziou as manifestações por passagens de ônibus mais baratas, saúde e educação eficientes, reforma agrária, lazer, contra a corrupção e contra a impunidade.

Por enquanto, os Black blocs saíram de cena. No seu lugar entraram pessoas agenciadas não se sabe por quem ou simplesmente pessoas que acreditam que a volta dos militares ao poder fará bem ao país.

Muitas entre essas pessoas pedem o fim do comunismo como se ele ainda existisse. A propósito, não vale citar a China e a Rússia. São imitações grotescas, macaqueadas de regimes comunistas.

De repente, a presidente Dilma e a sua turma ganharam aliados onde menos esperavam. Os que pedem um golpe militar, quer queiram quer não, podem contribuir para esvaziar passeatas e comícios dos insatisfeitos “com tudo isso que está aí”.

Por “tudo isso” entenda-se o grosso das mesmas reivindicações de junho de 2013, com ênfase crescente no combate à corrupção e à impunidade.

Há 15 dias, 2.500 pessoas ocuparam a avenida Paulista em protesto contra o governo Dilma. Foram cinco mil no último sábado em ato apoiado pelo PSDB e partidos da oposição.

Minoritária, a porção dos golpistas tenta se misturar com a porção dos insatisfeitos. Essa, por sua vez, tenta se distinguir da outra. Mais políticos compareceram à primeira manifestação do que à segunda.

Os principais líderes da oposição, entre eles Aécio Neves (PSDB-MG), correm o risco de se meter numa saia justa.

Por mais que digam o contrário, são acusados pelos partidários do governo de defender o golpe militar. Se não defendem o golpe, se batem pelo impeachment da presidente da República, o que militantes espertos do PT apregoam como sendo outro tipo de golpe. Não é.

Aécio está ficando rouco de tanto repetir: “Olha, eu não sou golpista, sou filho da democracia. (…) Não acho que exista nenhum fato específico que leve a impeachment. Essas manifestações [golpistas] que se misturam com as manifestações democráticas têm meu repúdio veemente”.

Talvez devesse ir à próxima passeata reafirmar de público seu compromisso com a legalidade.

Impeachment não é golpe. Fernando Collor, o primeiro presidente do Brasil eleito pelo voto direto depois de 21 anos de ditadura, foi derrubado pelo Congresso via um processo de impeachment.

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CASO “ROSE” — INSISTO, VOLTO AO ASSUNTO: silêncio sepulcral de Lula é atitude pusilânime e de desrespeito ao país

O escândalo “Rose” coloca Lula numa zona de sombras: ele precisa se explicar (Fotos: Conteúdo Estadão)

Post publicado originalmente a 30 de janeiro de 2013

Campeões-de-audiênciaAmigos, meu amigo e irmão Augusto Nunes, em seu esplêndido blog, está fazendo diariamente a implacável contagem de há quantos dias o maior falastrão “deztepaiz”, Lula, mantém-se em silêncio sobre o escândalo que tem como figura central sua grande amiga Rosemary Noronha, a “Rose”, que transformou o escritório da Presidência da República em São Paulo em feudo particular e balcão de negócios.

Augusto contabiliza: Lula está quieto, quietinho, há exatos 68 dias.

O post abaixo foi originalmente publicado na terça-feira, dia 4 de dezembro, e republicado no dia 7 do mesmo mês, uma sexta.

Como continua valendo — e como! –, republico de novo. Recuso-me a aceitar a cara de pau do ex-presidente e seu desrespeito à opinião pública.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, compareceu hoje, terça, dia 4, a sessão conjunta de duas comissões da Câmara dos Deputados para, supostamente, dar explicações sobre a Operação Porto Seguro da Polícia Federal, essa mesma que flagrou o balcão de tráfico de influências e outras mimosidades montado pela amigona de Lula, Rosemary Noronha, em pleno escritório da Presidência da República em São Paulo — como se ainda fossem necessários ainda mais escândalos, e justamente num gabinete desse calibre, para que o descaramento do lulalato chegasse ao fundo do poço.

Tal qual se esperava, o depoimento de Cardozo não passou de um nhenhenhém vazio, como se pode constatar pela reportagem do site de VEJA a respeito. O que poderia tanto dizer o ministro, aliás, se ele não sabia de nada até o escândalo explodir?

