Nenhum nome da política tradicional é viável para 2018 (KIM KATAGUIRI, na FOLHA)

Publicado em 14/12/2016 06:34
237 exibições

As esperadas revelações da Odebrecht começaram a aparecer. Com elas, os principais possíveis presidenciáveis foram jogados na lama. PMDB, PSDB, PT, ninguém saiu ileso. A eleição de 2018, que já seria turbulenta, tornou-se ainda mais imprevisível.

Geraldo Alckmin, tucano que, até então, estava mais confortável que seus adversários de partido José Serra e Aécio Neves –que já haviam sido citados em vazamentos anteriores– foi atingido em cheio. Apesar do expressivo ganho de força do governador de São Paulo com a vitória de João Doria, sua competitividade ficou bem abalada pelo grave depoimento dado em acordo por executivos da Odebrecht, segundo o qual teria recebido R$ 2 milhões em dinheiro vivo para cobrir gastos das campanhas de 2010 e 2014.

O presidente Michel Temer, cujos aliados, no início de seu mandato, acreditavam ser um bom nome para 2018 caso colocasse a economia nos trilhos –apesar de o próprio negar publicamente sua intenção de concorrer–, também foi queimado pela pré-delação. Temer teria pedido repasse de R$ 10 milhões, sendo R$ 6 milhões para Paulo Skaf, candidato do PMDB ao governo de São Paulo, e os R$ 4 milhões restantes divididos entre Eduardo Cunha (R$ 1 milhão), Eliseu Padilha, hoje chefe da Casa Civil, e José Yunes, amigo do presidente, para atender a interesses do partido.

Até a ex-presidente Dilma, que alguns –até da antiga oposição– ainda acreditavam ser uma idealista absolutamente honesta, pediu, segundo depoimento de Marcelo Odebrecht, R$ 4 milhões da empreiteira para pagar dívidas da campanha da senadora Gleisi Hoffmann, que já é ré no STF por corrupção e lavagem de dinheiro. O mito da guerrilheira incorruptível caiu.

Segundo o Datafolha, que, vale lembrar, errou mais da metade das previsões para cargos executivos no primeiro turno das eleições de 2014, a ex-petista Marina Silva (Rede) venceria em todas as hipóteses de segundo turno em 2018.

Faz certo sentido que, de alguma maneira, Marina, com seu discurso "metapolítico", messiânico e demagógico, tenha conseguido se vender como uma figura que está acima "de toda essa sujeira que está aí". Porém, campanhas eleitorais mudam completamente o jogo —como vimos nessas eleições municipais, principalmente em São Paulo—, e aqueles que têm boa memória ainda lembram que a maga da selva, segundo Léo Pinheiro, da OAS, teria enviado um intermediário para pedir dinheiro à empreiteira, mas haveria de ser pelo caixa dois porque não queria seu nome associado à empresa. Janot pôs fim à delação de Pinheiro, e ninguém sabe até hoje por quê.

Tudo indica que a tão esperada delação da Odebrecht deixará espaço aberto nas eleições de 2018. Resta saber se esse espaço será ocupado por um candidato honesto —não só legal, mas também intelectualmente–, pragmático e com propostas sérias ou por um populista aventureiro e aspirante a salvador da pátria.

Em tempos de histeria, temos de trazer a racionalidade ao debate. Não foi apenas a corrupção que levou o Brasil à ruína. Há também o autoritarismo da ditadura da propina —que vai além da corrupção como mero fim e foi implantada pelo PT; a demagogia de prometer tudo sem se preocupar com o orçamento; o inchaço do Estado e o corporativismo. Não basta eleger uma pessoa honesta se ela não possuir um discurso coerente, se ela não defender novas práticas e um novo método de governo.

Temer, Lula, Serra, Aécio, Alckmin, Marina, criticamos todos eles. Alguns perguntam, então, se o MBL já tem um candidato à Presidência da República. Não temos. No atual cenário –em que precisamos garantir a continuidade da Operação Lava Jato e apoiar reformas estruturantes no Congresso–, é muito cedo e pouco produtivo pensar nisso.

O que sabemos, com certeza, é que quem quer que venha em 2018 não pode ser adepto das velhas práticas, de corrupção institucionalizada, do populismo e da demagogia.

