Veja a foto: Eike tem cabeça raspada e é levado ao presídio de Bangu 9, no Rio

Publicado em 30/01/2017 16:51 e atualizado em 30/01/2017 18:52
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Empresário foi preso pela Polícia Federal nesta segunda-feira assim que chegou dos Estados Unidos (em veja.com). + Eike careca. Você vibrou, amigo? Vamos falar a respeito? (por REINALDO AZEVEDO)

Preso pela Polícia Federal nesta segunda-feira após voltar de viagem aos Estados Unidos, o empresário Eike Batista foi transferido do presídio Ary Franco, em Água Santa, Zona Norte do Rio de Janeiro, para o presídio Bandeira Stampa, conhecido como Bangu 9, na Zona Oeste da cidade.

A cela em que o empresário ficará preso tem capacidade para seis presos e é classificada internamente como “cela de faxina”. Isso significa que os detentos saem para trabalhar no presídio durante o dia. A maioria dos presos de Bangu 9 é composta de agentes de segurança detidos por crimes relacionados às milícias que atuam no Rio.

EIKE TEM CABELO CORTADO

O empresário Eike Batista, de cabelo raspado deixa o presídio Ary Franco, no Rio de Janeiro, após ser trazido pela Policia Federal e segue para rumo desconhecido (Fábio Motta/Estadão Conteúdo)

Parte do Complexo Penitenciário de Gericinó, o presídio Bandeira Stampa tem um déficit de vagas menor que o do Ary Franco. Bangu 9 poderia receber até 541 detentos e conta com 682, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), enquanto a unidade prisional na Zona Norte tem 968 vagas e 2 129 presos.

Antes de ser transferido, Eike Batista teve a cabeça raspada. Ao chegar a Bangu 9, o empresário deve posar para o retrato do sistema penitenciário fluminense, assim como os outros presos da Operação Calicute, como o ex-governador Sérgio Cabral e a ex-primeira dama Adriana Ancelmo.

A prisão do ex-bilionário foi decretada no âmbito da Operação Eficiência, desdobramento da Calicute. As investigações mostram que Eike repassou 16,5 milhões de dólares em propinas para a Cabral por meio de contas no exterior.

Como o empresário não tem o ensino superior completo, pode ficar em presídio comum. Ele deve prestar depoimento ainda nesta semana.

O GLOBO: Em Bangu, Eike dividirá unidade superlotada com policiais presos

Segundo dados do sistema penitenciário do Rio, relativos a dezembro, Bangu 9 tem 547 vagas, e tinha 657 internos, um excedente de 110 presos acima da capacidade. A unidade é para cumprimento do regime fechado, e cada cela comporta seis internos. No jargão dos agentes da Seap, Bangu 9 é chamado como cela “dos faxinas”, uma vez que a maioria dos presos trabalha na unidade, com serviços gerais.

RIO — Preso na manhã desta segunda-feira no Galeão, Eike Batista foi levado para a triagem no presídio Ary Franco, em Água Santa, na Zona Norte, do Rio, onde teve a cabeça raspada e vestiu o uniforme dos detentos, e no começo da tarde para a Penintenciária Bandeira Stampa, conhecida como Bangu 9, no Complexo de Gericinó. Segundo agentes da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), após um rearranjameto promovido pela secretaria recentemente, esta unidade recebe atualmente, em sua maioria, policiais presos. Boa parte cumpre pena por crime ligados ao envolvimento com milícias.

Por não ter nível superior completo, o empresário não pode ir para Bangu 8, onde está o ex-governador Sérgio Cabral e outros presos durante as operações Calicute e Eficiência, os braços da Lava-Jato no Rio. Até por isso, a segurança física de Eike era uma das principais preocupações de seus advogados nesta segunda-feira. Não há, em Bangu 9, criminosos ligados às principais facções do crime organizado no Rio.

PREOCUPAÇÃO COM INTEGRIDADE FÍSICA -- Bangu 9 é uma das unidades mais recentes do sistema do Rio, e portanto ainda tem melhor condições, inclusive de limpeza, que outras prisões. A defesa de Eike temia que ele passasse muito tempo no Ary Franco, conhecido pelas péssimas condições a que estão submetidos os quase dois mil detentos. Os advogados do empresário formalizaram junto à Justiça Federal a preocupação de que ele fosse encaminhado a uma unidade onde não tivesse a integridade física ameaçada.

No agravemento da crise nas penitenciárias brasileiras no último mês, o Complexo de Bangu não foi palco de motins ou rebeliões que culminaram em dezenas de mortes em estados como Rio Grande do Norte e Maranhão.

Fernando Martins, um dos que cuidam da defesa do empresário, esteve no Ary Franco, onde Eike permaneceu por pouco mais de duas horas para fazer a triagem.

— A integridade física é uma preocupação nossa, não por ser o Ary Franco ou outra unidade aonde ele vá — disse Martins, acrescentando que ainda não definiu uma linha de defesa para o cliente.

Ele citou a entrevista de Eike ao GLOBO, ainda no aeroporto de Nova York, para responder que seu cliente ainda não definiu se fará uma delação premiada. 

