Ao contrário do que alguns desinformados afirmam, no Brasil a salvação está na lavoura

Publicado em 02/02/2017 09:29 e atualizado em 02/02/2017 18:56
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CAR (Cadastro Ambiental Rural) – hora dos fatos -- No Brasil a salvação do meio ambiente, da biodiversidade e da economia está na lavoura (em O Estado de S. Paulo)

A agricultura brasileira conta com um novo e poderoso instrumento de planejamento e análise: o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Seus dados revelam o papel decisivo da agropecuária na preservação ambiental e apontam tendências, até então desconhecidas, na ocupação das terras.

Criado pela Lei 12.651/2012, o CAR é um registro eletrônico, obrigatório para imóveis rurais. Até 31 de dezembro de 2016, mais de 3,92 milhões de imóveis, ocupando um total de 399.233.861 hectares, estavam inseridos no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar).

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) integrou ao seu Sistema de Inteligência Territorial Estratégica os dados geocodificados do CAR com o perímetro dos imóveis e os mapas das áreas exploradas, consolidadas, de preservação permanente, de reserva legal, de interesse social, de utilidade pública, etc. São 18 categorias de uso e ocupação das terras, geocodificadas em cada imóvel. E para cada categoria há, em geral, mais de um polígono ou mancha demarcada. São centenas de milhões de polígonos, com bancos de dados associados, trabalhados pela equipe do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Embrapa.

O Censo do IBGE de 2006 registrou 5.175.636 estabelecimentos agrícolas no Brasil. O conceito de imóvel rural do CAR e o de estabelecimento agrícola do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são bastante próximos. Até o final de 2016, um total de 2.923.689 imóveis rurais estava cadastrado no Sicar, 75,8% do esperado, tendo 2006 como base. As unidades ainda não cadastradas – 1.251.947 – estavam localizadas essencialmente no Nordeste.

No Censo de 2006 havia 3.454.060 estabelecimentos agrícolas no Nordeste, mais da metade dos agricultores do Brasil. Destes, apenas 836.169 estavam cadastrados no Sicar em 2016, algo como 34% do esperado. Como disse o ex-ministro Aldo Rebelo, no semiárido a maioria dos produtores nunca ouviu falar nem de CAR nem de internet.

No restante do Brasil, os imóveis rurais pulularam. No Norte, o número de imóveis cadastrados no CAR é 23,3% maior do que os detectados no Censo de 2006. O aumento também se verificou no Sul (14%), no Centro-Oeste (12,5%) e no Sudeste (8,1%).

O CAR não é um censo, mas é muito preciso para certas variáveis ao trabalhar com declarações expressas em mapas sobre imagens de satélite. A área dos imóveis no CAR, cerca de três quartos do total dos estabelecimentos agrícolas de 2006, já totalizou 399.233.862 hectares. A área apropriada pela agricultura teria crescido 65.553.825 hectares (19,6%) em dez anos.

O dado é paradoxal. De acordo com o IBGE, a área total da agricultura brasileira vinha declinando. Em 1985, era de 374.934.797 hectares; em 1995, 353.611.191 hectares; e em 2006, 333.680.037 hectares. Uma redução constante da área total da ordem de 12% ou a perda de 45 milhões de hectares entre 1985 e 2006. Os dados iniciais do CAR parecem negar essa tendência.

O maior aumento da área declarada com relação ao Censo de 2006 ocorreu no Norte: 133,6%! No Centro-Oeste, o crescimento foi de 13,8% e no Sudeste, de 5,9%. Até o Nordeste, tão pouco cadastrado no CAR (34%), já totaliza uma área de 55.788.137 hectares, ou 73% dos 76.074.411 hectares do Censo 2006! Única exceção: a redução de 7,3% na área declarada no Sul, apesar de um número de imóveis cadastrados 14% superior ao do Censo de 2006.

