A grande indignação (por CELSO MING, no ESTADÃO)

Publicado em 11/10/2018 09:57 e atualizado em 14/10/2018 20:01
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o alcance da comunicação instantânea mudou tudo. A grande imprensa e as campanhas político-eleitorais terão que se reinventar

A indignação das classes médias brasileiras escrachada agora pelas urnas vem sendo vista como parte do mesmo fenômeno manifestado em outros países. Mas tem lá suas peculiaridades.

Nos Estados Unidos, as classes médias indignadas elegeram Donald Trump e aparentemente gostam do que ele faz na Casa Branca. Na Itália, apareceram antes, com Silvio Berlusconi, e agora atuam sob outro comando do ministro do Interior, Matteo Salvini. Na Alemanha, puxam nova oposição de radicais de direita contra a chanceler Angela Merkel. Na França, apoiam a ultradireitista Marine Le Pen. Mas também vicejam na Áustria, na Hungria, na Polônia e na Turquia.

Quatro movimentos históricos alimentaram e parecem unificar essa indignação. O primeiro deles é a enxurrada de produtos industrializados baratos da China e do resto da Ásia que esvaziaram a indústria e o emprego no Ocidente, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. O segundo é a cada vez mais intensa utilização de tecnologia da informação no setor produtivo, que dispensa cada vez mais mão de obra, destrói empregos e semeia insegurança. O terceiro fator que tira o chão das classes médias e espalha ressentimento é a crescente incapacidade dos Estados de garantir o mínimo de benefícios sociais (aposentadoria, seguro-desemprego, saúde fundamental, educação para todos e segurança). E, quarto fator, em parte impulsionado pelos anteriores, é o aumento da migração de pobres e refugiados para os países mais ricos, o que aumenta a sensação de que mais gente está inviabilizando a vida de quem tanto luta para mantê-la. 

A insatisfação dos remediados não é novidade. Sempre esteve aí, às vezes mais explícita e outras, latente, porque essa gente sempre teve tolhida sua aspiração de ascensão social e de acesso à renda. A sociedade alimenta sonhos cuja realização não consegue entregar e isso frustra e revolta. No passado, muito dessa revolta foi resolvida por meio de guerras ou, simplesmente, por alguma distribuição de pão e de jogos de circo, recursos que perderam eficácia.

Essa percepção de fracasso e de prostração teve até recentemente poder limitado de produzir mudanças políticas. O que mudou foi o alcance da comunicação instantânea, graças à internet, às redes sociais, ao celular e ao WhatsApp, que produziram enorme capacidade de mobilização.

Os próprios intelectuais não davam importância aos movimentos das classes médias. Os marxistas, por exemplo, viam a chamada pequena burguesia como mero instrumento das classes dominantes e seus movimentos (ou a falta deles), como manobras de dominação exercida na luta de classes. Não viam as classes médias como categoria social relevante. São conceitos que agora estão à espera de revisão, até mesmo no que tinham de correto.

A indignação das classes médias brasileiras apareceu mais intensamente nas manifestações de 2013, até agora não atendidas. Também tiveram como fatores detonadores a recessão, o desemprego crescente, a falta de perspectivas profissionais, a insegurança provocada pelas políticas econômicas desastradas do período Dilma. Mas, diferentemente do que aconteceu com outros movimentos de indignação ao redor do mundo, também se avolumaram em consequência do brutal e instantâneo conhecimento da existência de uma vasta rede de corrupção, revelada sucessivamente pelas denúncias dos anões do Congresso, do mensalão, do petrolão e das atividades ilícitas ligadas a grandes empreiteiras.

Como lidar e, sobretudo, como consertar tudo isso é que são elas. As esquerdas do PT estão perplexas e desesperadas. Não sabem nem o que fazer com seu discurso. Bradaram que o impeachment foi golpe, mas atiraram-se aos conchavos com os golpistas.

