Considerações sobre a pesquisa Datafolha: ..."o disco não era exatamente igual"

Publicado em 16/04/2018 08:41 e atualizado em 17/04/2018 02:05
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Por Bernardo Santoro, publicado pelo Instituto Liberal

Agora de tarde fui ler com calma a pesquisa Datafolha, para fazer minhas pontuações de sempre.

A primeira coisa que devo dizer é que, por não ter ainda tido acesso à pesquisa completa, incluindo as segmentações por gênero, idade e regiões, essa será uma análise superficial.

Essa análise fica também prejudicada pela falta de referibilidade em relação à pesquisa anterior. Isto porque, como eu sempre digo, as pesquisas nunca devem ser comparadas entre um instituto e outro, mas sempre entre pesquisas do mesmo instituto, por uma questão de metodologia.

No entanto, mesmo nesse caso vamos ter problemas, pois o Datafolha não apresentou em janeiro um disco EXATAMENTE IGUAL aos discos apresentados ao eleitor nesta pesquisa. Sempre havia um nome diferente em todos os cenários.

Isto posto, algumas observações:

1 – Já é óbvio o bastante que Lula não será candidato em 2018. Portanto, os cenários em que ele aparece como candidato serve apenas para medir, no máximo, um eventual poder de transferência do candidato.

1.1 – A performance levemente superior de Haddad sobre Jacques Wagner, junto ao fato de que o primeiro não possui a quantidade de escândalos que o segundo tem, nos dá uma relativa certeza de que Haddad é o candidato petista.

1.2 – A transferência de votos de Lula se deu para Marina e Ciro em níveis muito modestos. A população lulista está realmente aguardando saber quem será o legítimo defensor de Lula em 2018.

1.3 – Manuela D’Ávila fez um esforço incomum nas últimas semanas para capitanear a defesa de Lula e ser a sucessora natural de votos do lulismo. Ela ter empatado com Haddad sem que este tenha começado a fazer campanha é sinal de que Manuela está inviabilizada nesse campo.

1.4 – Mais uma pesquisa gera em mim a sensação de que o PT está perdendo tempo insistindo na candidatura Lula ao invés de rodar a máquina e a militância petista em favor de Haddad. Se mantiverem essa postura, quando começarem a rodar a máquina poderá ser tarde demais.

2 – Uma leitura superficial mostra que o principal herdeiro dos votos de Huck, testado em janeiro, foi Joaquim Barbosa, que representa esse eleitorado de centro-esquerda em busca de um outsider.

3 – Bolsonaro, na pesquisa Datafolha, demonstra estar atingindo um teto, mas, em virtude da grande quantidade de candidatos, esse teto pode ser alto o suficiente para levá-lo ao segundo turno.

4 – Ao contrário de outras análises que vi ao longo do dia, não vejo Marina em boa posição. Uma candidata com recall de 100%, por ter participado de duas candidaturas majoritárias, está em um teto excessivamente baixo nesse momento. É uma candidata pronta para ser esvaziada.

5 – Ciro continua sem conseguir se desenvolver como candidato, e sua aposta nesse momento é acreditar na manutenção do erro estratégico do PT de não lançar com vigor a candidatura de Haddad, na esperança que o ex-prefeito paulista acabe inviabilizado por inércia.

6 – Também por inércia se mostram esvaziadas e sem discurso definido as candidaturas de Paulo Rabello de Castro (PSC) e o recém-lançado Afif Domingues (PSD). A falta de engajamento de ambos no debate político inviabiliza análise sobre a viabilidade de um dos dois tomarem para si o campo do centro / centro-direita.

7 – Alvaro Dias e Alckmin continuam com os mesmos percentuais, que na pesquisa anterior estavam fundamentalmente alicerçados em seus estados políticos (PR e SP), respectivamente. Embora não tenha visto o pdf completo da nova pesquisa, posso supor que a regionalização de ambos continua. Dias tem apresentado contínuo e louvável esforço no sentido de nacionalizar seu discurso dentro de um campo de centro-esquerda democrático, mas até o momento ainda sem resultado aferível em pesquisa. Alckmin nem mesmo esse esforço faz. A sensação que tenho é que Alckmin está menos interessado em fazer campanha e mais em ter a máquina tucana na mão. Não duvido que Dias, em breve, murche a candidatura Alckmin, ao ver seu discurso tucano melhor encaixado.

