"Visões de Lula", por MERVAL PEREIRA, em O GLOBO

Publicado em 07/01/2017 16:49 e atualizado em 08/01/2017 07:02
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MERVAL PEREIRA, em O GLOBO

Circulam na internet dois vídeos com declarações atuais do ex-presidente Lula, um que é sua mensagem de fim de ano, outro, uma conversa com um grupo de correligionários, entre eles o senador Lindbergh Farias. Nelas, podemos ver como pensa o ex-presidente sobre a crise brasileira e, sobretudo, que soluções propõe para superarmos os problemas atuais.
Na conversa informal com seus seguidores, Lula faz um diagnóstico da crise que não deixa nada bem a ex-presidente Dilma. Ele admite que o país “está quebrado”, e o governo não tem capacidade de investimento, porque a arrecadação de impostos caiu. Diz, então, que a primeira solução seria aumentar os impostos, mas admite que isso não é possível.
Sugere fazer o que o presidente Michel Temer está fazendo: acabar com as desonerações que o governo Dilma concedeu a diversos setores que, segundo Lula, tiraram dos cofres da União 500 bilhões de reais. Não é um elogio à política econômica de Dilma, evidentemente.
Mas o ex-presidente vai mais adiante. Diz que outra solução seria “fazer uma dívida” de, sugere, 300 bilhões de reais, e aplicar tudo em obras de infra-estrutura. Outra solução, diz ele, seria pegar uns 100 bilhões de dólares de nossas reservas cambiais e investir em obras aqui no país. Muitos vão dizer que é inflacionário, adverte Lula, e logo rebate: é inflacionário, mas eu prefiro inflação com emprego.
Na mensagem de fim de ano, o ex-presidente volta a falar no desemprego recorde, pede que o povo vá às ruas “para defender seus empregos”, e diz que está na hora de voltarmos a sonhar, como se nem ele nem os 13 anos de governo petista tivessem a ver com os 12 milhões de desempregados.
Lula na gravação defende a ampliação do crédito, e dá um exemplo do que considera ser a saída para a crise: “Está devendo? Pega um novo empréstimo”. E garante que sabe do que está falando, pois diz que fez isso por doze anos, com aumentos de salários, incluindo como seus os quatro anos da ex-presidente Dilma. E o país quebrou, como ele mesmo admite.
Quanto ao uso das reservas cambiais, a proposta é tão absurda que nem a ex-presidente Dilma topou fazer, quando o PT defendeu a mesma tese em nota oficial. Na ocasião, o economista Armando Castelar, do Ibre/FGV, ouvido por mim, desmontou a tese. “É mais um passe de mágica fiscal que tenta fazer de conta que é possível gastar sem ninguém pagar a conta. Conta que, já aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, aparece daqui a pouco”. (Apareceu, e o país quebrou, segundo o próprio Lula).
 Castelar lembrou que se o governo usar as reservas, transformando-a em dinheiro, “significa vender dólares no mercado local em troca de reais. Dados os valores envolvidos, significa que no curto prazo o real tenderia a se apreciar frente ao dólar (porque aumentariam a oferta de dólares e a demanda por reais), prejudicando as exportações das indústrias”.
Ao mesmo tempo, muita gente iria aproveitar a valorização do real para comprar dólares e colocar seu patrimônio fora. O setor privado ficaria com mais dólares, menos títulos públicos e a mesma quantidade de dinheiro. O Banco Central com mais títulos públicos e uma dívida maior em dinheiro. O Tesouro, com menos reservas (dólares) e mais dinheiro. O resultado final seria uma queda adicional da confiança, gerando mais queda do PIB e possivelmente mais inflação, analisava Castelar.
De outro lado, vem a questão do que o governo faz com os reais que recebeu em troca das reservas. Se ele “tentar aquecer a economia”, significa que vai usar o dinheiro que, no fim das contas, foi emitido pelo BC para aumentar o gasto público. “Significa expansão fiscal e monetária”. Justamente o que nos levou à situação atual.
A capacidade dos líderes do PT de imputarem a outros os problemas que criaram nos 13 anos de governo revela-se agora na crise do sistema penitenciário. O presidente Michel Temer demorou a reagir, e quando o fez usou uma expressão infeliz para definir a tragédia de Manaus.
O ministro da Justiça Alexandre de Moraes, seguindo o que parece ser uma orientação oficial, teima em minimizar a guerra de facções criminosas, que é o grande problema para a segurança nacional. Mas é evidente que não é o governo de Temer, que tem 4 meses de presidente efetivo, o responsável pela crise penitenciária, nem pelos 12 milhões de desempregados.
Já em 2012, depois de dez anos de governos petistas, o então ministro da Justiça José Eduardo Cardozo deu uma declaração polêmica: disse que preferia morrer a ficar preso em uma de nossas penitenciárias. Quatro anos se passaram depois da declaração, e o que foi feito? O resultado está aí.

