Em O GLOBO: Mais de 1 milhão de trabalhadores perderão o emprego neste 2017

Publicado em 30/12/2016 08:00 e atualizado em 30/12/2016 08:32
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Número de desempregados chegará a 13 milhões e 700 mil pessoas até ao final deste semestre -- Há trabalho a mostrar e a fazer (EDITORIAL DO ESTADÃO)

RIO - Mais um milhão de trabalhadores brasileiros perderão o emprego em 2017, depois de dois anos de recessão forte. A recuperação só virá no segundo semestre do ano que vem, segundo projeções do Departamento de Pesquisas do Bradesco. O número de desocupados — que chegou ao recorde de 12,1 milhões em novembro, correspondendo a uma taxa de desemprego de 11,9%, segundo o IBGE — deve atingir a marca de 13,7 milhões de pessoas no fim do primeiro semestre. No fim de 2017, o número deve cair para 13,4 milhões de pessoas.

Para os empregos formais, medidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, já há algum sopro de esperança em 2017: a previsão é de criação de 150 mil vagas no ano. Em 2018, seriam outros 900 mil postos de trabalho. O número nem de longe compensa a perda de mais de três milhões de vagas em 2015 e 2016 (1,625 milhão em 2015 e projeção de 1,450 milhão de vagas para 2016, também segundo o Bradesco). Em novembro, foram menos 116.747 vagas com carteira assinada, perda um pouco inferior aos 130 mil do mesmo mês do ano passado.

— O desemprego deve chegar a 13,7 milhões de pessoas na virada do primeiro para o segundo semestre, até que comece a melhorar um pouco. Este é o pior momento do mercado de trabalho desde 1991, com a maior taxa de desemprego. Até 2018, o emprego não vai voltar ao nível anterior, de antes de 2015, porque a economia brasileira também não vai voltar — afirma a economista do Bradesco Ariana Zerbinatti.

O banco produziu uma série mais longa de desemprego, desde 1991, que reúne dados da atual Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, da Pesquisa Mensal do Emprego (PME), da Pnad anual, do IBGE e da Pesquisa de Emprego e Desemprego do Seade/Dieese. O levantamento com base nessas pesquisas mostra que a taxa de desemprego está em 12,3% (dado de outubro, o mais recente). A parcela de desempregados está acima dos cerca de 10% entre 2002 e 2006 e também da faixa entre 8% e 9% entre 2009 e 2010, logo após a crise financeira internacional.

RENDA 2,5% MENOR ESTE ANO

A enorme disputa pelas vagas de um mercado em retração assusta pessoas como Hugo Marcelo Martins, de 23 anos, que até o início do ano trabalhava como carpinteiro nas obras do aeroporto internacional do Galeão. Desde que foi demitido, a família — a mulher Kelly e a filha Manuela, de 3 anos — enfrenta dificuldades. A mulher ganha cerca de R$ 1.200 com a venda de salgados para festas, mas tem que arcar sozinha com o aluguel de R$ 700 da casa em que moram em Santa Teresa.

— De vez em quando, consigo algum bico e minha mãe ajuda com o botijão de gás e alguma comida. Minha mulher tem segurado as pontas, mas está muito difícil. Só dá para viver. A compra de supermercado, que durava o mês inteiro, agora acaba na metade do mês. Não posso mais levar minha filha para passear — conta Hugo, que, em meados de dezembro, esteve no posto do Sistema Nacional de Empregos (Sine), da Secretaria Estadual de Trabalho, em busca de oportunidade.

Com mais pessoas buscando emprego, o trabalhador tem de aceitar salários menores, já corroídos pela inflação de 10,67% em 2015 e de quase 7% este ano. Mesmo na hora que o mercado de trabalho voltar a reagir, a alta da renda será muito lenta, apontam analistas. Na estimativa da LCA Consultores, os salários devem avançar apenas 0,5% em 2017, após queda estimada de 2,5% em 2016.

— A melhora no desempenho da economia agora só se espera no segundo semestre de 2017, o que afeta o mercado de trabalho, que geralmente é o último a responder quando a economia começa a reagir. A renda vai subir 0,5% em 2017. É pouco, mas pelo menos estanca uma sangria — diz o economista da LCA Consultores Fabio Romão.

A taxa de desemprego, que ficou em 6,8% em 2014 e 8,5% em 2015, deve continuar subindo pelo menos até 2018. A estimativa é de 13,4% em 2017 e 13,9% no ano seguinte.

— O desemprego podia até estar maior no momento, só não está por causa do desalento (quando os trabalhadores começam a desistir de procurar uma vaga pela dificuldade de se empregar). Quando o mercado começar a reagir, a população ocupada vai subir, mas também aumentará a procura por emprego, o que pressiona a taxa — explica Romão.