8 – Falando em esforço de nacionalização do discurso, é grande a decepção com a performance de dois candidatos de centro-direita com forte máquina digital em nível nacional: João Amoedo e Flávio Rocha. Continuam sem conseguir fidelizar a centro-direita não-bolsonarista carente de uma candidatura viável.

9 – E falando em inviabilidade, os candidatos de centro governista continuam patinando em níveis patéticos. Temer, Maia e Meirelles não conseguem se vender sequer para os tais 5% de brasileiros que apoiam o Governo Temer. Um governo impopular com este já teria dificuldades em emplacar uma candidatura situacionista. Dividindo-se em três pré-candidatos, a máquina fica confusa e dispersa, não conseguindo trabalhar. Na prática, o Governo está caindo na mesma armadilha que o PT.

10 – Guilherme Boulos continua se mostrando um não-candidato.

Até a próxima! (Por Bernardo Santoro, publicado pelo Instituto Liberal).

Sem Lula na disputa, brancos e nulos ganham de qualquer um no 1º turno (análise da GAZETA DO POVO)

Na ausência do petista Luiz Inácio Lula da Silva na disputa presidencial, os votos brancos e nulos reinam absolutos. É o que mostra a pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (15) e que ouviu 4.194 eleitores entre quarta e sexta-feira, após a prisão do petista. Mesmo na cadeia, Lula continua vitorioso tanto no primeiro como no segundo turno. 

Mas, e sem ele, como fica? Nas seis simulações de primeiro turno sem Lula no páreo, os brancos e nulos lideram, com índices que variam entre 23% e 24%. E lideram fora da margem de erro. Com certa folga. Com Lula disputando, os eleitores que responderam votar em branco ou anularem seus votos aparecem em terceiro lugar, com 13% e 14%. Sem o petista, dão esse salto de 10 pontos porcentuais e chegam até os 24%.

Um detalhe curioso: sem Lula, o número de eleitores que não sabem em quem votar não altera. Fica ali entre 2% a 4%. O levantamento permite concluir, ao menos nesse momento, que sem Lula parte de seu eleitorado não quer saber de nenhum outro. 

Nas simulações de primeiro turno, os brancos e nulos deixam para trás Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Joaquim Barbosa (PSB) e Ciro Gomes (PDT). Esses eleitores que até agora não optaram por ninguém somam mais votos que qualquer combinação de seis candidatos juntos que não estão entre os quatro primeiro, como Geraldo Alckmin (PSDB), Rodrigo Maia (DEM), Henrique Meirelles (MDB), Fernando Haddad (PT), Alvaro Dias (Podemos), Manuela D´Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL), Flávio Rocha (PRB), Fernando Collor de Mello (PTC) e Jaques Wagner (PT). 

Se o segundo turno - onde se opta por um entre apenas dois candidatos - fosse hoje, os brancos e nulos só perderiam em cinco das doze simulações feitas pelo Datafolha. Nesses cinco eles perderiam para Lula e Marina. Nas outras disputas, os brancos e nulos empatam tecnicamente com quem está na frente, como por exemplo Jair Bolsonaro (32%) e Alckmin (33%). Os brancos e nulos nessa receberam 32%. Ou seja, uma disputa muito embolada.

Sem tempo de tevê, Bolsonaro e Marina devem perder força

Cientista político Jairo Pimentel afirma que a tendência é que a eleição presidencial se concentre em duas fortes candidaturas, uma à esquerda e outra à direita

As candidaturas do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e da ex-ministra Marina Silva (Rede) à presidência da República nessas eleições, que lideram pesquisa de intenção de voto Datafolha em cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tendem a perder força durante a campanha, pois não vão ter tempo de televisão para se defender dos ataques que vão sofrer das candidaturas com mais tempo de televisão e mais estrutura partidária.