No ESTADÃO: Sem-votos querem o caos

A depender das lideranças carbonárias que comandam alguns dos chamados movimentos sociais, 2017 é um ano que promete em termos de manifestações de protesto violentas contra o governo e suas propostas para recuperar o equilíbrio das contas públicas e criar condições para a retomada do crescimento econômico. É o que revela levantamento feito pelo Estado e publicado na terça-feira passada. Guilherme Boulos, o notório agitador que lidera o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), faz, mais do que um prognóstico, uma ameaça: “Haverá um agravamento da situação e vamos nos aproximar de um estado de convulsão social”. Essa clara manifestação de propósito traduz, em resumo, o pensamento de várias lideranças das entidades e organizações sociais historicamente engajadas no chamado movimento de esquerda no País.

Desalojados da órbita governamental com o impeachment de Dilma Rousseff, movimentos e entidades dessa tendência, principalmente aqueles tradicionalmente patrocinados por verbas públicas, dão-se conta de que só lhes resta o confronto político com o poder central como meio de se manterem ativos no cenário político. É uma opção radical que decorre da natureza autoritária desses movimentos, que não lhes permite sequer cogitar da negociação de propostas com o governo – aliás, com qualquer governo, enquanto eles próprios não se instalarem no poder –, restando-lhes assim apenas o recurso da violência para contestar a legitimidade de aparatos estatais que são apenas “instrumentos de opressão das classes dominantes”.

Agarrados a essa política do “nós” contra “eles”, que sempre foi a marca registrada de Lula et caterva, essas entidades e movimentos sociais sabem que já não podem contar com a via eleitoral para voltar ao poder. Isso ficou dramaticamente demonstrado nas eleições municipais do ano passado, em que PT & Cia. foram massacrados nas urnas. Por exemplo, a atual presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, disputou pelo PCdoB a prefeitura de Santos. Teve menos de 15 mil votos, o equivalente a 6,6% do eleitorado santista.

A jovem Carina dispõe-se então a obter nas manifestações o sucesso que não conseguiu nas urnas: “Nós vamos para as ruas contra a reforma da Previdência e, principalmente, contra a PEC dos gastos públicos, que acaba com os investimentos em educação e condena o futuro do País”. Pretende incendiar as cidades com a versão mentirosa – mas capaz de sensibilizar corações sensíveis porém mal informados – de que nos próximos 20 anos não haverá investimentos em educação.

Numa linha politicamente mais ambiciosa pretende atuar o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, Vagner Freitas: “A pauta que vai puxar protestos contra o governo é o combate à reforma da Previdência. Vamos partir dessa proposta absurda de reforma e, no fim, chegaremos ao grito de ‘Diretas Já’”.

A completa irresponsabilidade política desses movimentos que planejam incendiar o País em nome, para começar, do revanchismo consubstanciado na palavra de ordem “Fora Temer”, escancara-se quando essas lideranças “populares” admitem, com todas as letras, que antes de qualquer outro objetivo a intenção é lutar “contra o governo”. Quer dizer: não importa quais sejam as propostas apresentadas pelo presidente Temer e sua equipe. O que importa no momento é ser “contra o governo”, se possível derrubá-lo. Depois que esse objetivo for atingido, mais cedo ou mais tarde, o País poderá começar a pensar na solução da grave crise econômica, política e social em que está mergulhado.

Até lá, prometem os incansáveis salvadores da Pátria, os movimentos “populares” continuarão nas ruas agitando bandeiras “progressistas”, com o apoio dos vibrantes black blocs, responsáveis pelos melhores momentos da coreografia de horrores que traduz o sentimento de indignação dos brasileiros contra tudo e contra todos, segundo cândida interpretação sociológica de Guilherme Boulos, amplamente disponível nas mídias sociais.

Quanto maior for a queda no salário real, menor o aumento do desemprego (por SAMUEL PESSOA, na FOLHA)

Em um debate em outubro de 2015 no Insper, afirmei que estava feliz com a queda de 5% do salário real que houve em maio daquele ano.

Essa afirmação "causou" na internet. A ideia foi que o professor de economia ficava feliz com a infelicidade dos outros.

Em geral, a vida e as coisas são mais complexas do que a visão maniqueísta -no Brasil, mais da esquerda, e nos Estados Unidos, mais da direita- dos fenômenos sociais.

A vantagem de uma rápida queda do salário real é que o ajustamento inflacionário -isto é, o processo de trazer a inflação para a meta- ocorre com menor aumento da taxa de desemprego.

Ou seja, ao longo de um processo de desinflação, há um "trade-off" (ainda não encontrei tradução em português, sugestões são bem-vindas!) entre queda do salário real e aumento do desemprego. Quanto maior e mais rápida for a queda do salário real, menor será o aumento do desemprego, e vice-versa.

