Depois de três anos de recessão, Brasil começa a atrair mais capital estrangeiro (no ESTADÃO)

Publicado em 10/01/2017 09:39 e atualizado em 11/01/2017 09:25
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O bônus do investimento, EDITORIAL DO ESTADÃO (Depois de quase três anos de recessão, o País tem atraído mais capital estrangeiro que outros emergentes do grupo considerado o mais vulnerável à variação dos juros e do câmbio das moedas de grandes potências)

O Brasil deve receber neste ano US$ 75 bilhões de investimento estrangeiro direto, segundo projeção do Banco Central (BC), ou US$ 70 bilhões, de acordo com estimativa de instituições financeiras e consultorias. Qualquer das duas quantias cobrirá mais que o dobro do buraco na conta corrente do balanço de pagamentos, se o déficit de US$ 28 bilhões indicado no cenário do BC for confirmado no fim de 2017. Depois de quase três anos de recessão, a maior da história republicana, o País tem atraído mais capital estrangeiro que outros emergentes incluídos em 2014 na lista dos “cinco frágeis”, termo criado pelo banco Morgan Stanley. África do Sul, Índia, Indonésia e Turquia completam o grupo considerado, há algum tempo, o mais vulnerável à variação dos juros e do câmbio das moedas de grandes potências.

O investimento direto – capital destinado à atividade empresarial – é em geral considerado mais útil e mais seguro que a poupança externa aplicada no mercado financeiro. As duas formas podem ser bem-vindas, mas a aplicação financeira tende a ser mais especulativa, mais instável e, portanto, menos confiável, porque pode sair a qualquer momento. Além disso, grandes fluxos especulativos podem provocar forte instabilidade cambial, dificultando o planejamento e a condução dos negócios. Por mais de uma razão, o investimento direto é considerado a melhor cobertura para os déficits nas transações correntes do balanço de pagamentos.

As transações correntes incluem a balança comercial (exportação e importação de bens) e as contas de serviços e de rendas. Esse conjunto é normalmente deficitário no Brasil. O saldo comercial, em geral positivo, é quase sempre insuficiente para compensar o déficit em serviços e rendas.

Um déficit moderado na conta corrente pode favorecer o crescimento econômico, porque a cobertura proporcionada pelo capital estrangeiro aumenta o volume da poupança disponível e permite maior investimento produtivo.

Em 2013 e 2014, no entanto, o saldo comercial declinou severamente, com as importações infladas pela excessiva expansão do consumo. Nesses dois anos, o déficit em conta corrente atingiu níveis muito altos (US$ 81,4 bilhões e US$ 91,3 bilhões) e o investimento estrangeiro direto (US$ 64 bilhões e US$ 62,5 bilhões) foi insuficiente para cobrir o buraco. Com a recessão, a inflação ainda alta e a perda de renda dos brasileiros, a importação de mercadorias e outros gastos declinaram. Em 2015 o investimento direto, de US$ 75,1 bilhões, compensou com folga o déficit de US$ 58,9 bilhões. O ingresso em 2016 deve ter chegado a US$ 78,8 bilhões, enquanto o déficit continuou a encolher. Neste ano, a importação deve aumentar e o superávit comercial (cerca de US$ 48 bilhões em 2016) deverá diminuir para US$ 44 bilhões, nas contas do BC. O déficit em conta corrente poderá ir a US$ 28 bilhões, mas a cobertura está mais que garantida.

Mas como explicar o atrativo do Brasil, com a economia ainda fraca, problemas enormes nas contas públicas, graves tensões políticas e a assustadora lista de revelações da Operação Lava Jato?

Segundo especialistas citados pelo Financial Times, de Londres, os problemas políticos e a incerteza econômica da Turquia superam os de todos os outros “frágeis”. Brasil e África do Sul são considerados mais atraentes. Analistas mencionados em reportagem do Valor apontam outros detalhes interessantes. China e Índia, duas economias dinâmicas, são destinos também atrativos. Mas investidores já aplicaram muito na China e têm interesse em diversificar. No caso da Índia, há complicações religiosas e culturais. Além de tudo, muitos ativos brasileiros estão baratos, depois de anos de recessão e também por causa dos esforços de ajustes de grandes empresas, como a Petrobrás. Parte do investimento direto corresponde, naturalmente, à reaplicação de recursos de empresas já instaladas no Brasil. Há, portanto, uma aposta na recuperação. Para o governo, qualquer aposta desse tipo é um bônus, quase uma graça. Desperdiçar esse bônus, com erros políticos ou fraqueza, seria quase um sacrilégio.

