Depois da Argentina, escalada do dólar estressa África do Sul, Turquia, Chile e, claro, Brasil

Publicado em 16/05/2018 02:26
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WASHINGTON- A contínua apreciação do dólar e o temor de desaceleração na China provocaram turbulência em mercados emergentes, que se manifestaram em quedas nas Bolsas de Valores e depreciação do câmbio. A cotação da moeda americana foi impulsionada pela alta dos rendimentos dos títulos de 10 anos do Tesouro dos EUA, que alcançaram o maior patamar desde 2011.

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O dólar registrou nesta terça-feira, 15, uma alta de 1,96% em relação ao rand sul-africano. Em relação à lira turca, o aumento foi de 1,81%. O dólar também avançou 1,29% no Chile e 0,99% no Brasil, onde fechou em R$ 3,66. A Argentina foi o único emergente a registrar ganho no câmbio.

Depois de se desvalorizar ao longo de 2017 e início de 2018, o dólar ganhou força a partir de março, o que aumentou o valor, em moeda local, das dívidas contraídas pelos setores público e privado dos mercados emergentes. A rápida valorização pode ter um efeito desestabilizador, dada a relevância do câmbio para grande parte desses países.

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Retornos mais elevados dos títulos do Tesouro dos EUA também aumentam o estresse sobre os emergentes, já que funcionam como um fator de atração de capital, ao elevar o retorno sobre o que é considerado o investimento mais seguro do planeta. Nesta terça-feira, 15, o rendimento desses papéis chegou a 3,09%, superando a barreira psicológica de 3% que dispara alarmes nos mercados.

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David Beckworth, especialista em política monetária do Centro Mercatus da George Mason University, ressaltou que estrangeiros detêm US$ 10 trilhões em dívidas denominadas em dólar, que ficam mais caras em moeda local cada vez que o câmbio se deprecia. “A Argentina, por exemplo, precisa de mais pesos para pagar sua dívida em dólar. Esses países não podem imprimir dólares. Eles precisarão ganhar dólares por meio do comércio.”

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Em sua avaliação, a tendência de apreciação da moeda americana continuará no curto prazo. “Os dados sobre atividade econômica nos EUA estão relativamente mais fortes do que o de outras regiões. Além disso, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano)continuará a subir os juros. Os dois fatores contribuem para um dólar mais forte”, observou Beckworth, que espera mais três altas dos juros nos EUA até o fim do ano.

Desequilíbrio. Mohamed El-Erian, conselheiro econômico chefe da Allianz, também acredita que a apreciação se manterá, alimentada pela política monetária mais apertada e o crescimento mais forte dos EUA em relação a outro países. “Alguns veem a apreciação do dólar como consistente com um rebalanceamento de longo prazo da economia global. Mas, como a situação da Argentina demonstra, a acentuada e súbita apreciação de uma moeda sistemicamente tão importante pode desequilibrar as coisas em outros lugares”, escreveu, em artigo publicado pelo Project Syndicate.

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Dados da economia chinesa também ajudaram a azedar o humor dos mercados. Os investimentos registraram o menor ritmo de expansão desde 1999, enquanto vendas no varejo ficaram no menor patamar em quatro meses. Patrick Chovanec, diretor-gerente doSilvercrest Asset Management Group, disse que a desaceleração chinesa é inevitável, depois da expansão do crédito no ano passado. A injeção de recursos manteve a atividade em alta durante a realização do Congresso do Partido Comunista que renovou o mandato do presidente Xi Jinping.

Argentina negocia pacote ‘clássico’ com Fundo Monetário Internacional

“O maior problema na China é que eles parecem ter abandonado a ideia de mudar de maneira fundamental o modelo econômico e torná-lo menos dependente de investimento excessivo. Parece que eles vão continuar a dirigir até cair no abismo”, afirmou Chovanec, que não se arriscou a prever por quanto tempo o atual modelo poderá se sustentar.

O temor de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo é outro fator que continua a assombrar os mercados, já afetados por incertezas geopolíticas, como a saída dos EUA do acordo nuclear com o Irã. Resultados econômicos na Europa também decepcionaram investidores. Alemanha, Holanda e Portugal cresceram menos que o previsto, o que levantou dúvidas sobre a expansão da região.

Ainda assim, Chovanec acredita que o nervosismo é provocado mais por expectativas do que por dados econômicos concretos. Entre os sinais positivos, ele mencionou: “A mudança no sentimento (dos investidores) foi maior que a mudança real dos números.”

Ser credor em dólar faz país ganhar tempo para solucionar problema fiscal (FOLHA)

Quadro político, no entanto, não colabora para a solução do desequilíbrio nas contas públicas (por alexandre schwartsman)

Por que o dólar subiu tanto? Fácil: porque passei dez dias no exterior (Portugal, participei de prova de ciclismo no Douro, incrível, obrigado por perguntar) e sempre que viajo para fora o dólar dá um jeito de subir, pelo menos até que pague a fatura do cartão do crédito...