A área apropriada pela agricultura em dez anos passou de 38,7% para 47% do território nacional? Seria uma inversão na tendência declinante da área da agricultura? O tamanho médio dos imóveis teria passado de 64 hectares em 2006 para 102 em 2016? Não é o que parece. Ou, ao menos, as primeiras análises da Embrapa indicam outras realidades.

No Norte, a expansão seria em parte o reflexo de políticas de regularização fundiária e da tentativa de muitos de materializar uma posse precária de terras. Isso causa uma grande sobreposição de áreas. Em todo o País, outros fenômenos se conjugam: imprecisões na delimitação dos imóveis, sobreposições, diversos erros de registro e inconsistências na base de dados. Ainda assim, merecem aplausos os organizadores do CAR e os gestores do Sicar, por obterem o resultado de um extraordinário trabalho coordenado e coletivo junto a quase 4 milhões de produtores rurais.

Área apropriada não significa área explorada. O início do tratamento dos dados do CAR pela Embrapa apresenta fatos incontornáveis sobre o papel da agricultura na preservação de ecossistemas e biodiversidade. Boa parte dessas áreas agrícolas é ocupada por florestas, água e vegetação nativa.

Em São Paulo, de longa história agrícola, áreas de preservação permanente, reserva legal, vegetação excedente, ambientes lacustres e palustres, em 302.337 imóveis rurais já cadastrados, totalizam 3.808.519 hectares, 15,3% do Estado ou 22% da área rural.

Os produtores preservam 21,3% do bioma Cerrado no Estado e 12,4% da Mata Atlântica. A área total preservada pelos agricultores é maior do que todas as unidades de conservação e terras indígenas existentes em São Paulo.

]Em Mato Grosso, de agricultura mais recente, as áreas agrícolas preservam quase o dobro do existente em unidades de conservação e terras indígenas! E novas áreas serão ainda agregadas, pois restam imóveis por cadastrar.

A Embrapa divulgará novos resultados agregados do CAR para Estados, municípios e cadeias produtivas. E com análises e mapas detalhados das áreas preservadas e do custo decorrente para o produtor, sem contrapartida da sociedade. Eles revelarão, conforme dados iniciais indicam e ao contrário do que alguns des-in-formados afirmam, que no Brasil a salvação da biodiversidade, do meio ambiente e da economia está na lavoura.

Evaristo de Miranda é DOUTOR EM ECOLOGIA, É CHEFE GERAL DA EMBRAPA MONITORAMENTO POR SATÉLITE

 

Goiabada com ciência, tecnologia e inovação, por ROBERTO MACEDO

Empresário de Matão criou empresa exemplar no uso desses três recursos

Gosto muito de goiabada com queijo, mas optei por divulgar esta outra e ótima receita ao ler no último dia 22, neste jornal, excelente matéria da jornalista Márcia De Chiara sobre um empresário de Matão (SP), Antônio Carlos Tadiotti, que a reportagem chamou de gigante da goiabada. Merece o título, ou mesmo de rei, dado seu enorme sucesso na produção desse doce e de polpa da mesma fruta.

A empresa que Tadiotti criou impressiona por seu crescimento e pelo tamanho a que chegou. A primeira entrega de goiabada foi de 700 kg, em 1991. Hoje tem 1.200 empregados produzindo 700 toneladas (!) diárias – ou seja, mil vezes mais – do doce e de polpa da fruta. Com essa dimensão, o próprio empresário se declara o maior processador de goiaba do mundo.

Chamou-me particularmente a atenção ver essa evolução pautada por intenso recurso a ciência, tecnologia e inovação. Trata-se de caminho ainda insuficientemente mapeado pelas políticas públicas do País, e também pouco seguido por iniciativa própria de empresários. Salvo raras exceções, como a de Tadiotti, que por isso mesmo precisam ser difundidas como bons exemplos a seguir.