Temer despencou e Lula cresceu em Datafolha; a jararaca está viva

Os números da pesquisa Datafolha foram claros. Em julho, 31% dos entrevistados achavam que o governo de Michel Temer era ruim ou péssimo. No início de dezembro, antes que se conhecesse o conteúdo da primeira colaboração da Odebrecht, eram 51%. Tudo bem, ele recebeu uma herança maldita, mas enquanto o PT paga sua conta com a Lava Jato há mais de um ano, o PMDB de Renan Calheiros, Romero Jucá, Moreira Franco e Eliseu Padilha só agora começou a receber a visita dos cobradores. Quem sabe um dia a economia começa a respirar, a Lava Jato sai da ribalta e são Jorge ajuda. Prometendo uma "Ponte para o Futuro", Temer oferecia esperança, pedindo confiança. A ponte virou pinguela e, como diz Fernando Henrique Cardoso, é a que temos.

A mesma pesquisa informou que entre março e dezembro Lula pulou de 17% para 25%, nas preferências para um primeiro turno na próxima eleição presidencial, com variações desprezíveis dependendo do cenário. Atrás dele vem Marina Silva em cerca de 15%, em queda em todos os cenários. Numa previsão de segundo turno, Marina derrota Lula e todos os outros. Nessas simulações, "Nosso Guia" (expressão cunhada pelo então chanceler Celso Amorim) derrota todos os outros, salvo Marina. A cruz de Lula é sua rejeição (44%), empatado com Temer (45%).

Pesquisa de opinião em 2016 para uma eleição que está marcada para 2018 vale pouco mais que um horóscopo, mas o sinal que vem do Datafolha é claro: o caminho de "todos os outros" será pedregoso. Marina Silva prevalece num segundo turno, contra Lula, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e José Serra. Lula só perde para ela. Como ele mesmo disse, "a jararaca está viva".

Não só viva, como tonificada por um governo que anuncia uma reforma da Previdência que mais se parece a um rebanho de bodes. Se isso fosse pouco, falta-lhe a humildade de reconhecer que a prometida (e indefinida) reforma trabalhista foi um balão de ensaio para enternecer o andar de cima, que acabou enfurecendo o de baixo.

A jararaca poderá morrer com uma sentença judicial, mas o acordão do Supremo Tribunal que manteve Renan Calheiros na presidência do Senado foi um presente para o comissariado. Só o tempo e os autos dirão se as culpas de Lula são suficientes para torná-lo inelegível. Para quem se esgoelou na avenida Paulista gritando "Lula cachaceiro, devolve o meu dinheiro" as notícias são ruins.

Os brasileiros olham com desdém para a política argentina e desprezam os vizinhos encantados pelo fenômeno do peronismo. Afinal Juan Perón foi um general larápio deposto em 1955 que voltou ao poder, caquético, em 1973 e morreu em 1974 deixando o governo para sua mulher Isabelita, uma senhora que conheceu num cabaré panamenho.

O peronismo sobreviveu a dois golpes e na sua última encarnação chamou-se kirchnerisno. Quando Perón foi deposto em 1955, os militares fizeram uma exposição das joias e vestidos de sua mulher Evita, morta pouco antes. Coisa para classificar o luxo do casal Sérgio Cabral como "periferia chic". Vestidos? Christian Dior e Balenciaga. Joias? Uma tiara de brilhantes.

São muitas as teorias para explicar a resistência do peronismo. Seu oxigênio é a demofobia do andar de cima argentino. É uma gente finíssima, deu a duquesa de York à Inglaterra e a rainha Máxima à Holanda, só não entende um povo que vê em Evita uma princesa.

Salve-se quem puder (por BERNARDO MELLO FRANCO)

BRASÍLIA - Ao tomar posse como presidente interino, Michel Temer anunciou um governo de "salvação nacional". Sete meses depois, sua administração parece reduzida a um "salve-se quem puder". O peemedebista chega ao fim do ano com a popularidade na lona e o pescoço ameaçado pelas delações da Odebrecht.