Síndrome do pessimismo, por RUBENS BARBOSA

A gestão atual já realizou o que as anteriores não tiveram disposição ou força política para tentar 

A interação das crises econômica, política e ética está deixando marcas profundas na sociedade brasileira. Manifestações violentas, individuais ou coletivas, contra pessoas ou o Estado, tornaram-se rotina. O mau humor instalou-se de forma permanente, consequência da insegurança, do desemprego crescente, que aflige as famílias, da perda do poder de compra da maioria que recebe salário e também das estratosféricas taxas de juros, que afetam as pessoas e as empresas.

Característica da insatisfação e frustração é a tendência ao negativismo e pessimismo. As notícias quase diárias de corrupção da Lava Jato, da total insensibilidade da classe política e de setores corporativos diante da crise estão tornando difícil a leitura isenta e desapaixonada até de acontecimentos positivos. O discurso lulopetista do “nós e eles” está à solta.

Um claro exemplo disso é o fato de terem passado despercebidos o exame e a aprovação de algumas leis pelo Congresso e mudanças com ações do Estado que afetam positivamente a todos, governo, setor privado e indivíduos. Nos cem primeiros dias (outubro-dezembro) do governo Temer, o Executivo, visto como fraco, ineficiente e fragilizado pela Lava Jato, bem como o Congresso, apesar de desmoralizado e enfraquecido, aprovaram uma série de reformas que nem Lula nem Dilma tiveram disposição ou força política para sequer tentar que fossem examinadas.

A lista é expressiva: lei que permite a desvinculação das receitas da União, lei que regula o funcionamento das estatais, lei das concessões e privatizações, lei que muda o regime de exploração do pré-sal, lei das empresas aéreas, lei que facilita a privatização do setor elétrico, lei permitindo repatriação de recursos mantidos no exterior, lei que permite redução de jornada a servidor federal com cônjuge ou filho deficiente, lei que amplia poderes das CPIs, lei para renegociação de dívida de produtor atingido pela seca, lei que simplifica trâmite de processos judiciais, PEC do Teto de gastos públicos, lei da reforma do ensino médio, medida provisória que regulariza a situação fundiária em áreas pobres e carentes (favelas). E ainda se iniciou a discussão sobre a revisão das dívidas estaduais, da Lei Rouanet e das importantes reformas da Previdência e trabalhista.

É verdade que a grave crise que o País atravessa facilitou esse avanço. Em conversa com o ministro Delfim Netto, ouvi que os governos agem sempre da mesma forma: apesar de todas as advertências, continuam a aplicar políticas equivocadas até que a situação comece a sair do controle; nesse momento é que começariam a aplicar as políticas corretas que vinham sendo sugeridas havia muito tempo.

É preciso ter em mente que o governo Temer herdou uma economia falida, em recessão, com crescente desemprego, nível de corrupção jamais visto e política externa que isolou o Brasil e diminuiu sua exposição no exterior. Com o País vivendo a mais grave crise de sua História, o resultado tem sido, goste-se ou não das medidas, a rápida aprovação de leis, a mudança de políticas e a redução do papel do Estado na economia e na vida dos cidadãos.

Para reduzir o papel do Estado estão em pauta diversas providências. Exemplos são a recuperação da Petrobrás, agora com liberdade para operar os preços dos combustíveis, a revisão do papel do BNDES, de modo a atender de fato aos interesses do País, a redução do número de ministérios e a extinção de 4.689 cargos em comissão e funções de confiança.

Na política externa, eliminada a influência da ideologia na formulação e execução de suas ações, busca-se retirar o Brasil do isolamento dos entendimentos comerciais e acelerar as negociações Mercosul-União Europeia. Deu-se nova ênfase ao Mercosul e suspendeu-se a Venezuela pelo descumprimento dos compromissos assumidos no Protocolo de Adesão de 2006.

O período Lula-Dilma, voltado para ansiados programas sociais, paternalistas, assistencialistas e de caráter redistributivista, ignorou as reformas modernizantes que poderiam favorecer ainda mais e de forma permanente as classes menos favorecidas. Sucedendo a presidentes que ignoraram essas reformas, o governo atual, neste curto período, alterou políticas, legislações e deu direção à economia.