O conflito distributivo em economias de mercado opera com os trabalhadores pleiteando maiores salários e os capitalistas pleiteando maiores margens. Se o conflito distributivo não for corretamente arbitrado pelo banco central, ele destrói a estabilidade de preços, um dos bens públicos mais importantes de uma sociedade.

Infelizmente, o sinal positivo de maio de 2015 -queda do salário real de 5%- não se materializou no atual ciclo desinflacionário.

A inércia inflacionária -da qual a regra de atualização do salário mínimo pela inflação passada é um dos maiores condicionantes- requereu taxas elevadíssimas de desemprego para promover a queda da inflação, o que finalmente está ocorrendo.

Além da elevada inércia inflacionária, diversos outros fatores contribuíram para que o atual processo de desinflação seja tão custoso: inflação em 2014 de 6,5% e muito persistente (a inflação média no quinquênio 2010-2014 foi de 6,1%); atraso de quase 20% nas tarifas e no preço da gasolina; atraso no câmbio; e situação de hiperemprego, isto é, taxa de desemprego abaixo da taxa que não acelera a inflação.

Uma das tragédias das economias de mercado é que, em períodos de crise e ajustamento econômico, os mais desfavorecidos sofrem mais. Em que pese todo um Estado de bem-estar social que minora o custo do ajuste, ele sempre será mais sentido pelos mais fracos.

É por esse motivo que a formulação da política econômica tem que ser conservadora e cautelosa -como não foi de 2009 até 2014-, evitando experimentos. Porque, quando a conta dos experimentos chega, ela é paga pelos mais pobres.

Essa característica perversa das economias de mercado deriva do fato de que os mais ricos são aqueles que têm reservas para enfrentar as intempéries. A única forma de igualar o jogo é acabar com a propriedade privada.

Não é por outro motivo que a esquerda radical sempre pregou o fim da propriedade privada. Corretamente, percebeu que era a única forma de impedir que os pobres pagassem mais pelos ajustes. A dificuldade é que até hoje não se construíram instituições que tornassem a propriedade coletiva dos meios de produção compatível com democracia e com desenvolvimento econômico.

Parece, portanto, que a melhor alternativa é economia de mercado com Estado de bem-estar social, que minora, mas não elimina a injustiça básica das economias de mercado.

Na FOLHA: Indústria vende mais máquinas agrícolas e fecha 2016 com mais empregos (por MAURO ZAFALON)

As vendas de máquinas agrícolas e rodoviárias foram melhores do que o setor esperava no ano passado.

Após uma queda de 31% nas vendas no primeiro semestre, em relação a igual período de 2015, acreditava-se que o ano terminaria em situação bem mais complicada.

Não foi o que ocorreu. No segundo semestre, o cenário mudou completamente, e as vendas de julho a dezembro superaram em 27% as de igual período de 2015.

Com isso, o resultado final do ano ainda foi de queda, mas com percentual bem menor do que se previa no primeiro semestre.

A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) divulgou nesta quinta-feira (5) que as vendas totais de máquinas agrícolas e rodoviárias fecharam o ano em 42,8 mil unidades, ante 45 mil de 2015.

Este foi o terceiro ano seguido de queda nas vendas do setor, que, em 2013, chegou a vender 83 mil equipamentos.

A recuperação das vendas de máquinas no setor deu vida também ao mercado de trabalho. No mês passado, as indústrias de máquinas agrícola e rodoviárias empregavam 16,8 mil trabalhadores, 9% mais do que em dezembro de 2015.

Esse cenário de crescimento no segundo semestre contrasta com vários outros setores da economia brasileira, que, devido à crise econômica, têm desemprego recorde.

O destaque do ano passado fica para o crescimento nas vendas de colheitadeiras, que somaram 4.498 unidades. Esse número supera em 15% o de 2015.

Já as vendas de tratores não se recuperaram, tendo queda de 4%. Foram vendidas 35,96 mil unidades no ano passado, segundo a Anfavea.

A melhora no setor de máquinas no segundo semestre ocorreu porque os produtores mantiveram renda no ano passado. Ao contrário do que se esperava, a maior parte das commodities manteve preços favoráveis, devido à demanda internacional.

Além disso, o dólar ajudou permitindo ganhos maiores, em reais, nas exportações das mercadorias.

Com cenário favorável dos preços, os produtores ampliaram ainda mais as áreas de de milho e de soja. O ritmo de crescimento da soja, no entanto, não foi tão intenso como nos anos anteriores.

O resultado é que já se prevê safra de milho acima de 90 milhões de toneladas, e a de soja, próximo de 104 milhões.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) espera uma safra total de grãos de 213 milhões de toneladas. Para colher essa safra recorde, os produtores elevaram as compras de colheitadeiras.

Paraná, Mato Grosso e Rio Grande Sul se destacam na compra de colheitadeiras. Os dois primeiros ficaram com 23% cada um das máquinas vendidas; os gaúchos, com 22%. 

Fonte: O GLOBO + ESTADÃO + FOLHA

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