No fim de semana, Temer recebeu a sugestão de demitir todos os auxiliares citados pelo lobista Cláudio Melo Filho. A ideia esbarrou num problema: a cabeça seguinte seria a do próprio presidente, acusado de pedir R$ 10 milhões à empreiteira. Segundo o delator, parte do dinheiro foi entregue em espécie no escritório do primeiro-amigo José Yunes.

Quando a história veio à tona, Temer disse, em nota, que "repudia com veemência as falsas acusações". Como a negativa não foi suficiente para estancar a crise, ele decidiu trocar a defesa pelo ataque. Passou a reclamar da divulgação de informações, um expediente muito usado pelo governo deposto em maio.

Em carta aberta ao procurador-geral da República, o presidente alegou que as iniciativas do governo "vêm sofrendo interferência pela ilegítima divulgação de supostas colaborações premiadas". Isso equivale a repetir o discurso petista de que o noticiário da Lava Jato atrapalha o país.

Em tom professoral, Temer disse que "o fracionado ou porventura lento desenrolar de referidos procedimentos pré-processuais, a supostamente envolver múltiplos agentes políticos, funciona como elemento perturbador de uma série de áreas de interesse da União". Na verdade, as delações perturbam os políticos delatados, que o governo de "salvação nacional" tenta proteger.

A carta termina com uma contradição. O presidente defende "celeridade na conclusão das investigações", mas pede que nada seja revelado enquanto não for "completado e homologado o procedimento da delação", o que não acontecerá tão cedo. Nos sonhos do Planalto, tudo ficaria na gaveta até o fim de 2018.

Depois do teto, EDITORIAL DA FOLHA

Ameaçado pelas delações premiadas da Odebrecht e pressionado pela queda de popularidade, o governo de Michel Temer (PMDB) respirou com alívio nesta terça-feira (13) após a aprovação final, pelo Senado, da proposta de emenda à Constituição que limita à inflação o aumento das despesas federais.

A equipe econômica de Temer apostou todas as suas fichas nessa iniciativa, cujos principais objetivos são criar condições para o reequilíbrio das contas públicas e preparar o terreno para o país crescer de forma sustentada.

Se houvesse grande contratempo na votação da PEC, o governo teria perdido grande parte da credibilidade de que ainda dispõe.

Não foi o caso, embora o apoio dos senadores à medida tenha diminuído. No primeiro turno, duas semanas atrás, 61 endossaram a proposta; agora foram 53, apenas quatro a mais do que o mínimo necessário para aprovar mudanças na Constituição.

Se o placar é irrelevante do ponto de vista da PEC, ele importa quando se considera a longa caminhada que o governo ainda tem pela frente. Limitar a gastança desenfreada é condição necessária, mas não suficiente para recuperar as combalidas finanças nacionais.

O teto para as despesas sem dúvida altera o padrão irresponsável repetido anos a fio por diferentes governos: gastava-se mais do que se arrecadava e procurava-se tapar o rombo por meio de novos impostos ou da alta da inflação.

Tudo se passava como se o Estado tudo pudesse, sem que o país precisasse discutir as prioridades a serem contempladas por um Orçamento obviamente finito.

Essa ilusão de onipotência estatal em boa hora se desfaz, abrindo espaço para um debate maduro acerca da alocação de recursos públicos e forçando os gestores a combater o desperdício de dinheiro do contribuinte.

Para que o teto gere os efeitos desejados no médio prazo, contudo, é fundamental que se aprovem outras medidas, dentre as quais se destaca a reforma da Previdência.

Sem mudanças nas regras de aposentadoria, que acompanhem a evolução demográfica e eliminem privilégios, não tardará para os gastos previdenciários engolirem parcela descomunal do Orçamento.

As consequências seriam dramáticas: ou o governo se veria forçado a reduzir todas as outras despesas a ponto de comprometer ainda mais os serviços públicos, ou teria de abandonar o teto —e, com ele, a melhor chance em muito tempo de consertar as contas do país.

A responsabilidade do governo e do Congresso em assegurar que o teto funcione está apenas começando. Os próximos passos serão ainda mais difíceis.

Sem reforma da Previdência, não haverá estabilidade na economia (por ALEXANDRE SCHWARTSMAN)

O gasto público em aposentadorias e pensões, incluindo tanto trabalhadores do setor privado (RGPS) como funcionários públicos (RPPS), atingiu cerca de R$ 700 bilhões no ano passado, pouco menos de 12% do PIB.

