Lula bate-boca e Moro encerra abruptamente o depoimento (NA VEJA)

Publicado em 13/09/2017 07:49 e atualizado em 14/09/2017 14:56
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No interrogatório do ex-presidente, nesta quarta, 13, que durou cerca de duas horas, o petista se calou ante às indagações do juiz Sergio Moro (por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Julia Affonso, de O Estado de S. Paulo)
depoimento de duas horas de Lula ao juiz Sergio Moro terminou em discussão entre os dois. Lula acusou o magistrado de agir com parcialidade, e de ser refém da imprensa nacional.

“Não posso deixar de dizer que esses processos contra mim virassem vocês reféns da imprensa”, disparou Lula em suas considerações finais.

O advogado de Lula, Cristiano Zanin, diz que Moro, inclusive, cita reportagens jornalísticas.

“Vou chegar em casa amanhã almoçar com 8 netos e uma bisneta de 6 meses. Posso olhar na cara dos meus filhos e dizer que vim a Curitiba prestar depoimento a um juiz imparcial?”, diz Lula.

Moro responde irritado.

“Não cabe ao senhor perguntar isso a mim. Mas de todo modo sim”, disse.

“Não foi o procedimento na outra ação”, rebateu Lula.

“Eu não vou discutir a outra ação com o senhor. A minha convicção é que o senhor foi culpado. Se fossemos discutir aqui, não seria bom para o senhor”, disse Moro.

Lula então, diz que tem que discutir sim. “Vou esperar que a justiça continue a fazer justiça nesse país”.

Moro interrompe, e encerra a gravação.

Depoimento de Lula a Moro

Frente a Moro, Lula não responde a várias perguntas (no ESTADÃO)

O ex-presidente Lula não respondeu a todas as perguntas durante audiência nesta quarta-feira, 13, frente a frente com o juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato. O petista foi interrogado em ação penal sobre supostas propinas da Odebrecht.

A audiência de Lula durou mais de duas horas. O primeiro a questionar o ex-presidente foi Moro. Em seguida, vieram o Ministério Público Federal e as perguntas da defesa.

Após o interrogatório do ex-presidente, Moro passou a ouvir Branislav Kontic, ex-assessor do ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda e Casa Civil/;Governos Lula e Dilma).

Lula é réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro sobre contratos entre a empreiteira e a Petrobrás. Segundo o Ministério Público Federal os repasses ilícitos da Odebrecht chegaram a R$ 75 milhões em oito contratos com a estatal. O montante, segundo a força-tarefa da Lava Jato, inclui um terreno de R$ 12,5 milhões para Instituto Lula e cobertura vizinha à residência de Lula em São Bernardo do Campo de R$ 504 mil.

Na semana passada, Palocci rompeu o silêncio, fez um relato devastador e entregou o ex-presidente, a quem atribuiu envolvimento com o que chamou de ‘pacto de sangue’ com a empreiteira Odebrecht que previa repasse de R$ 300 milhões para o governo petista e para Lula.

Além do ex-presidente e de Branislav Kontic, ex-assessor de Palocci, também respondem ao processo o próprio ex-ministro, o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula – que será interrogado na quarta-feira, 20 -, o empreiteiro Marcelo Odebrecht e outros três investigados.

Lula já foi condenado na Lava Jato. Em julho, Sérgio Moro aplicou uma pena de 9 anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro ao petista no caso tríplex.

Há ainda, sob a tutela da Lava Jato no Paraná uma terceira ação penal. O ex-presidente é acusado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em obras do sítio de Atibaia, no interior de São Paulo. Este processo poderá colocar Lula e Moro frente a frente pela terceira vez na Lava Jato.

Assim como Lula, o Super-Moro voltou a Curitiba

Lula confessa que visitou imóvel-propina da Odebrecht

Lula admitiu ao juiz Sérgio Moro que visitou o imóvel da rua Haberbeck Brandão, em São Paulo, adquirido pela Odebrecht.

O edifício seria parte do “pacote de propinas” do “pacto de sangue” firmado com Emílio, segundo Antônio Palocci.

O ex-presidente disse que foi ao local, “em junho ou julho”, acompanhado de Marisa Letícia, Clara Ant e Paulo Okamotto. Mas achou o prédio “inadequado”.

“Fomos então ao Kassab para pedir para  ele mandar um projeto de lei, o Kassab mandou e nos deram um terreno na Cracolândia, mas o MP entrou com recurso para impedir a obra.”

Lula acusa a PF

Lula deu a entender que a PF plantou em sua casa documentos relativos ao prédio do Instituto Lula:

“Não sou obrigado a acreditar que encontraram na minha casa”.

Um discurso patético

Lula terminou seu depoimento com um discurso patético, em que acusou a Lava Jato de ser “refém da imprensa” e de procurar delatores dispostos a criminalizá-lo.

Sergio Moro cortou o lenga-lenga depois de alguns minutos.

Lula disse a Sérgio Moro que não se lembra de Glaucos da Costamarques, primo de José Carlos Bumlai, que comprou o duplex vizinho ao do ex-presidente em São Bernardo do Campo.

