Palocci sinaliza delação e diz a Moro que pode apresentar "nomes e operações" de interesse da Lava Jato

Publicado em 20/04/2017 17:25 e atualizado em 22/04/2017 06:53
359 exibições
VEJA OS VIDEOS DOS DEPOIMENTOS DE PALOCCI E DE BRANISLAV KONTIC

LOGO REUTERS

BRASÍLIA (Reuters) - Em audiência perante o juiz federal Sérgio Moro, o ex-ministro Antonio Palocci sinalizou interesse de firmar um acordo de delação premiada e afirmou nesta quinta-feira estar à disposição para apresentar "imediatamente" fatos, nomes e operações "que vão certamente ser do interesse da Lava Jato".

“Fico à sua disposição hoje e em outros momentos, porque todos os nomes e situações que eu optei por não falar aqui, por sensibilidade da informação, estão à sua disposição o dia que o senhor quiser", disse Palocci a Moro, responsável pela operação Lava Jato em primeira instância, em audiência de processo a que responde por lavagem de dinheiro e corrupção.

"Se o senhor estiver com a agenda muito ocupada, a pessoa que o senhor determinar, eu imediatamente apresento todos esses fatos com nomes, endereços, operações realizadas e coisas que vão ser certamente do interesse da Lava Jato, que realiza uma investigação de importância", disse o ex-ministro dos governos Lula e Dilma.

"Acredito que posso dar um caminho, que talvez vá lhe dar mais um ano de trabalho, mas é um trabalho que faz bem ao Brasil", destacou Palocci.

O comentário foi feito no final do depoimento de duas horas em ação penal acusado de favorecer a empreiteira Odebrecht.

Durante a audiência, o ex-ministro negou ter atuado para beneficiar a empreiteira e também rejeitou ter feito qualquer repasse de recursos de forma ilícita para os marqueteiros João Santana e Mônica Moura, que atuaram nas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (2006) e de Dilma Rousseff (2010 e 2014). Ele foi ministro da Fazenda de Lula e da Casa Civil de Dilma.

Mesmo tendo negado irregularidades em campanhas, Palocci disse não ter "condições de dizer que nada existiu" em relação a caixa 2. "Não, todo mundo sabe que houve caixa 2 em todas as campanhas", disse, sem dar detalhes.

Palocci teceu elogios a Moro, a quem afirmou ser um juiz "extremamente rigoroso, mas justo". "Acho muito importante que a decisão seja feita em fatos justos", defendeu.

O ex-ministro foi preso em setembro, no curso de uma das fases da Lava Jato. Petistas temem que ele faça uma delação premiada e implique Lula, tido como a principal aposta do partido, numa eventual candidatura presidencial em 2018, para se reerguer politicamente após o impeachment de Dilma e todas as acusações de políticos da legenda na Lava Jato.

Palocci sofreu recentemente revezes no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que rejeitaram libertá-lo.

ASSISTAM AOS DEPOIMENTOS:

No ESTADÃO: Palocci diz a Moro que está disposto a revelar ‘nomes e operações do interesse da Lava Jato’

O ex-ministro Antonio Palocci (Governos Lula e Dilma/Fazenda e Casa Civil) pediu a palavra nesta quinta-feira, 20, durante seu interrogatório na Operação Lava Jato, para fazer uma oferta enigmática ao juiz Sérgio Moro. Ao fim do depoimento, o petista sugeriu entregar informações ‘que vão ser certamente do interesse da Lava Jato’.

“Fico à sua disposição hoje e em outros momentos, porque todos os nomes e situações que eu optei por não falar aqui, por sensibilidade da informação, estão à sua disposição o dia que o sr. quiser. Se o sr. estiver com a agenda muito ocupada, a pessoa que o sr. determinar, eu imediatamente apresento todos esses fatos com nomes, endereços, operações realizadas e coisas que vão ser certamente do interesse da Lava Jato.”

Palocci surpreendeu o magistrado ao derramar elogios à maior operação contra a corrupção já desfechada no País – por obra do próprio Moro -, e que levou para a cadeia ele próprio e outros quadros expressivos do PT. O ex-ministro, preso desde setembro de 2016, disse que a Lava Jato ‘realiza uma investigação de importância’.

Leia a notícia na íntegra no site do Estadão.

Possível delação é tratada como recado ou ‘pá de cal’ (por RICARDO GALHARDO)

A disposição do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci de se colocar à disposição da Operação Lava Jato para fornecer novos fatos e nomes provocou dois tipos de reação no PT.