Ministros, figurões do PT, porta-vozes e sabujos vários só virão a público para confundir, e não para explicar, como diria Chacrinha.

Querem encobrir, querem ocultar, querem proteger o chefe.

Ninguém precisa deles.

Quem tem que dizer alguma coisa é Lula.

Quem tem que sair de seu silêncio sepulcral — e muito significativo — é Lula.

Quem tem que dar explicações é Lula.

Quem tem que colocar a cara para bater é Lula.

Foi Lula quem colocou a amigona “Rose” nesse gabinete da Presidência em São Paulo, que ele próprio inventou não se sabe com qual finalidade — ou talvez até se saiba, agora.

Foi Lula quem, encerrado seu mandato, pediu expressamente à presidente Dilma que mantivesse “Rose” no posto onde ela protagonizava suas maracutaias.

Foi Lula quem frequentou durante anos esse gabinete enquanto a pouca vergonha com a coisa pública corria solta. Ele, claro, supostamente não sabia.

Mas Lula, que passou uma vida — uma VIDA — apontando o dedo para culpados disso e daquilo, foge da raia.

Arranjou viagem ao exterior para desaparecer do mapa, voltou e deu um jeito de se esconder da imprensa — inclusive dos encarregados do noticiário policial –, da opinião pública, dos cidadãos brasileiros. (Quanto a sua vida pessoal, a dona Marisa, ninguém tem nada com isso.)

Aí, foi para o exterior de novo. A sua “quebra do silêncio” sobre o “caso Rose” é ridícula: tudo o que disse em Berlim, na Alemanha, foi que a operação da PF não constituiu surpresa para ele.

E daí?

Essa atitude de Lula é pusilânime, é covarde, é cínica e mostra uma vez mais desprezo para com o comportamento republicano, a democracia, o Estado de Direito, e desrespeito ao país.

É esse o mesmo Lula que, arrogante, disse que iria “ensinar” a FHC como deve se comportar um ex-presidente?

Só mesmo rindo, para não chorar pelo estado das coisas “neztepaiz”.

Não sei mais o que é preciso acontecer para que os fanáticos do lulopetismo retirem o “deus” de Marta Sulicy do pedestal.

Desta vez, nem para aparecer na TV e se dizer “traído” e apunhalado pelas costas, como quando do mensalão.

Fim da picada! Até setores da imprensa hostilizam os que protestam contra a corrupção. Afinal, os manifestantes não carregam bandeiras vermelhas, sujas de sangue! Ou: Eles gostam de democracia desde que seja exercida só por esquerdistas

Há gente no Brasil achando que só manifestações das esquerdas são democráticas — justamente as da turma que é inimiga teórica e prática da… democracia! Mais: há espertinhos lendo pelo avesso uma pesquisa Datafolha publicada nesta segunda pela Folha. Já chego lá. Antes, algumas considerações.

O esforço para matar os protestos de rua contra a corrupção é indecente e junta, como não poderia deixar de ser, os petistas e parte expressiva da imprensa. A má vontade dos jornalistas — e não adianta tentar atribuir apenas à linha editorial dos veículos — chega a ser eticamente asquerosa. Se eu dispusesse de tempo para isso, não ficaria difícil demonstrar que os black blocs mereceram tratamento bem mais respeitoso. Façam o trabalho vocês mesmos. Recuperem as notícias sobre os mascarados, que chegaram a ser tratados até como estetas. Já os que se manifestam contra a roubalheira na Petrobras são jogados na vala dos golpistas. O mal que a petização das redações fez à inteligência é bem mais grave do que parece e será mais duradouro. Mas espero que os manifestantes não desanimem. Para tanto, não podem ficar ao relento. Já chego lá.

No sábado, cerca de 5 mil pessoas — segundo estimativas da PM — foram às ruas em São Paulo para protestar contra o assalto ao estado brasileiro. Os que organizaram a manifestação fizeram tudo certo: distinguiram-se dos idiotas que pedem intervenção militar e os isolaram, deixando claro que o impeachment de Dilma está condicionado, como não poderia deixar de ser, à comprovação de que ela sabia de tudo. Ou por outra: os que protestavam levavam à rua um discurso afinado com a democracia e com o estado de direito.