— Todos viram a entrevista, ele falou em “passar a limpo”. No sentido de que quer prestar todos os esclarecimentos à polícia e à Justiça sobre o que é acusado.

Eike careca é a fotografia de um Brasil diferente, por JOSIAS DE SOUZA (UOL)

Fábio Motta/Estadão Conteúdo

A imagem do ex-bilionário Eike Batista careca, uniformizado de preso, escoltado por policiais, sendo transferido de uma penitenciária para outra é o retrato de um Brasil em mutação. Um país ainda desanimador. Mas que já consegue expor as mazelas que comprovam uma evidência: esta é a nação onde há as mais fabulosas possibilidades de surgir um mundo inteiramente novo. Caos, matéria-prima básica dos grandes recomeços, não falta.

Eike voara para Nova York dois dias antes da decretação de sua prisão. Dispunha de dinheiro e de um passaporte alemão. Poderia tentar uma fuga. Preferiu retornar para “ajudar a passar as coisas a limpo”. Fez isso porque concluiu que já não é tão fácil ficar completamente impune depois de passar as coisas a sujo no Brasil —um país que ainda não é inteiramente outro, mas já está diferente.

Eike careca. Você vibrou, amigo? Vamos falar a respeito? (por REINALDO AZEVEDO)

Os justiceiros podem patrulhar à vontade. Essa gente que chega a cometer genocídio nos teclados e depois acarinha o cabelo do filho pode babar à vontade. Os que se deixam conduzir por demagogos e oportunistas podem disparar à vontade. O fato é que não vibro ao ver Eike Batista de cabeça raspada. Ele não está condenado. A prisão é preventiva. Em razão disso, nem ouvido foi ainda pela polícia. Será um dia. Quando? Não existe prazo para a preventiva no Brasil. Em tese, pode ser prisão perpétua.

Noto: entendo as alegações sanitárias para cortar cabelo e barba. Mas todo mundo sabe que não se trata disso. O que se busca mesmo é o ritual de humilhação, de sujeição. Sejamos um tanto condescendentes então: faz sentido que, simbolicamente, a pessoa se entregue ao poder do estado. O cabelo seria essa evidência simbólica. Mas esperem: isso se dá num ambiente em que os presídios são dominados por facções criminosas. Ora…

E não! Não escrevo isso por causa de Eike Batista, porque é “preso rico”. Já escrevi quinhentas vezes e escrevo de novo: também os “pobres de tão pretos e pretos de tão pobres” devem ter respeitada a sua dignidade — a dignidade de preso, ora!

Essa exposição de cabeças raspadas de Eike, de Sérgio Cabral, de qualquer outro tem objetivo catártico. Busca satisfazer a sede de vingança — porque ainda não é justiça — do povaréu. “Aí, filho da mãe, agora tá careca, né?”

Sendo verdade o que ainda nem é uma denúncia, o lugar de Eike é a cadeia. E também o de Sérgio Cabral. Mas eu repudio a indisciplina do estado brasileiro. Se este tivesse o domínio do sistema penitenciário; se os presos fossem tratados com a dignidade que se deve dispensar a… presos — que é diferente da nossa! —, então tais simbolismos poderiam fazer algum sentido.

Do modo como são as coisas, raspar a cabeça de um preso vira, sim, uma espécie de ritual: é o seu batismo para integrar a facção que domina o presídio em que está sendo detido. Não vai acontecer com Eike, é claro. Mas acontece com os pobres de tão pretos e pretos de tão pobres.

Prisão especial Eike não tem curso universitário, situação em que o preso tem direito a prisão especial, conforme estabelece o Código de Processo Penal. A propósito: a Procuradoria-Geral da República recorreu a STF contra o dispositivo, alegando tratar-se de discriminação. A Advocacia-Geral da União defendeu a manutenção da distinção, o que foi endossado, e com acerto, pelo Supremo.

O ex-bilionário não concluiu o ensino superior na Alemanha. Sua defesa, no entanto, pede que lhe seja garantida cela apartada dos demais. Faz sentido?

Bem, ele foi transferido para Bangu 9, um presídio considerado relativamente calmo. Ainda assim, é evidente que tem de ser mantido apartado dos presos comuns. “Só porque ele é rico?” Não! Porque é evidente, é um elemento fático, que corre riscos adicionais sendo quem é, especialmente o de extorsão. E não há por que não temer por sua vida.

Ora, se o estado brasileiro decidiu prendê-lo, tem de garantir a sua segurança. E é isso o que digo sobre qualquer preso. De resto, esse mesmo estado diz que ele é útil à investigação, não? Sem segurança especial, seria um alvo múltiplo, inclusive de pessoas que eventualmente não querem que ele fale.

É difícil de entender? Pode ser. Até por isso precisa ser dito: o direito penal, numa democracia, consagra os valores dessa democracia. Seu objetivo, seu desiderato, é a justiça, não a vingança. O direito penal tem de servir à civilização, não à barbárie.

Fonte: VEJA.COM + O GLOBO

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