Ele chegou ao mercado externo 15 anos atrás e seus produtos são hoje vendidos para 57 países. E mais: é o maior fornecedor de polpa de goiaba para a empresa Coca-Cola, de alcance mundial, que também opera com sucos, com a marca Del Valle, entre outras.

E quem é o homem? Químico de formação, trabalhou vários anos em empresa de alimentos, entre eles, goiabada. Nessa condição, estagiou em fábricas europeias e aprendeu novas tecnologias. Antes de rumar para a indústria, foi pesquisador e docente universitário e fazia mestrado em medicina nuclear na USP. Ou seja, teve também formação e experiência em ciência e tecnologia, que utiliza como empresário, condição em que também passou a inovações. Destaque-se a desenvolvida com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara, ao criar sistema asséptico, semelhante ao do leite em caixinhas, que dispensa o congelamento da polpa, assim reduzindo custos e aumentando a durabilidade do produto.

Quando pedimos suco de fruta numa lanchonete ou num restaurante, muitas vezes é de polpa congelada, uma exceção usual sendo o de laranja, fruta de conservação relativamente fácil, muito demandada e de disponibilidade disseminada, o que não é o caso da goiaba. E é fácil de imaginar o alto custo de produzir e transportar toneladas de polpa congelada de frutas, nacional ou internacionalmente. A importância dessa inovação foi ressaltada pelo próprio Tadiotti. Disse ter sido com ela que ganhou o mercado mundial de polpa.

Outra inovação foi na produção da goiaba, em que seguiu o modelo da avicultura, no qual produtores de pequeno porte produzem aves para processamento em grandes empresas. Tadiotti estimulou pequenos produtores a cultivar goiaba para sua empresa – 260 estão integrados à sua cadeia produtiva. Chama isso de verticalização, porém entendo ser esse um termo mais aplicável quando uma empresa passa a produzir seus insumos. É mais uma forma de terceirização.

Mudas utilizadas foram desenvolvidas pela empresa, que orienta a produção irrigada para ser contínua, ou seja, o ano todo. De novo a Unesp, desta vez em Jaboticabal, demonstrou que com irrigação e podas escalonadas seria possível assegurar essa continuidade.

Noutra inovação, as mudas não vêm de sementes, mas por estaqueamento, num processo demonstrado mais produtivo em termos de polpa, também desenvolvido com a Unesp de Jaboticabal. Mais um processo inovador, também em parceria com essa universidade, foi o desenvolvimento de variedade de goiaba que requer menos produtos químicos no seu cultivo.

Voltando ao relacionamento da empresa com seus fornecedores da fruta, ele também demonstra não haver conflito entre a agricultura familiar e o agronegócio – conflito apontado por alguns críticos deste. Mas é importante que essa cooperação permaneça, a exemplo do que também ocorre na avicultura e noutros setores.

Lamentavelmente, tal parceria não teve o mesmo sucesso no caso da laranja, segundo duas matérias da mesma jornalista que vêm logo em seguida na conexão citada. Numa delas foi dito que uma das razões é que empresas processadoras do suco se tornaram verticalizadas no sentido que apontei, pois passaram a adquirir propriedades e produzir por si mesmas as laranjas que utilizam.

Autoridades voltadas para conter a concentração de poder econômico precisam estar atentas para evitar esse tipo de ocorrência. É uma verticalização que altera fortemente a cadeia produtiva, prejudica produtores com menor poder de barganha e aumenta a concentração de renda. Conforme uma dessas matérias adicionais, isso fez muitos produtores de laranja desistirem da atividade, levando a problemas para a sua sustentação econômica, bem como do setor, de cidades e de suas regiões. Alguns produtores de laranja passaram à goiaba, mas é um mercado de menor dimensão.

Em face de seus ótimos resultados, o empresário Tadiotti e sua empresa deveriam ser objeto de estudo de caso a ser usado por empreendedores, instituições de ensino e formuladores de políticas públicas. O objetivo seria estimular o uso de ciência, tecnologia e inovação por empresas, e com envolvimento permanente de pequenos produtores na cadeia produtiva. Nas universidades também serviria de exemplo para estimular a tão sonhada quanto ainda escassa colaboração com o setor produtivo.

