Trump: se não for possível nenhum acordo comercial com China, "eu sou um homem tarifa"

Publicado em 04/12/2018 14:43 e atualizado em 04/12/2018 23:09
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WASHINGTON (Reuters) - O presidente dos EUA, Donald Trump, disse nesta terça-feira que se um acordo comercial com a China for possível, ele será feito, mas que se ambos os lados não resolverem as disputas, ele recorrerá a tarifas.

Trump disse que sua equipe de assessores comerciais sob o comando do negociador-chefe com a China, o representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, determinará se um "real acordo" com a China é possível.

"Se for, faremos ele", disse Trump no Twitter. "Mas se não for, lembre-se, eu sou um homem tarifa."

O presidente republicano disse que não se oporia a uma prorrogação da trégua de 90 dias que ele e o presidente chinês, Xi Jinping, concordaram no fim de semana e que congelará tarifas enquanto um acordo mais amplo é negociado.

"As negociações com a China já começaram. A menos que sejam prorrogadas, elas terminarão 90 dias a partir da data de nosso maravilhoso e caloroso jantar com o presidente Xi na Argentina", disse Trump no Twitter.

Os dois líderes concordaram no fim de semana a um cessar fogo na guerra comercial que, através de tarifas, levou à interrupção de um fluxo de centenas de bilhões de dólares em bens entre as duas maiores economias do mundo.

Trump e Xi disseram que vão segurar a imposição de novas tarifas por 90 dias a partir de 1º de dezembro, enquanto buscam uma solução para a disputa comercial.

O líder dos EUA disse que a China deve começar a comprar produtos agrícolas imediatamente e cortar suas tarifas de 40 por cento sobre importações de carros dos EUA.

O assessor econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, disse nesta terça-feira que uma redução nas tarifas chinesas sobre carros e commodities agrícolas e energéticas dos EUA será um "teste decisivo" para ver se as negociações comerciais EUA-China estão no caminho do sucesso.

Os EUA também esperam que a China tome ação imediata para tratar de roubo de propriedade intelectual e transferências forçadas de tecnologia, afirmaram autoridades dos EUA.

"De novo, isso será um acordo real de novo e não que possamos alcançar tudo em 90 dias, mas esperamos ter muito progresso e o presidente Trump estará diretamente envolvido", disse o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, à Fox Business Network nesta terça-feira.

Há muito tempo Trump acusa a China de práticas comerciais injustas que prejudicam norte-americanos e a economia dos EUA.

"Quando pessoas ou países entram para roubar a grande riqueza da nossa nação, eu quero que elas paguem pelo privilégio de fazer isso. Sempre será o melhor jeito de maximizar nosso poder econômico", disse ele nesta terça-feira.

A indicação do representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, para comandar as negociações em vez do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, coloca no comando um dos mais críticos à China dentro do governo. Trump disse pelo Twitter que Lighthizer trabalhará junto de Mnuchin, Kudlow e do assessor comercial Peter Navarro.

Nos EUA, analistas ainda veem um ambiente de incertezas (ESTADÃO)

WASHINGTON - A trégua comercial anunciada entre China e Estados Unidos no final de semana, após encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, ainda é vista com cautela por analistas. A avaliação é de que o cenário segue com incertezas sobre os detalhes do que cada um dos lados estará disposto a ceder dentro de três meses. O prazo de 90 dias é o estabelecido entre os dois líderes como período para negociar um acordo. Nesse meio tempo, a imposição recíproca de tarifas foi adiada, após meses de escalada na tensão entre as duas maiores economias mundiais.

“Há histórias diferentes saindo do encontro no G-20”, afirmou Jeffrey Prescott, ex-assessor do governo americano e ex-conselheiro da vice-presidência em assuntos sobre Ásia. Segundo ele, não é estranho que cada um dos lados coloque luz no que é mais vantajoso ao seu país, mas os comunicados dos EUA e da China levantam muitas dúvidas. “Nenhum relatório sugere que tivemos um avanço concreto nas questões estruturais, não é claro o que mudou no final de semana”, afirmou Prescott, em evento da think tank Atlantic Council, em Washington. Trump usa tarifas para pressionar a China em questões estruturais como transferência de tecnologia e cibersegurança.