Mas quê… Os manifestantes estão sendo tratados com ironia, desprezo e sarcasmo. Chega a ser nojento. Nesta segunda, a Folha publica números de uma pesquisa Datafolha indicando que, para 66%, a democracia é sempre melhor do que qualquer outra forma de governo. Dizem não se importar com o regime 15%. Apenas 12% sustentaram que, sob certas circunstâncias, uma ditadura pode ser melhor. E 7% afirmam não saber.

Maliciosos estão querendo ver uma dissonância entre esses números e os que vão protestar. Ou por outra: os que vão às ruas contra Dilma estariam na contramão dos 66% que defendem a democracia. Na melhor das hipóteses, é uma bobagem. Na pior, uma canalhice. O que essa gente sustenta? Que a democracia é boa desde que não seja posta em prática? Ora…

É preciso tomar cuidado com ligeirezas. Em artigo na Folha de domingo, Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, e Alessandro Janoni, diretor de pesquisas, produziram um parágrafo que não honra a especialidade de ambos. Lá está escrito:
“Quanto às mobilizações populares da oposição, sua ocorrência localizada e regional — assim como o ruído em suas intenções — têm servido muito mais para fixar a ideia de provincianismo na empreitada do que propriamente para gerar fato político relevante para a população”.

Epa! Aí não! Pergunto à dupla: isso é pesquisa ou é só preconceito? Os pesquisados estão dizendo que os protestos são “provincianos”, “localizados” e “regionais”? A propósito: como é que surge uma manifestação universalista, generalizada e nacional? Assim, não, rapazes! Isso não é pesquisa, é chute; não é nem análise nem opinião técnica, mas só uma visão preconceituosa da mobilização.

Ah, sim: a pesquisa aponta também que, para a maioria, a miséria do sistema de saúde é um problema mais grave do que a corrupção. E daí? Isso quer dizer que as pessoas não se importam pouco com a roubalheira? Não! Isso apenas quer dizer que a saúde consegue ser ainda pior do que a… corrupção! Entenderam?

Para encerrar: o senador eleito por São Paulo, José Serra (PSDB), compareceu ao protesto do sábado. Fez bem! Aliás, é o que deveriam fazer todos os líderes tucanos. Nem que houvesse apenas 50 pessoas nas ruas. E tanto mais devem fazê-lo num momento em que antigos defensores das “manifestações populares” deram agora para achar que os que protestam são golpistas ou provincianos. A menos que estes carreguem a universalista bandeira vermelha nas mãos. O vermelho? Ok, serve de alusão aos milhões que morreram ao longo da história para realizar a utopia desses bananas.

Texto publicado originalmente às 4h34

Dilma e a corrupção na Petrobras: presidente viverá dias mais difíceis do que sugerem analistas do Datafolha. E quem me diz isso é o… Datafolha!

Em alguma medida, Delúbio Soares acertou. O mensalão, diante do petrolão, acabou mesmo virando, como ele previu, “piada de salão”. É claro que por motivos diferentes dos antevistos pelo ex-tesoureiro do PT. Certo da impunidade e de que estava “tudo dominado”, Delúbio fez a ironia arrogante para indicar que aquela coisa toda não daria em nada. Não foi bem assim, embora ele próprio já esteja flanando por aí. Mas houve punição. Pode-se, no entanto, afirmar que aquele crime acabou perdendo importância relativa. Uma única personagem do petrolão, Pedro Barusco, aceitou devolver aos cofres públicos US$ 97 milhões — ou R$ 253 milhões —, bem mais dos que os R$ 141 milhões que puderam ser identificados naquele escândalo. Lembrança importante: Barusco era subordinado do petista Renato Duque; não passava de personagem menor no esquema. Imaginem quanto dinheiro não foi movimentado pela organização criminosa só na estatal. Por que isso tudo? Vou falar aqui da pesquisa Datafolha divulgada neste domingo e discordar de uma afirmação feita pelos comandantes do instituto.