A avaliação de que o mercado de trabalho terá recuperação lenta é unânime entre os economistas, diante da perspectiva de uma economia que também vai reagir a passos lentos. Alguns segmentos da indústria — uma das atividades econômicas que mais fechou vagas nos últimos anos — dão sinais de estabilização, pelos últimos dados do Caged, como é o caso da indústria de alimentos e de calçados. Outros, no entanto, ainda estão enxugando o quadro de pessoal. O Bradesco estima que a indústria de transformação ainda não concluiu o ajuste de mão de obra e estima perda de mais 200 mil postos de trabalho.

COMÉRCIO DEVE CONTINUAR DEMITINDO

Além disso, o banco acredita que o ajuste em serviços, especialmente em comércio, ainda não acabou. A redução da taxa de juros pode ajudar setores do comércio que dependem mais de crédito, mas a renda do trabalho ainda baixa pode prejudicar outros ramos.

— A recuperação do mercado deve ser bem difusa. A perda foi muito forte na indústria e pode-se ter algo por aí. No comércio, a reativação de crédito tende a facilitar esses segmentos — afirma a economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thaís Marzola Zara.

ESTADÃO: O desemprego como entrave

Passado ruim, presente pior, futuro inquietante. Estes são os pontos principais do novo balanço geral do mercado de trabalho. A persistência do alto desemprego e a ligeira piora neste fim de ano são as mensagens mais assustadoras. Estavam em busca de ocupação 12,1 milhões de pessoas, 11,9% da população ativa, no trimestre encerrado em novembro. Os números eram pouco menores nos três meses terminados em agosto: 12 milhões de indivíduos e 11,8% da força de trabalho. A variação pode ter sido pequena. Mas o prolongamento da crise, sem sinal de melhora nos mercados, corrói a confiança de consumidores e empresários. As vendas fracas no fim de ano completam, por enquanto, o cenário. Só por enquanto. A desocupação ainda muito alta será um entrave para a retomada dos negócios no início de 2017. Recriar pacotes mágicos será caro e arriscado e poderá produzir desajustes maiores. Mas o governo terá de pensar um pouco mais no curto prazo, se quiser uma reversão mais pronta das expectativas e da atividade.

O desemprego de 11,9% é um recorde na série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012. Esse levantamento cobre 3.464 municípios e é atualizado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados sempre se referem a trimestres móveis (com subtração de um mês numa ponta e adição de um mês na outra). No período agosto-setembro-outubro a desocupação ainda estava em 11,8% da população ativa.

Os desocupados passaram de 9,1 milhões para 12,1 milhões, com aumento de 33,1%, em um ano, até o trimestre encerrado em novembro. Nesse intervalo o desemprego saltou de 9% para 11,9%.

A população em idade de trabalhar (a partir de 14 anos) chegou a 166,8 milhões, com acréscimo de 2 milhões. Mas a força de trabalho atingiu 102,3 milhões, com aumento de apenas 1,1 milhão. Os demais ficaram fora da população economicamente ativa. Parte deve ter ficado apenas na escola. Outra parte deve ter-se juntado ao contingente dos nem-nem, isto é, dos nem estudantes nem trabalhadores. Em um ano a população ocupada diminuiu 1,9 milhão e passou a 90,2 milhões. À desocupada juntaram-se 3 milhões – quase o triplo, portanto, do aumento do contingente na força de trabalho.

A retração do consumo acompanhou, com algum atraso, a piora das condições no mercado de trabalho. Com menos pessoas empregadas, a massa de rendimentos habitualmente recebidos pelos trabalhadores, em todas as suas ocupações, diminuiu 2% em um ano, descontada a inflação. Essa redução pode parecer limitada, mas é preciso levar em conta outros fatores para entender a redução do consumo.

O crédito encolheu e ficou mais caro. As famílias endividadas precisaram cuidar de seus compromissos. As insolventes tiveram de renegociar as dívidas. Além disso, a multiplicação das demissões e a redução da atividade aumentaram a insegurança e induziram os consumidores a ser muito mais cautelosos. Dinheiro curto e crédito escasso são restrições sérias, mas tudo fica muito mais assustador quando aumenta o risco de perder o emprego ou de haver mais um desocupado na família.

O número de empregados na indústria até aumentou entre o período encerrado em agosto e o trimestre terminado em novembro – de 11,52 milhões para 11,54 milhões. Mas em um ano o emprego industrial foi o mais afetado pela crise. Na indústria geral o pessoal diminuiu 8,2%, com fechamento de 1,03 milhão de postos. Na construção o recuo foi de 9% (para 7,06 milhões), com redução de 702 mil empregados.