Ao mesmo tempo, porém, somos um país relativamente jovem: a população acima de 60 anos ("idosos") corresponde a uns 10% do total, proporção não muito distinta da observada em outros países latino-americanos, como o México ou o Chile.

Apesar disso, países com estrutura etária similar à nossa gastam muito menos; nossa despesa, na verdade, se assemelha à de países bem mais velhos (e muito mais ricos), como a Alemanha, onde os "idosos" correspondem a um quarto da população total. Trata-se de um fato, não uma opinião.

Em consequência, deve ficar claro que, se nada for feito, a despesa previdenciária seguirá crescendo acima do PIB, refletindo principalmente o envelhecimento natural da população. Em 2026, os "idosos" representarão perto de 18% da população, proporção que se elevará para 22% em 2036, trazendo o gasto para a casa de 20% do PIB, superior ao de qualquer país no mundo hoje.

Isso é o reflexo de um conjunto de distorções. No que se refere ao RGPS, por exemplo, não há –ao contrário da experiência mundial– idade mínima para aposentadoria. Assim, a idade média de quem se aposenta pelo tempo de contribuição gira em torno de 55 anos.

Não parece cedo demais à luz de uma expectativa de vida ao nascer de 72 anos, mas essa comparação é equivocada. O dado relevante, que pode ser obtido nas tábuas de mortalidade do IBGE, é a expectativa de vida de quem atinge 55 anos, valor que se encontra hoje próximo a 81 anos. Não é por outro motivo que se propõe não apenas a fixação de uma idade mínima (no caso, 65 anos) mas a previsão de ajustes periódicos com base no aumento da expectativa de sobrevida.

Da mesma forma estima-se que pensões por morte pagas pelo INSS representem algo como 3,6% do PIB, ante uma média mundial equivalente a 1,4% do PIB, evidência de outra distorção que tem pesado no aumento persistente do gasto previdenciário.

Por fim, sem querer esgotar o (longo) capítulo das distorções, nota-se que o valor médio das aposentadorias e pensões do funcionalismo supera, em muito, o equivalente do INSS. Estudo recente de Paulo Tafner revela que a média desses pagamentos no caso do governo federal (pouco menos de 1 milhão de aposentados e pensionistas) atingiu R$ 10,6 mil/mês no ano passado, ante R$ 1.000/mês no caso do INSS (incluindo amparos assistenciais).

Isso sem falar nos regimes previdenciários estaduais, origem de boa parte de seus problemas fiscais hoje observados.

Nenhuma dessas distorções será resolvida cobrando a dívida ativa do INSS (em grande parte dívida de empresas falidas e que não cobriria um ano do gasto ) nem com o fim das renúncias fiscais, duas supostas panaceias frequentemente apregoadas como alternativas à reforma. Nada contra, mas não evitariam que o gasto continuasse a crescer de maneira insustentável.

A reforma previdenciária proposta pela atual administração representa mais uma oportunidade para o país começar a corrigir os rumos que nos levaram à crise atual. Não é perfeita, mas sem ela não haverá como reconquistar a estabilidade perdida nos últimos anos.

 

 

 

Fonte:
Folha de S. Paulo

1 comentário

  • Welbi Maia Brito São Paulo - SP

    O PSDB foi o maior vitorioso dessas eleições. O apoio do governador Geraldo Alckmin foi fundamental para eleger prefeitos no primeiro e segundo turno em São Paulo e até em outros Estados. Com isso, se tornou a liderança mais forte e influente do partido. E essa força deve ter muito peso na troca do comando do partido no ano que vem e na definição do candidato à presidência em 2018.

    5
    • Elton Szweryda Santos Hortolândia - SP

      O cenario esta muito favoravel a um salvador da patria, a exemplo do trump nos EUA.

      Isso me parece inevitavel, e se acontecer de fato, espero que o mesmo ponha de fato

      Ordem nesse galinheiro chamado Brasil!!!

      Mas com certeza não será Alckmin, e nenhum dos atuais caciques de todos os partidos(quadrilhas)envolvidos com a santa propina que estao na midia hoje.

      0