A avaliação é do cientista político Jairo Pimentel, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp), em entrevista à Agência Estado, após a divulgação de pesquisa feita pelo instituto Datafolha. “Todos aqueles que saem na frente nas pesquisas e têm menos tempo de tevê, vão sofrer ataques de adversários diretos na luta por uma vaga no segundo turno”, afirmou.

Para Pimentel, apesar do alto número de nomes que se apresentam como pré-candidatos, a tendência é que a eleição se concentre mais uma vez entre duas fortes candidaturas, uma mais à esquerda e outra mais à direita, que devem se enfrentar no segundo turno.

“O Brasil continua polarizado. A ausência de Lula não anula isso. A opinião pública busca simplificar o quadro eleitoral e a mente humana funciona de maneira mais dual. Sem Lula, os polos vão se organizar, em uma candidatura que represente os mais pobres e outra que represente os mais ricos. Continuará havendo a divisão entre ‘vermelhos’ e ‘azuis’. A questão é saber quem vai encabeçar esses grupos”, disse.

Nesse sentido, o candidato que mais tem chance de atrair o voto da esquerda é o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), acredita o cientista político, dada a capacidade limitada que Lula terá de transferir votos para outro candidato do PT, como o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ou o ex-governador da Bahia Jaques Wagner. “Deve haver uma migração do voto dos mais pobres ao Ciro Gomes, principalmente nas regiões Norte e Nordeste”, espera.

Centro-direita

Na direita, o cenário é mais incerto, afirma Pimentel, em razão do alto número de nomes que se apresentam nesse campo, como Bolsonaro, na extrema-direita, e, na centro-direita, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o presidente Michel Temer e o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, estes dois últimos do MDB. “Se não houver uma diminuição da fragmentação na direita, a tendência é que Bolsonaro vá ao segundo turno. Mas, se a centro-direita se unir em torno de uma candidatura, essa candidatura deve ir ao segundo turno”, afirmou. 

De qualquer forma, a pesquisa de intenção de voto divulgada pelo Datafolha sinaliza que Bolsonaro parece ter chegado a um teto, uma vez que ele não se beneficiou do enfraquecimento de Lula. “Se Bolsonaro representa o oposto de Lula, na queda de Lula ele deveria se sobressair, mas não foi o que aconteceu”, disse o cientista político. “Parece que ele não aproveitou bem esse momento da prisão de Lula”.

Os cenários feitos para o segundo turno também reforçam essa percepção. Bolsonaro perde para Lula e Marina e empata com Ciro e Alckmin. Só ganha de Haddad ou Wagner. “Como o Bolsonaro é um candidato de um nicho específico, a extrema-direita, ele tem dificuldade para alcançar o eleitor de centro, ele acaba não conseguindo o voto do eleitor mediano”, afirmou. 

Ainda de acordo com Pimentel, os eleitores mais alinhados com o “campo azul” podem apostar no voto útil, à medida em que a data do primeiro turno se aproximar. “As pessoas podem perceber que a candidatura de Bolsonaro está mais desidratada e, com isso, migrar para um candidato que tenha mais chance de derrotar a esquerda no segundo turno”, explicou. 

Sobre a capacidade de Lula de transferir votos para outro candidato do PT, o cientista político afirma que isto vai depender da condição jurídica do ex-presidente. “Uma coisa é o Lula livre, fazendo passeata, subindo no palanque, debatendo temas contemporâneos. A candidatura ganha força. Outra coisa é ele preso, apenas gravando vídeos e com pouca cobertura da mídia. Há uma perda de força. Hoje a capacidade dele é média”.

Evolução dos candidatos na pesquisa Datafolha

Intenção de voto para presidente, desde 2016

Primeira pesquisa presidencial após a prisão de Lula.

Fonte: Datafolha. 

Evolução dos candidatos na pesquisa Datafolha

Intenção de voto para presidente, desde 2016

Made with Flourish

Pesquisa em abril de 2018

Primeira pesquisa presidencial após a prisão de Lula.

Fonte: Datafolha. 

Fonte: Gazeta do Povo

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