O emprego industrial vem diminuindo há anos, desde o meio do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Depois de ter sido por muito tempo o principal foco de dinamismo da economia brasileira, a indústria perdeu vigor, passou a investir muito menos, cortou postos de trabalho e tornou-se menos eficiente e menos competitiva. Consertar esse estrago será um dos principais desafios para a política econômica nos próximos anos.

Há trabalho a mostrar e a fazer (EDITORIAL DO ESTADÃO)

No dia 31 de agosto, o Senado Federal encerrou o processo de impeachment de Dilma Rousseff, julgando-a culpada de crimes de responsabilidade, e Michel Temer assumiu a Presidência da República em caráter definitivo até o fim do mandato, em 2018. Se desde então o horizonte da política – e da polícia – não desanuviou no grau e na velocidade que se esperavam, essa quebra de expectativa não pode ser atribuída a uma eventual falta de ação da equipe econômica do governo Temer. Antes, a agenda econômica vem sendo diligentemente implementada com um grau de eficácia de dar inveja a muito governo com condições de temperatura e pressão bem mais favoráveis.

É evidente a principal vitória de Michel Temer até o momento. Ele assumiu um governo em dramáticas condições fiscais e conseguiu, menos de quatro meses depois, aprovar um remédio de longo prazo – amargo, mas muito necessário –, a PEC do Teto dos Gastos.

Muitos diziam que seria impossível aprovar uma emenda com esse teor, especialmente com um Congresso acostumado a cobrar caro por apoio a medidas impopulares. No entanto, Michel Temer conseguiu e o País tem hoje uma legislação que pode frear uma das principais causas de desequilíbrio econômico e social – a gastança pública.

Não fossem as atuais conturbadas circunstâncias políticas, seria mais que razoável uma longa e festiva comemoração pela aprovação da PEC do Teto dos Gastos. Não custa repetir: foi uma significativa vitória da racionalidade e da boa governança sobre a irresponsabilidade e o populismo.

Essa não foi, no entanto, a única vitória de Michel Temer no Congresso. O governo conseguiu a aprovação da Medida Provisória (MP) 735/2016, que altera significativas regras no setor elétrico. Entre outros pontos, a medida facilita os processos de privatização, diminui a burocracia dos leilões e reduz os custos da União com subsídios a concessionárias.

Outra medida importante aprovada durante o governo Temer foi o fim da participação obrigatória da Petrobrás na exploração do pré-sal. Promulgada em fins de novembro, a Lei 13.365/2016 desobriga a estatal de ser a operadora de todos os blocos de exploração do pré-sal no regime de partilha de produção. Sem outro motivo que a absurda limitação ideológica dos governos petistas, essa obrigação colocava em risco a capacidade e a liberdade de investimento da Petrobrás, além de impor sérias limitações à própria exploração do pré-sal.

O governo Temer conseguiu ainda aprovar a Lei de Governança das Estatais, medida de grande utilidade, especialmente após a experiência petista no Palácio do Planalto. A nova lei fixa normas de governança corporativa e regras para compras, licitações e contratações de dirigentes em empresas públicas e sociedades de economia mista. Por exemplo, estabelece condições mínimas para a nomeação de diretores das estatais, dificultando seu aparelhamento político.

Outra vitória alcançada pelo presidente Michel Temer foi a aprovação da MP do ensino médio, com sua proposta de atualizar os currículos escolares, fortalecendo as disciplinas essenciais e dando maior liberdade de escolha ao aluno. Ainda que não se trate de um tema específico da área econômica, tem também efeitos diretos sobre a economia nacional, já que educação e produtividade são assuntos necessariamente vinculados.

Além disso, o governo Temer ainda lançou um consistente programa de medidas microeconômicas – que podem contribuir para desembaraçar a economia, não apenas no curto prazo – e apresentou corajosa proposta de reforma da Previdência.

Nos últimos dias, o governo federal deu decisivos passos para a reforma trabalhista, medida que muitos analistas diziam ser inadmissível para as centrais sindicais e todos dizem ser essencial para o destravamento dos investimentos. Além disso, ajudou os Estados endividados na medida do possível, no que foi atrapalhado pela irresponsabilidade de uma maioria de deputados.

Certamente, ainda há muito a ser feito na pauta econômica e em muitas outras áreas. É preciso, no entanto, reconhecer uma abissal diferença entre o governo de Michel Temer e a anterior administração – ele está trabalhando.

Fonte: O Globo + ESTADÃO

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