Apesar de todo o seu trabalho, espero que o sr. Tadiotti volte ao magistério, ainda que ocasionalmente, para palestras de aprendizado e motivação, com o objetivo de levar outras cabeças e mãos à obra.

* ROBERTO MACEDO - Economista (UFMG, USP e Harvard), consultor econômico e de ensino superior

 

O Futuro dos Negócios (Metade das profissões atuais poderá ser automatizada em um futuro não muito distante), POR  Guy Perelmuter

A discussão sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho não é nova. Historicamente, o progresso e a inovação conseguiram elevar a qualidade de vida de várias camadas da população de forma significativa, e tipicamente apenas empregos que exigiam qualificação mais limitada eram afetados. A chegada daquilo que muitos estão chamando de Quarta Revolução Industrial intensificou a discussão a respeito do “desemprego tecnológico”: um conjunto amplo de novas tecnologias (robótica, inteligência artificial, impressão 3D, entre outras) atinge de forma simultânea um número significativo de indústrias e negócios.

De acordo com o Sustainability Journal, nos últimos duzentos anos a população mundial cresceu de menos de um bilhão para sete bilhões de habitantes, enquanto a porcentagem da população em áreas urbanas subiu de 3% para 49%. A mecanização e modernização da atividade agrícola deslocou uma parcela significativa da mão de obra do campo para as cidades – menos de um terço da mão de obra global está no campo, sendo que em países desenvolvidos esse percentual não chega a 5%. Conforme falamos semana passada, até hoje a inovação tem transferido empregos para outros setores – um processo chamado de “destruição criativa”. Essa mudança está ocorrendo novamente – mas com aspectos ainda mais complexos. A quantidade de trabalhadores necessários para manter (ou até aumentar) a produtividade industrial é cada vez menor – o Fórum Econômico Mundial de 2016, em Davos, previu que até 2020 o mundo terá um saldo negativo de cerca de cinco milhões de empregos.

Nos mais relevantes fóruns de discussão econômica, o tema passou novamente a figurar com destaque, especialmente com a redução de empregos nas linhas de montagem e o aumento de produtividade acompanhado por um aumento de desemprego. Muitos acham que a volta do populismo, o resultado obtido pelo referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia e a vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas podem ser em grande medida eventos atribuídos à forma como a classe média sente-se ameaçada em um mundo cada vez mais globalizado e conectado.

Em março de 2015, Georg Graetz e Guy Michaels publicaram, através do Centro de Pesquisas em Políticas Econômicas Europeu, um trabalho no qual foi analisado o impacto econômico dos robôs industriais em 17 países ao longo de 15 anos. Enquanto a produtividade e o crescimento dos países em questão aumentaram, as horas trabalhadas por seres humanos foram reduzidas.

Em 2013, Carl Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, publicaram um trabalho sobre o futuro do emprego, no qual analisaram a probabilidade de automação sobre 702 tipos de ocupação, aplicando os resultados sobre o mercado de trabalho norte-americano. Segundo eles, nada menos que 47% dos empregos encontram-se sob risco de automação - e quanto menor o salário pago e a educação necessária para desempenhar aquela tarefa, maior a probabilidade de ela ser substituída por mão de obra artificial.

Pense nisso: quase metade das atividades analisadas mostraram-se passíveis de serem automatizadas. Semana que vem iremos prosseguir no tema do impacto da tecnologia no emprego, abordando como até mesmo carreiras que exigem uma boa dose de formação acadêmica também já começam a ser significativamente ameaçadas pela automação, em função dos avanços em técnicas de inteligência artificial, análise de dados e processamento. Até lá.

*  Guy Perelmuter -- Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial  

Fonte: O Estado de S. Paulo

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