Entendo, porém, que nem todo o mundo compartilhe minha opinião. Nesse caso, o melhor é olhar o que está acontecendo globalmente com o dólar, que tem se valorizado diante das demais moedas mundiais, embora, é claro, não na mesma proporção. Um euro, por exemplo, comprava cerca de US$ 1,24 há cerca de um mês; hoje, compra menos do que US$ 1,20.

Parte do fortalecimento da moeda americana se deve às tensões geopolíticas. O dólar costuma ser visto como um porto seguro para aplicações, mesmo quando os Estados Unidos estão no centro da turbulência, seja ela política, como hoje, seja econômica, como, por exemplo, durante a crise financeira no final de 2008.

Outra parte da história se deve à percepção de que a inflação americana, ainda que permaneça em patamares relativamente baixos, finalmente começou a se mover.

Assim, o IPC, deduzidos alimentos e combustíveis, ultrapassou a marca de 2% nos últimos 12 meses pela primeira vez desde fevereiro do ano passado. A medida favorita do Federal Reserve, o deflator do consumo (também livre de alimentos e combustíveis), segue um pouco abaixo disso (1,9% nos 12 meses até março), mas a tendência de elevação é também visível.

Obviamente não se trata de aceleração descontrolada, longe disso, mas tais números se traduzem em probabilidades mais elevadas de aumentos da taxa de juros americana além do que era esperado no começo do ano. Assim, a taxa de juros de dez anos do Tesouro americano, que embute as perspectivas de alterações das taxas de juros mais curtas, veio de 2,5% anuais para 3,0% ao ano do começo de 2018 para cá.

Aos poucos, portanto, as condições financeiras vão finalmente se normalizando, dez anos depois da crise de 2008. Isso significa que a enorme liquidez mundial que caracterizou esse período deve declinar gradualmente, processo liderado pela economia cuja recuperação foi mais longe, os Estados Unidos, o que, naturalmente, implica dólar mais forte.

A reação de cada moeda, contudo, não deve ser, a princípio, a mesma, muito embora o impulso original o seja. Características específicas de cada país, como a extensão do seu desequilíbrio externo (portanto, a necessidade de recorrer a capitais internacionais) ou problemas fiscais, modulam a resposta das moedas à mudança internacional.

Assim, moedas de países com elevados desequilíbrios externos, como a lira turca, sofreram forte desvalorização.

Já no caso do Brasil o problema é, como de praxe, fiscal. A dívida governamental já ultrapassou 75% do PIB (Produto Interno Bruto), e o déficit operacional recorrente do setor público permanece na casa de 5% do PIB.

Mais relevante, porém, do que os números é a noção de que o quadro político não colabora para a solução dos desequilíbrios nas contas públicas. Pelo contrário, o que se vê é o predomínio da hostilidade ao processo reformista e, portanto, a desvalorização da moeda.

Prevalece, apesar disso, o fato de o país ser credor em moeda estrangeira, fenômeno que limita a realimentação da fraqueza do real para os balanços dos setores público e privado. Isso não soluciona a questão fiscal, mas ganha tempo para o país decidir se irá (ou não) tomar o rumo correto.

A eleição e a economia (EDITORIAL DA FOLHA)

Rombo orçamentário e pleito imprevisível acentuam temores que podem dificultar a recuperação do país

Nem sempre a alta do dólar e outros movimentos dos mercados podem ser atribuídos com precisão a este ou aquele motivo, em particular do campo político. Em ano eleitoral, contudo, tais associações se tornam quase inevitáveis.

É fato que a moeda americana se valoriza em grande parte do mundo, devido à perspectiva de crescimento econômico e de alta de juros nos EUA. Essa tendência se manifesta de modos variáveis entre os países, a depender das fragilidades e incertezas locais.

Na Argentina, mais dependente de capital estrangeiro, os efeitos se mostraram dramáticos. No Brasil, ainda que em grau menor, também se observa nervosismo dos investidores —e as dúvidas suscitadas pelo pleito presidencial são explicações recorrentes.

Já se cogita que tais inquietações tenham consequências além da mera especulação financeira. Na sexta-feira (11), um documento do Fundo Monetário Internacional afirmou que um risco-chave para a recuperação da economia do país é a possibilidade de mudança da agenda reformista após a eleição.

Para Henrique Meirelles (MDB), ex-ministro da Fazenda e presidenciável de chances até aqui obscuras, os efeitos negativos já se dão agora: temores relacionados à disputa pelo Planalto estariam inibindo os investimentos privados e desacelerando a retomada.

Desconte-se o óbvio viés dessa tese, ao mesmo tempo desculpa conveniente para os resultados decepcionantes deste ano e ensaio de discurso de campanha. É inegável, de todo modo, que existem motivos de sobra para angústias.

Estes não se limitam à imprevisibilidade da eleição e aos diferentes defeitos dos principais postulantes.

A fragmentação inédita do quadro partidário nacional prenuncia um cenário inóspito para o próximo governo —ainda mais porque parece improvável que o presidente vá assumir o posto embalado por uma votação consagradora.

À sua espera haverá o enorme rombo orçamentário a exigir decisões imediatas. Levar adiante ou não o teto do gasto federal e a reforma da Previdência, definir a política para o salário mínimo: todas as opções implicam custos elevados.