Em encontro entre os líderes dos dois países na Argentina, os Estados Unidos concordaram em não elevar mais tarifas sobre produtos chineses em 1º de janeiro enquanto a China concordou em comprar mais produtos agrícolas dos EUA. Trump usou o Twitter para comentar a reunião com Xi Jinping. Segundo ele, a China concordou em reduzir e remover tarifas hoje de 40% sobre automóveis – o que não está descrito nos comunicados oficiais da reunião.

A Casa Branca informou que se não houver um acordo entre os dois países no prazo de 90 dias as tarifas de 10% sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses subirão para 25%. Trump afirmou que o encontro foi “extraordinário” e que a relação entre os dois países deu um grande salto. “Coisas muito boas irão acontecer”, escreveu Trump.

O assessor econômico de Trump, Larry Kudlow, disse nesta segunda-feira a jornalistas que a China “está concordando em abordar” questões estruturais – como as relacionadas a tecnologia. Ele também confirmou que a questão de remoção das tarifas de veículos aconteceria imediatamente.

Telefone sem fio

“Por mais que essa trégua seja dada, não fica claro o que cada lado vai ceder para se chegar a um acordo. Há o lado americano falando que a China vai aceitar conversar sobre cibersegurança, já a China deixa isso em aberto e fala em reconhecimento dos EUA em tratar ‘uma única China’ – enquanto os EUA não comentaram nada sobre isso. Ainda está um jogo de telefone sem fio, mas é positivo quando os dois lados estão dispostos a chegar a uma solução a isso”, afirmou Thiago de Aragão, diretor da consultoria Arko Advice.

De acordo com Jeffrey Prescott, a incerteza tem sido parte do jogo do governo Trump. “Começar um fogo e depois apagá-lo é algo que vimos em outras áreas nesse governo”, afirmou. Segundo ele, os Estados Unidos pressionam a China por mudanças estruturais que, ainda que sejam acordadas, levarão tempo para serem implementadas e gerarem efeito. O analista, que assessorou a vice-presidência até 2015, afirma que Trump entrará em um período de pressão com a eleição de 2020 à vista e precisará decidir se politicamente usará Pequim como um inimigo ou como parte de um grande acordo comercial.

Trump também usou o Twitter para mandar recado aos produtores agrícolas do país, afetados diretamente pela guerra comercial com os chineses após a queda no preço de grãos, como a soja. “Agricultores serão beneficiados muito e rapidamente com nosso acordo com a China. Eles pretendem começar a comprar produtos agrícolas imediatamente. Nós fazemos o produto mais limpo do mundo e é isso que a China quer. Agricultores, eu amo vocês”, escreveu Trump. Com a imposição de tarifas pela China ao produto americano, produtores de soja passaram a estocar o grão esperando o alívio na tensão comercial. Além do problema econômico, a comunidade rural dos EUA é importante apoiadora de Trump politicamente.

A trégua pode afetar as exportações brasileiras. “Se a China aumentar a importação de soja americana e outros produtos agrícolas, naturalmente vão deixar de comprar do Brasil e outros países. É possível que a resolução desse problema gere impacto negativo nas exportações brasileiras”, afirmou Aragão.

Fonte: Reuters

1 comentário

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    A guerra comercial entre as duas maiores economias mundiais, nos mostram um dado cujo valor é monetário. São bilhões de dólares pra cá, ou pra lá. Mas essa "troca" de riquezas acontece com todos os países do mundo e, não se vê tantas "guerras comerciais".
    Porque as duas potencias chegaram ao impasse?
    Nas entrelinhas do artigo, existe um parágrafo que mostra a verdadeira causa do impasse: ... "Os EUA também esperam que a China tome ação imediata para tratar de roubo de propriedade intelectual e das transferências forçadas de tecnologia, afirmaram autoridades dos EUA".
    Veja que a propriedade intelectual e, transferências "forçadas" de tecnologia, não são práticas comuns no mercado mundial de bens e serviços entre os países.
    Os chineses exigem, que qualquer empresa estrangeira que vá se instalar em seu território, que firme uma sociedade com uma empresa da China, seja privada ou estatal. Aí, está a prática de "roubo de propriedade intelectual e transferências forçadas de tecnologia".
    O mercado asiático tem um crescimento robusto, desde o tempo dos "tigres asiáticos" e, o procedimento da China está elevando-a ao grupo dos países de renda alta e, se ela produzir com sua "tecnologia própria", adeus royalties pagos aos países de primeiro mundo.
    Acredito que os EUA acordou tarde e, o espaço (tecnológico) que a China conquistou ao longo dos anos, coloca-a entre os grandes.
    QUEM VIVER, VERÁ !

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