Glaucos citou ao menos três oportunidades em que esteve com Lula.

Ele também disse que não sabia da participação de Ricardo Teixeira na compra do imóvel pelo primo de Bumlai.

Lula: Marisa administrava a casa

Lula disse a Sérgio Moro que não participou do contrato de aluguel do duplex vizinho ao seu, assim como não acompanhava questões domésticas.

Ele disse que fez uma conta conjunta com Marisa para que ela pudesse resolver os problemas de casa. “Aluguel, condomínio, IPTU, era tudo ela que fazia.”

Lula disse que se surpreendeu quando soube que o aluguel não era pago a Glaucos Costamarques. Ele disse os comprovantes devem estar numa “arca” em sua casa.

Lula: “Estamos vendo o que está acontecendo com Janot”

Ao ser questionado por Sérgio Moro sobre a inexistência de comprovantes do pagamento de aluguel do duplex, Lula se irritou e voltou a atacar o Ministério Público.

“O Ministério Público é muito engraçado. Graças a Deus, estamos vendo o que está acontecendo com Janot, com Miller e a força tarefa da Lava Jato está tratando de destruir o Ministério Público com inverdades (…) com a ideia de transformar o Lula no Powerpoint deles.”

Lula: ‘Coincidência não é comigo’

Lula se esquivou de explicar a “coincidência” de Glaucos da Costamarques estar envolvido no caso do Instituto Lula e na compra do triplex no Guarujá.

“O sr. ex-presidente tem como explicar a coincidência de Glaucos da Costamarques ter intermediado a compra do imóvel da rua Doutor Haberbeck Brandão [para a construção da sede do Instituto Lula] e também ter comprado o apartamento 121 [o triplex]?”, perguntou a representante do Ministério Público.

“Eu não tenho, querida. Coincidência não é comigo”, respondeu Lula.

Lula, irritado, aproveitou para atacar Delcídio do Amaral. “É um mentiroso descarado, que foi solto num pacto entre Miller e a Globo.”

ASSISTA À ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE LULA

Clique no vídeo abaixo para assistir à playlist com a íntegra do depoimento que Lula deu hoje ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba 

Lula, no depoimento a Sergio Moro, chamou Antonio Palocci de “calculista, frio e simulador”, segundo a Folha de S. Paulo.

Foram exatamente essas qualidades que levaram Lula a escolher Palocci como seu operador.

Lula negou o pacote de propinas da Odebrecht e disse que só se encontrava com Palocci “de oito em oito meses”.

Vamos ver em quanto tempo ele será desmentido.

O insuspeito Palocci, por Felipe Moura Brasil

A defesa de Michel Temer, inicialmente, pediu afastamento de Rodrigo Janot.

A defesa de Aécio Neves pediu afastamento de Edson Fachin.

A defesa de Lula pediu afastamento de Sérgio Moro.

A defesa de Aldemir Bendine imitou a defesa de Lula.

Cada investigado – peemedebista, tucano ou petista – atribui a seus denunciadores ou julgadores um caráter persecutório.

Desde a semana passada, no entanto, quando o "pacto de sangue" de Lula com a Odebrecht foi revelado em depoimento a Moro, ficaram as perguntas:

– Quem vai pedir a “suspeição” de Antonio Palocci?

– Quem vai alegar que ele não é “o competente” para dar testemunho?

– Quem vai acusá-lo de decisão “monocrática”?

O ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil é "companheiro há 30 anos" de Lula, como o próprio Lula havia afirmado no Twitter.

O máximo que se pode argumentar contra Palocci, no padrão dos pedidos de afastamento feitos por investigados, é que ele “extrapola a normal conduta de um membro” do PT, pois rompe a omertà – o silêncio mafioso mantido na cadeia por petistas históricos como José Dirceu e João Vaccari Neto.

Mas isto só potencializa a força inédita de seu depoimento, que levou as linhas auxiliares do PT a começarem a pular do barco de Lula e avaliarem o lançamento de candidaturas próprias para 2018.

Se “um é pouco, dois é bom, três é demais”, para a esquerda “um” foi Marcelo Odebrecht, “dois” foi Feira (João Santana e Mônica Moura), “três” foi Palocci.

Até Ciro Gomes, que defendeu Lula da condução coercitiva, da divulgação da conversa com Dilma sobre o “termo de posse” e da condenação no caso do triplex, teve de admitir que o depoimento “fere o centro da narrativa de Lula e do PT, de que há um inimigo externo ao PT promovendo, via judicial, uma perseguição injusta contra o presidente. Na medida em que um braço direito de Lula faz isso, fica difícil sustentar a narrativa” – até então ecoada por Ciro.

Tão difícil que o PT reduziu de 100 mil (no primeiro interrogatório de Moro com Lula) para 2.500 (no segundo) a previsão de militantes nas ruas de Curitiba, com o objetivo evidente de evitar uma nova impressão geral de fiasco. 

Claro que não conseguiu.

A bomba do insuspeito Palocci explodiu Lula e despedaçou a esquerda nacional.

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Fonte: O Antagonista/ESTADÃO

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