Não surpreende, pois, que os pré-candidatos mais importantes tratem de cercar-se de economistas de boa reputação ou, ao menos, de mostrar disposição, real ou imaginária, para ajustes e negociações.

Quem pretende herdar um país governável precisa administrar as expectativas —dos mercados, de eleitores, da política— desde já.

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"A última coisa que queremos agora é importar um ataque especulativo da Argentina sendo mais prudente interromper agora o ciclo de corte da Selic"

*Marcelo Kfoury Muinhos

Durante os 11 anos em que fui economista-chefe do Citi, o momento mais crítico com o qual me deparava era a véspera da reunião do Copom, quando tínhamos que dar o vaticínio sobre a decisão dos membros da autoridade monetária. No caso, o importante era acertar o que eles iriam fazer, não necessariamente minha opinião sobre o que deveria ser feito. Uma das vantagens de minha nova posição é que agora posso reafirmar o que deveria ser feito e não preciso adivinhar a decisão. Portanto, essa semana aparentemente ocorrerá mais uma divergência entre o que ocorrerá e o que deveria ocorrer. Pois o mercado precifica 60% de chance de novo corte, mas se eu estivesse lá recomendaria pelo fim do ciclo.

Há duas razões primordiais para o Copom continuar o processo de flexibilização da taxa de juros:

• A inflação e as projeções de inflação estão muito bem-comportadas. Desde julho do ano passado, a inflação acumulada em doze meses está abaixo de 3% (nos doze meses encerrados em março totalizou 2,76%). Sendo assim, o Focus continua seguidamente reduzindo as expectativas de 2018. As próprias projeções que o Banco Central deve divulgar na ata tanto para esse ano como para o próximo devem estar ao redor de 4%. Obviamente uma das razões para a inflação estar tão baixa é a própria recuperação ter perdido tração, o que significa no dialeto macroeconômico, que a economia está com hiato aberto, e então o crescimento econômico não pressiona a inflação no curto e médio prazo;
• O próprio Copom, seguindo uma política de antecipar os próprios movimentos (“forward guidance”) avisou o mercado que iria cortar na reunião de maio e só pararia o ciclo em junho. Claramente, o Copom tinha a intenção de interromper o ciclo quando os juros estavam em 6,75%, mas foi desautorizado pelos dados, tendo que continuar cortando mais 25bps, alegando que os cortes nos juros eram para que a inflação subisse. Em março, as projeções de inflação estavam ficando recorrentemente abaixo do centro da meta. O mercado está agora majoritariamente esperando outro corte no dia 16 de maio, porque o BCB assim sinalizou.

Porém houve uma mudança significava do contexto internacional com o fim da bonança internacional em relação aos emergentes, que deve ser analisada cuidadosamente. Desde meados de abril, a economia internacional mudou, havendo uma re-precificação dos juros nos Estados Unidos. Aqui enfatizo a elevação dos juros de 10 anos, que estavam em 2,45% a.a no início do ano e agora estão ao redor de 3% a.a. Mesmo a curva de dois anos alcançou, pela primeira vez em dez anos, o patamar de 2,5% a.a, impulsionada, entre outras coisas, pela subida do preço do petróleo. As moedas dos principais países emergentes (Rússia, Turquia, Polônia, África do Sul) se enfraqueceram em linha e os riscos medidos pelos CDS subiram em cerca de 20%.

Alguém poderia salientar, se é um fenômeno mundial, que o BCB só deveria mudar o curso da política monetária no caso de uma desvalorização que contaminasse as projeções de inflação. Porém, a minha argumentação é que houve uma mudança de cenário. A própria autoridade monetária tem argumentado recorrentemente que um dos riscos seria o fim da situação internacional favorável aos mercados emergentes. Segundo a última ata do Copom, redigida no fim de março, a frustração com a descontinuidade das reformas fiscais pode ser agravada com a mudança na situação internacional:
“Esse risco se intensifica no caso de (iii) reversão do corrente cenário externo favorável para economias emergentes.”

A situação atual está me lembrando o que vivemos em 2002, quando na véspera de uma eleição bastante imprevisível no Brasil houve o contágio da crise argentina com o final do plano de convertibilidade. É óbvio que as situações são diferentes sobre muitos ângulos, mas com certeza, o mercado está testando o peso argentino, que já se desvalorizou do início do ano até o dia 14/05 cerca de 20% contra o dólar. A última coisa que queremos agora é importar um ataque especulativo da Argentina. Além disso, seria mais pragmático não cortar os juros, num momento em que o Banco Central está vendendo dólares nos mercados futuros, através de operações conhecidas como swaps.

Resumindo, se aplicarmos ao pé da letra o manual de metas para inflação, o BCB seria recomendado a continuar o ciclo de corte, pois a projeção de inflação de 2018 ainda está confortavelmente abaixo da meta e ligeiramente em 2019, mas dado o que tem acontecido no mercado internacional, não vejo ganho adicional em cortar mais 25bps a Selic.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP

Fonte: ESTADÃO/FOLHA

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