Neste domingo, a Folha traz os números que revelam como os brasileiros enxergam o escândalo da hora. São muito ruins para a presidente Dilma, embora alguns possam achar, por erro ou interesse político, que a coisa não é assim tão grave para a petista. Para 43% dos que responderam à pesquisa, a presidente tem “muita responsabilidade” na roubalheira; afirmam que ela tem “um pouco de responsabilidade” outros 25%. Assim, nada menos de 68% entendem que a governanta, em algum grau, tem de responder pelos desmandos. Só 20% acham que a mandatária não tem nada com isso, e 12% não souberam responder. A Folha ouviu 2.896 pessoas em 173 municípios, no dias 2 e 3 de dezembro, com margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos.

A despeito dos esforços do governo e da campanha eleitoral do PT para transformar em vilões os que apontam a ladroagem, o escândalo da Petrobras “pegou”. Dizem ter ouvido falar do assunto 84%: 28% se consideram bem informados; 42%, “mais ou menos bem informados”, e 14%, mal informados; só 16% ignoram o assunto. Sigamos. Apesar disso, o efeito negativo da sem-vergonhice na imagem do governo ainda é limitado — mas pode vir a preocupar (já chego lá). A gestão Dilma segue sendo ótima ou boa para 42%, número idêntico ao do dia 21 de outubro. Cresceram de 20% para 24% os que a tomam como ruim ou péssima, e caíram de 37% para 33% os que a veem como regular.

As coisas podem piorar para a presidente? Há sinais de que sim. No dia 21 de outubro, às vésperas do segundo turno, 44% achavam que a situação do país iria melhorar; agora, só 33%; 15% diziam que iria piorar, número que saltou para 28% em pouco mais de um mês; e permanece praticamente igual o índice dos que opinam que vai ficar na mesma: de 33% para 34%. Pois é… O caso Petrobras está longe do fim, e os dias futuros não são exatamente sorridentes para Dilma. O pessimismo, aponta a pesquisa, cresceu bastante.

Há um texto na Folha assinado por Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, e Alessandro Janoni, diretor de pesquisas, em que se afirma o seguinte, prestem atenção: “No caso de corrupção na Petrobras, apesar de a grande maioria ter ouvido falar do tema e ver a responsabilidade da presidente no episódio, efeitos mais expressivos na imagem da petista são anulados pelo reconhecimento por parte dos entrevistados de que, no seu governo, há investigação e punição dos envolvidos”.

Pois é… O que leva a dupla a afirmar que uma coisa anula a outra, o que me parece não ter fundamento nenhum? Vamos ver. Indagados em qual governo houve mais corrupção, os que responderam a pesquisa puseram o de Dilma em segundo lugar, com 20% — só perdendo para o de Collor: 29%. Mas 46% afirmam que a gestão da governanta é aquela em mais se investiga, e 40% sustentam que é aquela em que mais se pune. Será que isso anula mesmo a percepção de que Dilma é a responsável pelos desmandos na Petrobras, como querem os comandantes do Datafolha? Acho que não.

E por quê? Porque, obviamente, expressiva maioria ou não tem memória de governos passados — alguns eram bebês, crianças ou nem tinham nascido — ou simplesmente não se lembram de punições porque os casos de corrupção não eram tão presentes. Querem um exemplo? Só 1% afirmou que a gestão Itamar foi aquela em que mais se puniu; esse mesmo 1% entende que foi o governo em que mais se investigou, mas também ficou em 1% os que afirmaram que foi o governo mais corrupto.

Assim, uma coisa não anula outra. A estarem certos os números — e não entendi por que nem a Folha nem o Datafolha deram visibilidade aos dados —, no dia 21 de outubro, era de 29 pontos o saldo favorável ao governo entre os que achavam que a situação econômica do país iria melhorar (44%) e os que achavam que iria piorar: 15%. Agora, os dois grupos estão bem próximos, e o saldo caiu para 5 pontos: apenas 33% dizem que vai melhorar, mas 28%, que vai piorar. Com margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos, é quase empate técnico. Tudo o mais constante — as notícias sobre a roubalheira e o mau desempenho da economia —, é só uma questão de tempo para que os dois fatores incidam negativamente na popularidade da presidente.

Dilma viverá, fiquem certos, dias mais difíceis do que sugerem os comandantes do Datafolha.

Texto publicado originalmente às 2h46
Fonte:
Blogs de veja.com.br

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