Pretenderam ser “uma ideia”, mas não conseguem sequer reconhecer que pilharam o patrimônio público e afundaram a economia. Basearam sua estratégia na palavra de ordem “Lula livre”, mas agora o escondem e o tiram até mesmo do material de propaganda. Sugerem nos acréscimos do tempo de jogo a concertação para uma união nacional, mas parecem não perceber que foram eles que produziram o Bolsonaro e toda a rejeição a eles. 

Bolsonaro e HaddadBolsonaro e Haddad na disputa Foto: Wilton Júnior e Tiago Queiroz / Estadão

Bolsonaro, por sua vez, apresenta pouquíssimas credenciais. Nunca chegou a administrar nem sequer um condomínio residencial. Ele se confessa ignorante em matéria de política econômica, saúde pública, em educação. Quando avisa que vai enfrentar tudo a bala e quando humilha as minorias, tende a provocar ainda mais violência e mais desconsideração. 

Dizer que no fim vai dar tudo certo é pretender saídas mágicas do buraco em que se meteu o Brasil.

O jornalismo analógico e o fenômeno político digital, por Antonio Fernando Pinheiro Pedro

Nos estertores finais da campanha eleitoral de 2018,  ocorre uma evidente constatação: 

O aparato de comunicação analógico, amestrado pelo establishment, sucumbiu ao fenômeno político digital.
Foi um doloroso choque de realidade para  o chamado cartel da grande imprensa,  senhor de um mercado hoje condenado a desaparecer. 

Também foi o fim do marketing político tradicional centrado nessa mesma mídia. 

Fiéis serviçais do status quo, organismos da grande mídia usaram os melhores recursos técnicos e humanos para conferir credibilidade à cobertura do processo eleitoral. O aparato de rádio-televisão também hospeda o horário eleitoral gratuito, até então tido e havido como o ápice das campanhas organizadas pelos grandes partidos patrocinados pelo establishment.

No entanto, esses gigantes foram fragorosamente superados em audiência, cobertura e credibilidade,  pela ágil, difusa, pulverizada, barata e organicamente articulada mobilização digital da cidadania. 

O establishment

O aparato de comunicação da grande imprensa é mantido, patrocinado e suportado economicamente pelo establishment - como é chamado o conjunto de próceres e mantenedores do mecanismo de poder  existente no Brasil.

Detentor intelectual dos meios de comunicação com o público, e de forma cartelizada, o aparato de comunicação manteve-se "acima" dos candidatos e suas propostas, "decidindo" o que era "bom" ou "ruim" para seus usuários. 

Esse comportamento arrogante foi adotado pelo cartel no início do processo eleitoral de 2018, para a presidência, os parlamentos da união, chefia executiva e parlamentos dos estados. 

Amestrados pelo establishment, os jornalistas da grande imprensa apostaram na manutenção do status quo, na permanência das velhas lideranças e na superação dos outsiders.  

Deram como certa a vitória da  política de alianças dos partidos que monopolizaram o tempo de rádio e televisão, destinados á propaganda eleitoral.  

Os analistas políticos desse aparato e a estrutura tradicional de propaganda política, também acreditavam na "desidratação" do "candidato da direita", face á campanha de desconstrução e às denúncias,  veiculadas por eles próprios, pelo aparato analógico de comunicação.

Nutriam  também a ilusão que não haveria governabilidade possível sem alinhamento com uma base parlamentar, esta obviamente oriunda dos partidos de sempre. 

Pois bem, foi esse sistema de comunicação, analógico e viciado, que sucumbiu, dizimado pela mobilização digital, difusa e livremente articulada, ocorrida na campanha eleitoral de 2018.

O ocaso do jornalismo analógico

A mídia amestrada pelo establishment sempre constituiu uma formidável máquina de guerra. No entanto, nas eleições de 2018, a máquina revelou-se obsoleta. 

O aparato midiático,  composto pelas  redes de mídia impressa e radio-televisiva, esta última sedimentada por um regime de concessões, é mantido há tempos pela massa de propaganda estatal e o marketing dos grandes grupos financeiros. 