Tudo isso foi feito sob o mais completo alheamento da sociedade, anestesiada pelo desânimo e pela desesperança quanto ao futuro. O aprofundamento das reformas estruturais, como as da Previdência e trabalhista, ao lado da reforma política, apesar de pouco ambiciosa até aqui, criou um novo patamar para os futuros governos.

Resultado dessa nova atitude, iniciou-se a redução da taxa de juros, acentuou-se a queda da inflação, o risco Brasil diminuiu e, sobretudo, evitou-se a criação de mais impostos. Com o gradual restabelecimento da confiança empresarial, em 2017 o País deverá sair da recessão dos três últimos anos.

A discussão de uma agenda para um Brasil moderno deveria ir além das atuais mudanças na economia e das ações do governo. O debate, na eleição de 2018, deveria concentrar-se nas propostas com visão de médio e longo prazos sobre o lugar do Brasil no mundo, com a definição do que queremos, internamente, em termos de redução do papel de Estado e, externamente, no tocante à inserção do País nos fluxos dinâmicos das cadeias produtivas globais. O muito que foi feito em tão pouco tempo, combinado com as punições exemplares de políticos e empresários corruptos, é sinal alentador de que as instituições – Executivo, Legislativo e Judiciário –, embora fragilizadas, continuam funcionando e produzindo resultados que podem favorecer toda a sociedade.

Em 2018 os eleitores terão de optar entre a volta ao passado e o aprofundamento das reformas para a execução de agenda modernizadora, de modo a tornar o País mais eficiente e socialmente mais justo.

* RUBENS BARBOSA É PRESIDENTE DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E COMÉRCIO EXTERIOR.

Após quatro quedas seguidas, vendas no varejo sobem 2% em novembro

O desempenho foi o mais positivo desde julho de 2013, quando as vendas aumentaram 2,9%, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Comércio, do IBGE

RIO - As vendas do comércio varejista subiram 2% em novembro ante outubro, na série com ajuste sazonal, informou na manhã desta terça-feira, 10, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  O desempenho foi o mais positivo desde julho de 2013, quando as vendas aumentaram 2,9%, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE.

Na comparação com novembro de 2015, sem ajuste sazonal, as vendas do varejo tiveram baixa de 3,5% em novembro de 2016. Nesse confronto, as projeções de analistas ouvidos pelo Broadcast iam de uma retração de 3,40% a 6,80%, com mediana negativa de 5,30%.

Foto: Marlon Costa|EstadãoVarejo

Pesquisa Mensal do Comércio melhorou levemente os resultados do varejo em outubro, setembro e agosto de 2016

As vendas do varejo restrito acumulam retração de 6,40% no ano e recuo de 6,50% em 12 meses. Quanto ao varejo ampliado, que inclui as atividades de material de construção e de veículos, as vendas subiram 0,60% em novembro ante outubro, na série com ajuste sazonal. 

Na comparação com novembro de 2015, sem ajuste, as vendas do varejo ampliado tiveram baixa de 4,5% em novembro de 2016. Nesse confronto, as projeções variavam de uma retração de 10,90% a 4,60%, com mediana negativa de 5,70%. Até novembro, as vendas do comércio varejista ampliado acumulam queda de 8,8% no ano e recuo de 9,1% e 12 meses. 

Compras antecipadas. Na passagem de outubro para novembro, cinco das oito atividades que compõem o varejo tiveram avanço nas vendas, segundo os dados da PMC. O principal destaque foi a alta de 0,9% em hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo. Segundo o IBGE, os desempenhos destes segmentos em novembro indicam antecipações de compras para o Natal, movimento que se acentua a cada ano.

Outras contribuições relevantes para o avanço de 2% no varejo no mês foram dos outros artigos de uso pessoal e doméstico (alta de 7,2% em novembro ante outubro), móveis e eletrodomésticos (2,1%) e o setor de equipamentos de escritório, informática e comunicação (4,3%). Houve alta também em artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (0,6%).

Na direção oposta, houve perdas em tecidos, vestuário e calçados (-1,5%), livros, jornais, revistas e papelaria (-0,4%) e combustíveis e lubrificantes (-0,4%).

Considerando o varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, a alta de 0,6% nas vendas em novembro teve influência do setor de material de construção, que cresceu 7,2%. Já o segmento de veículos, motos e partes e peças recuou 0,3%.