Alguns dirigentes e líderes chegaram a usar expressões alarmistas como “hecatombe”, “bomba H”, “fim de tudo”, “pá de cal” para descrever uma possível delação premiada do ex-ministro. Eles lembraram que Palocci foi o principal interlocutor do partido com o grande capital desde que assumiu a coordenação do programa de governo da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em janeiro de 2002, e, mesmo fora do governo, continuou exercendo esse papel até bem pouco tempo atrás. Portanto, o ex-ministro tem o mapa do dinheiro que passou pelo partido e nomes de aliados e expoentes do governo desde que o PT assumiu o Planalto, em 2003.

Outro grupo interpretou a disposição do ex-ministro como um recado implícito aos setores empresarial e financeiro. Esses petistas acreditam que uma possível delação de Palocci poderia, sim, afetar de maneira negativa o ex-presidente Lula reforçando indícios já conhecidos e preenchendo lacunas que possam levar a uma condenação do petista, mas avaliam que, pela forma como o ex-ministro se expressou, fazendo menção a “um caminho” específico, o alvo da mensagem não é o PT.

Um petista graúdo lembrou que um pedido de habeas corpus de Palocci foi negado recentemente pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, agora, vai ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal, uma Corte, na opinião dele, mais suscetível a pressões externas de grupos poderosos, como o setor bancário, com o qual o ex-ministro tinha fortes laços. O dirigente cita como exemplo para uma possível decisão favorável a Palocci o caso da ex-primeira-dama do Rio Adriana Ancelmo, que ganhou direito à prisão domiciliar dias após notícias de que delataria membros do Judiciário.

Lula, segundo aliados, demonstrou mais preocupação com o depoimento de Léo Pinheiro, da OAS, mas pessoas em seu entorno ficaram irritadas com Palocci.

Palocci sinaliza a Moro intenção de virar delator, POR JOSIAS DE SOUZA (UOL)

Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, o ex-ministro petista Antonio Palocci sinalizou claramente a intenção de se tornar um colaborador da Lava Jato. Ao final de uma inquirição que durou cerca de duas horas, Palocci colocou-se à disposição para revelar “coisas que vão ser, certamente, do interesse da Lava Jato, que realiza uma investigação de importância.” Acrescentou: “Acredito que posso dar um caminho, talvez, que vai lhe dar mais um ano de trabalho, mas é um trabalho que faz bem ao Brasil.”

Palocci foi ministro da Fazenda de Lula e chefiou a Casa Civil sob Dilma Rousseff. Aparece nas planilhas do departamento de propinas da Odebrecht sob o codinome “Italiano”. Foi a primeira vez que manifestou em público a intenção de colaborar com a Justiça. “Encerro aqui e fico à sua disposição”, disse a Moro, “hoje e em outros momentos, porque todos os nomes e situações que eu optei por não falar aqui, por sensibilidade da informação, estão à sua disposição no dia que o senhor quiser.” Ofertou ''nomes, endereços e operações.'' 

Delatado por executivos da Odebrecht como operador de caixa dois eleitoral e intermediário de supostas propinas repassadas a Lula, Palocci negou durante o depoimento que tenha solicitado verbas por baixo da mesa. Negou também o oferecimento de vantagens à construtora em troca de propinas. 

Entretanto, até as negativas de Palocci soaram escorregadias. O ex-ministro falou como se preparasse o terreno para esclarecimentos futuros. Que ele fará se lhe forem oferecidas recompensas processuais que atenuem o seu castigo. Repare no video abaixo como Palocci admite que o caixa dois pulula nas campanhas como pulga no dorso de cachorro vira-lata.

BenettPapaFolha.jpg

– Charge do Benett, via Folha.

"Fala, Palocci!", por ELIANE CANTANHÊDE

A defesa, o sítio e o triplex de Lula desabam e o foco se desloca para Palocci

Léo Pinheiro é a pá de cal na defesa do ex-presidente Lula, mas a bola da vez é o seu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que conseguiu a proeza de despencar não de um, mas de dois governos diferentes, e continuou aprontando das suas com uma desenvoltura tão surpreendente quanto seu inalterável ar de bom moço, até cair nas garras da Lava Jato e ser considerado hoje o futuro delator com potencial mais explosivo.

Em suas delações ao juiz Sérgio Moro e aos procuradores, Marcelo Odebrecht contou que era ele, Palocci, quem administrava a conta “Amigo” na empreiteira, um cheque em branco que abastecia as vontades e luxos da família Lula da Silva. E, no relato dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura, os acertos de valores, prazos e formas de pagamento para, primeiro, salvar a imagem do presidente Lula e, depois, os votos do candidato Lula, após o mensalão, foram feitos diretamente no gabinete da Fazenda.