No período eleitoral, esse aparato ganha reforço dos institutos de pesquisa. A dança de números contratada suporta ajustes e aproximações, não para informar a tendência do eleitorado mas, sim, para induzi-lo a corresponder à vontade do establishment.

A massa de informações é filtrada por editorias e analisada por jornalistas formadores de opinião. Então, será despejada sobre dezenas de milhões de telespectadores, centenas de milhares de radio-ouvintes e dezenas de milhares de leitores, diariamente.

No entanto, ainda que suportado por broadcasting, o sistema da grande mídia nacional permanece analógico. Mantém uma produção editorial manufaturada - quase artesanal, que pressupõe fidelização da assistência - expandida aritmeticamente. 

O que produz, demanda conversão para os meios digitais. 

O sistema, é fato, alcança o celular do cidadão. Porém, requer dele uma assinatura... 

A mobilização digital

Não foi uma "invasão" de território, e tão pouco houve disputa por audiência - pois mídias e mensagens em absoluto se assemelharam. 

Envolto pela soberba, o establishment não atentou, não analisou, não previu e não percebeu o enraizamento e o reflorescer do fenômeno das gigantescas manifestações de 2013. 

A indignação em estado puro de 2013, serviu de base para alavancar a "raiva" motivadora da radicalização nas eleições de 2018.  

O choque tecnológico ficou evidenciado pela mobilização virtual. Essa mobilização foi concretizada nas ruas inúmeras vezes. 

O segredo dessa mobilização virtual é sua aparente invisibilidade. Ela se dá pelas infovias das redes sociais (facebook, twitter), pela internet (websites, notificações de rede e e-mails), e pelas modernas mídias digitais de troca de mensagens (whatsapp e telegram), produzidas, percebidas e recebidas nos tablets, telefones celulares e laptops dos milhões de usuários. 

Ou seja, independente dos candidatos, partidos e bandeiras de mobilização social de cada candidatura, a campanha digital avança virtualmente sem  aparente liderança, de forma livre, transferindo informações, postagens, lives, memes, impressões ao sabor da disponibilidade, empatia, receptividade e humor do usuário, transmissor-receptor, bastando um toque na telinha do celular.   

Para as organizações postadas á esquerda do establishment, o choque produzido pela mobilização digital foi ainda mais desmoralizante.

Os chamados "movimentos sociais organizados"  tornaram-se, simplesmente, obsoletos. A capacidade de mobilização e emprego pelo proselitismo nas ruas não se compara á leveza e dinâmica do fenômeno de articulação digital, desprovida de custos físicos e estrutura formal. 

O fenômeno político digital, por outro lado, ampliou ainda mais a assimetria que caracteriza os chamados "conflitos de quarta geração". 

Criou uma espécie de movimento de massas orientado, porém organicamente desorganizado.  

Esse fenômeno gera profundo impacto na própria segurança pública, pois a tradicional Inteligência de Estado não encontra forma de monitorar sem comprimir a liberdade de expressão e invadir a intimidade do cidadão. Um risco efetivo para o Estado de Direito. 

No campo da judicialização, a assimetria torna as ações da jusburocracia algo próximo do ridículo. 

De fato, em um mundo onde  o número de dispositivos digitais interconectados já suplantou o número de habitantes do planeta,  a censura judicial a  jornais de papel e canais de televisão concessionados, o "direito de resposta" e a repressão à manipulação de fatos (da mesma forma que a manipulação dos fatos pela grande mídia) tornou-se outra piada.

Mas não é o cidadão que perde e, sim, o establishment. No fenômeno digital, por mais que se pretenda distorcer, a informação flui entre os usuários sem que haja controle - e a própria  manipulação, cedo ou tarde se revela.