Petrobrás capta US$ 4 bi (o dobro do que planejava) com emissão de títulos no exterior

Demanda pelos títulos da estatal chegou a US$ 20 bilhões, o que, para analistas, reflete uma melhora na credibilidade da empresa

A Petrobrás iniciou 2017 provando que o ano poderá ser de virada para a companhia. A petroleira abriu a temporada de captações de recursos no exterior com uma emissão de US$ 4 bilhões, a um custo mais baixo que o de suas últimas captações, conseguindo se distanciar do estigma deixado pela Operação Lava Jato. A demanda pelos papéis teria chegado perto de US$ 20 bilhões, conforme apurou o Broadcast, sistema de informações em tempo real do Grupo Estado.

Foto: SANDRO VOX | PAGOSPetrobrás

Petrobrás também anunciou o início da oferta de recompra de sete títulos até o limite de US$ 2 bilhões

Inicialmente, a Petrobrás mirava captar, ao menos, US$ 2 bilhões, mas acabou elevando o volume diante do custo considerado baixo. A estatal emitiu dois bônus, um com vencimento em cinco anos e outro com dez anos. Inicialmente, a taxa indicativa para os títulos era de 6,5% e 7,75%, respectivamente, mas foi revisada para 6,125% e 7,375%, diante da alta demanda. Na última emissão feita pela Petrobrás, em julho do ano passado, essas taxas ficaram em 7,875% e 8,750%. Antes disso, em maio, a empresa teve de pagar 8,625% e 9% aos investidores, em uma outra captação. Em 2015, em um bônus de 100 anos, a estatal pagou uma taxa de 8,45%.

“Essa emissão funciona como um recado. A empresa tem hoje muito mais qualidade. Essa captação, a esse custo, foi um marco”, diz uma fonte que acompanhou diretamente a operação. A fonte ressalta, ainda, que a estatal não elevará seu endividamento com a emissão, visto que deve usar todo o montante para recomprar os bônus com vencimento mais curto.

O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, disse que a nova captação era esperada. “A Petrobrás tem uma dívida muito alta, são aguardados esses movimentos de trocar a dívida buscando reduzir o custo”, disse.

Para o especialista, apesar da melhora na credibilidade da companhia com a nova gestão, ainda há um longo espaço até a sua recuperação. “A solução está longe de ocorrer, será quando começar a pagar dívida com a própria operação”, afirma. Pires destaca que a empresa está pagando a conta de investimentos malfeitos. “Isso demanda anos para ser resolvido, o que só ocorrerá se o cenários local e internacional não trouxerem contratempos.”

A agência de classificação de risco Moody’s atribuiu rating B2 e perspectiva estável à emissão externa da Petrobrás. A nota é a mesma da própria empresa, que subiu um degrau no ano passado, mas ainda continua com grau considerado “especulativo” - ou seja, há algum risco em relação à emissão. 

A Moody’s enfatizou que, em 2016, o risco de liquidez da estatal recuou, por conta da venda de ativos, que somou US$ 13,6 bilhões, e a troca de dívidas de US$ 10 bilhões no terceiro trimestre. Pondera, contudo, que o risco permanece significativo, visto que o volume de vencimentos em 2017 e 2018 soma US$ 7,9 bilhões e US$ 13,5 bilhões, respectivamente.

Próximas. Neste ano, a Petrobrás reabriu mais cedo o mercado de captações externas para empresas brasileiras. Já na segunda semana de janeiro levantou recursos no exterior, ao passo que no ano passado esse movimento, geralmente capitaneado pela estatal, ocorreu apenas em maio. Provou não só que se distanciou da Lava Jato, muito por conta da nova gestão da empresa, mas também que a conclusão do processo do impeachment no Brasil ajudou a melhorar a visão do País no cenário internacional. 

Depois de um ano fechado para captações externas diante do aprofundamento da crise política no Brasil e como reflexo da Lava Jato, as empresas brasileiras levantaram mais de R$ 69 bilhões em 2016, um salto de 191,5% em relação a 2015, conforme a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Desse total, apenas a Petrobrás foi responsável pela emissão de US$ 9,750 bilhões ano passado, ou quase metade do que foi captado no ano passado. A emissão da Petrobrás foi coordenada pelo Bradesco BBI, Itaú BBA, Citi, HSBC e Morgan Stanley. 

Fonte: O Estado de S. Paulo

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