Palocci, aliás, foi preso em setembro do ano passado sob a suspeita de ter favorecido a Odebrecht numa medida provisória sobre benefícios fiscais, numa licitação da Petrobrás para compra de navios-sonda, num financiamento do BNDES para obras da empreiteira em Angola e na doação de um terreno para o Instituto Lula.

Em sendo assim, Palocci tinha múltiplas personalidades: era ministro da Fazenda e ditava a política econômica, mas ao mesmo tempo lobista da Odebrecht, operador financeiro do PT e gerente da conta de Lula naquele banco da empreiteira chamado de Setor de Operações Estruturadas. Era três em um, ou melhor, quatro, cinco ou seis em um.

Palocci começou cedo. Basta olhar para as fotos dele cercado por seus assessores na prefeitura de Ribeirão Preto para perceber que havia algo errado. Bonachão, com seu ar e seus óculos de aluno estudioso, era cercado por figuras que acabaram encalacradas na justiça.

Mas Palocci pousou em Brasília com os ventos alvissareiros da primeira eleição de Lula. O médico que assumia a Fazenda. O ex-prefeito com aura de competência. O hábil que driblou vários concorrentes e ficou lado a lado do presidente. O pragmático que jogou no lixo as teses econômicas do PT e virou o queridinho do mercado – e da mídia.

A primeira surpresa de quem não conhecia as histórias de Palocci em Ribeirão foi saber de uma casa alugada no bairro mais nobre de Brasília, onde eram dadas festas de arromba e havia um estranho trânsito de malas de dinheiro. E ele não teve o menor prurido em usar seus poderes para quebrar o sigilo do caseiro que contara detalhes sobre a casa subitamente famosa.

Palocci desabou da Fazenda de Lula, mas ressurgiu igualmente poderoso na campanha de Dilma Rousseff em 2010 e dali para a Casa Civil. E desabou de novo, por não explicar a compra de um apartamento de R$ 7 milhões, que era dele, mas não era dele, cheio de mistérios. Não se sabe se ele aprendeu com Lula, ou se Lula aprendeu com ele...

É assim, com essa trajetória tão atribulada, sua relevância no centro do poder e agora seu desconforto em sete meses de prisão, que Palocci se torna a bola da vez. Ainda há muito o que contar sobre Lula e os governos petistas, mas o grande terreno a ser desbravado não é do lado corrupto, mas do lado corruptor. O que se sabe do sistema financeiro na Lava Jato?

Em seu depoimento desta quinta-feira, 20, a Sérgio Moro, o ex-ministro foi de uma gentileza que raiou a sabujice ao se oferecer como delator: “Se o sr. estiver com a agenda muito ocupada, a pessoa que o sr. determinar, eu imediatamente apresento todos esses fatos, com nomes e endereços, para um ano de trabalho”. Os investigadores esfregam as mãos, os investigados entram em pânico.

Com Lula à beira do abismo, Palocci se apresenta para o papel de sabonete, por JOSIAS DE SOUZA (UOL)

Lula, Dilma e o PT afirmam que não praticaram nenhum crime. O que há é um complô de investigadores mal intencionados, mancomunados com juízes parciais, uma imprensa golpista e quase oito dezenas de delatores vagabundos que não hesitam em inventar mentiras. Pois bem. Surgiu uma novidade nesse enredo: Antonio Palocci, petista de quatro costados, sinalizou a Sergio Moro o desejo de delatar.

Até aqui, o petismo só foi delatado por terceiros. Enquanto Lula e Dilma fazem barulho em liberdade, petistas como José Dirceu e João Vaccari guardam obsequioso silêncio atrás das grades. Preso e cercado pelos investigadores, Palocci parece não dispor da mesma capacidade de resistência. Ofereceu a Sérgio Moro “nomes, endereços e operações”. Coisa suficiente para ocupar a Lava Jato por mais um ano. Se forem incluídos no lance os empresários que o adularam o poder petista nos últimos 13 anos, vai faltar mão-de-obra à investigação.

A situação é mais ou menos a seguinte: Lula, Dilma e o PT estão na beira do abismo. E Palocci se oferece à Lava Jato para fazer o papel de sabonete. Se contar tudo o que sabe, ficará difícil para os companheiros equilibrar-se na borda do precipício sem escorregar nas revelações de Palocci, ex-ministro de Lula e Dilma. Para essa dupla, desqualificar o neo-delator seria como cuspir no reflexo do espelho.

Fonte: Reuters + ESTADÃO + FOLHA/UOL

Nenhum comentário