A mobilização digital produzida por usuários interconectados em redes sociais e plataformas de comunicação para celulares é, ainda  turbinada, sem qualquer filtro, seja diretamente pelos usuários, seja, também, pelos ditos influenciadores digitais e seus seguidores. Trata-se de uma mobilização não segmentada. Pelo contrário, integrada e em conexão permanente, impactando centenas de milhões de
indivíduos todo o tempo.

A obsolescência política do establishment

Vídeos, mensagens, memes e "lives" (verdadeiros comícios virtuais), tomaram toda a atenção das centenas de milhões de cidadãos  que passam cada vez mais tempo conectados ao telefone celular e menos tempo dedicando atenção à TV, ao rádio e ao jornal impresso. 

Foi dessa forma que eventos antes tidos como decisivos para uma campanha eleitoral - como o comício partidário ou o debate televisivo, tornaram-se não só obsoletos, como também desinteressantes.

Não houve, portanto,  qualquer surpresa nas eleições de 2018. 

Produziu-se, simplesmente, o conhecido impacto da revolução digital no atrasado ambiente político brasileiro.  

Também tratou-se de mais um capítulo na evolução dos conflitos assimétricos envolvendo interesses difusos, ativismos de toda ordem, neopopulismos e a notória crise do sistema representativo no Estado Democrático Moderno.

Parece grego... mas não é. Basta ver a assimetria  de meios materiais disponíveis para candidatos como Alckmin (PSDB), Meirelles (MDB) e Haddad (PT), donos de campanhas milionárias, e o resultado pífio alcançado por eles face á destreza da campanha digital e barata, promovida por Jair Bolsonaro.

Até mesmo o folclórico Cabo Daciolo, com sua campanha de memes - ao custo de mil reais, superou o sisudo Meirelles em número de votos, tendo este despendido oitenta mil vezes aquela quantia, na mesma eleição.

As bancadas renovadas no parlamento nacional reproduziram a mesma assimetria. Candidatos "youtubers", difundidos pelos meios digitais, a baixo custo e alta criatividade, para um público difuso e infinitamente numeroso, demoliram lideranças tradicionais, baseadas no clientelismo e na extração de votos conquistados pelo contato físico em redutos eleitorais definidos. 

A campanha digital só não foi eficaz nos rincões interioranos e franjas miseráveis das regiões pouco desenvolvidas, mantidas auxiliadas por programas governamentais de transferência de renda e suporte no abastecimento de itens de primeira necessidade. Nessas áreas, a estrutura analógica do establishment constitui ainda o meio e a mensagem. 

Eu não disse?

A terrível frase que sempre atrai o ódio visceral dos que a ouvem, atesta a confirmação de vaticínios ou advertências  óbvias para eventos funestos. 

No entanto, já havia mesmo alertado para o fenômeno, por escrito e em vídeo, ainda em 2013, quando da explosão das manifestações dos idos de junho. 

O ciberespaço,  integrado pela internet das coisas, pelas redes sociais, pela comunicação digitalizada,  compreende a comunicação entre os bilhões de seres humanos e também dos próprios dispositivos  interconectados a outros dispositivos. Ele vive permanentemente em tráfego - não respeita feriado, horário e situação geográfica. 

Bolsonaro captou o fenômeno e identificou nele a melhor forma de replicar e impulsionar a onda de descontentamento contra todo o establishment. Fe-lo com maestria, mesmo fora das ruas, devido à convalescença do ferimento sofrido no atentado contra sua vida.

Deveremos, após a campanha digital, testemunhar a construção de um governo digital, que aproximará ainda mais os cidadãos interconectados gerando nova forma de comunicação do Estado com seus usuários e a sociedade que politicamente o organizou. 

Quanto à comunicação deverá sofrer nova onda organizacional, sem prescindir dos jornalistas -  cidadãos ocupados em usar, e fazer outros usarem, constantemente, o intelecto, em função da causa da justiça, da liberdade e da verdade.

Já o aparato do establishment - este terá que se reinventar, bem como as campanhas e estruturas de comunicação da política neste século. 

Fonte: Estadão/The Eagle View

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