Protestos contra governo Maduro deixam 13 mortos; grandes manifestações voltam às ruas

Publicado em 23/01/2019 17:59 e atualizado em 24/01/2019 03:55
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A ONG Observatório Venezuelano de Conflito Social, afirmou que 13 mortes foram registradas entre ontem e terça-feira em Caracas e nos Estados de Táchira, Barinas, Portuguesa, Amazonas e Bolívar, durante os protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro. A informação é do jorna O Estado de S. Paulo.

Os incidentes violentos de Táchira, na fronteira com a Colômbia, ocorreram ontem em meio a um protesto antigoverno na capital, San Cristóbal, que tinha sido convocado pela oposição para assinalar a “ilegitimidade” de Maduro. A região é fortemente opositora. Os manifestantes entraram em confronto com as forças de segurança, que usaram bombas de gás lacrimogêneo e disparos de balas de borracha. 

Manifestantes marcham contra Maduro na VenezuelaManifestantes marcham contra Maduro na Venezuela Foto: AP Photo/Fernando Llano

Milhares de pessoas se reuniram nas cidades de Caracas, Maracaibo, San Cristóbal, Barquisimeto, Mérida e Valência. O governo convocou chavistas para demonstrar apoio a Maduro, mas estes se reúnem em menor número. 

"Quero que Maduro vá embora para que esse país possa seguir com sua vida", diz o músico Manuel Alcantara, de 29 anos.

 

A manifestação opositora era separada da chavista em Caracas por uma distância de 600 metros. "Estamos defendendo nossa pátria dos imperialistas", afirma Yanina Pacheco. 

Não há estimativas de público nas manifestações. Até o momento não houve indícios de violências nas passeatas. Pelo menos uma pessoa foi presa pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB).

Os protestos foram convocados pelo líder opositor, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, como parte de uma estratégia de pressionar o chavismo dentro e fora da Venezuela.

Enquanto organizou assembleias de rua nas principais cidades do país para reunir opositores ao regime, recorreu ao front diplomático para angariar apoio de países vizinhos e dos Estados Unidos. Ao assumir o cargo, ele declarou Maduro "usurpador" por ter sido eleitas em eleições não reconhecidas pela oposição e a comunidade internacional. 

'Esperamos o pior', diz Bolsonaro sobre risco de uma resistência de Maduro

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira, 23,  estar preocupado com a possibilidade de que haja uma resistência por parte de Nicolás Maduro diante da decisão de Brasil, EUA, Colômbia e outros países de reconhecer opositor Juan Guaidó como o presidente interino da Venezuela. “Todos nós conhecemos um pouquinho Nicolás Maduro. Esperamos o pior. Há uma preocupação, sim”, disse Bolsonaro em declarações exclusivas ao Estado

“Mas achamos que Guaidó não receberá qualquer tipo de retaliação de Maduro, até porque o mundo está de olho nisso e os EUA também reconheceram”, completou o presidente. 

Fontes do governo brasileiro e da oposição venezuelana afirmaram à reportagem que o processo para que o regime de Maduro caia está “cuidadosamente” sendo gestado e cada ato está ocorrendo dentro de um cronograma desenhado entre os EUA e países da região. 

Bolsonaro participou nesta quarta-feira, 23, em Davos de uma reunião com os presidentes de Colômbia, Equador e Costa Rica, além de chanceleres do Canadá e de outros países. Instantes depois de dar as declarações ao Estado, diante da imprensa internacional, ele confirmou a decisão do governo brasileiro. 

“O Brasil reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. O Brasil, juntamente com os demais países do Grupo de Lima, que estão reconhecendo um a um esse fato, daremos todo o apoio político necessário para que esse processo siga seu destino”, disse. 

Logo pela manhã, antes mesmo de o povo venezuelano sair às ruas, o chanceler Ernesto Araújo já estava reunido em Davos com o chanceler do Paraguai, Luis Alberto Castiglioni. “Queremos que o Grupo de Lima seja ampliado para permitir que haja um impacto”, disse o paraguaio. “Hoje, a única maneira é a pressão internacional”, declarou. 

Diplomatas esperam que, com os EUA no Grupo de Lima e o Brasil fazendo parte dos Brics, possa haver uma pressão maior sobre russos e chineses, que mantêm apoio a Maduro. Na visão de alguns governos da região, o Grupo de Lima ameaçava perder impacto se continuasse a fazer declarações de força, mas sem o envolvimento de EUA e outras potências. 

Ricardo Hausmann, um dos venezuelanos que organiza um plano econômico para o governo que assumir depois da queda de Maduro, explicou ao Estado que o processo não ocorreu por acaso. “Em primeiro lugar, houve um esforço para encontrar uma instituição doméstica venezuelana que pudesse ser legítima. E ela foi a Assembleia Nacional”, disse. “O segundo passo foi colocar as pessoas nas ruas e, depois, construir um apoio internacional”, disse o venezuelano ligado à Universidade Harvard. Segundo ele, o quarto capítulo da história será convencer os militares a abandonar Maduro. 

No Itamaraty, a ideia era acompanhar passo a passo o que estava ocorrendo em Caracas. O próprio chanceler indicou que “sentiria a temperatura” das primeiras horas dos protestos para avaliar se declararia o apoio oficial à oposição. O risco, segundo a chancelaria, era de que o protesto fosse seguido por violência. 

Estado apurou que colombianos e outros países da região queriam ter declarado apoio a Guaidó logo que os protestos começaram. A decisão, porém, foi a de aguardar a sinalização americana, que todos sabiam que ocorreria na quarta-feira, 23. 

O anúncio do reconhecimento dos EUA ocorreu às 18 horas (15 horas em Brasília). Neste momento, o Fórum Econômico Mundial havia organizado uma reunião fechada entre líderes da ONU e os presidentes da região, entre eles Bolsonaro. O tema era a resposta à crise na Venezuela. Fontes que estiveram no evento, porém, confirmaram ao Estado que o tom de fato era já o de pensar a “nova Venezuela”. 

Quando a parte formal do encontro terminou, os presidentes passaram a se reunir de forma separada. Um dos envolvidos nas conversas era Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. A decisão foi a de seguir o gesto americano e passar a dar apoio a Guaidó.

“Acompanhamos o processo em direção à democracia para que o povo venezuelano se libere”, declarou Iván Duque, presidente da Colômbia. Enquanto os líderes regionais faziam a declaração, membros da oposição venezuelana que estavam em Davos choravam e se abraçavam. 

Um jantar organizado em Davos para os presidentes latino-americanos também se transformou em celebração diante da nova situação venezuelana. Bolsonaro chegou até mesmo a elogiar Trump pela ajuda que ele prestava para a região. O governo do Uruguai, integrante do Grupo de Lima, se absteve, enquanto Bolívia e México mantiveram seu apoio a Maduro. 

Para o líder da oposição uruguaia, Juan Sartori, a opção pela abstenção “não representa o povo uruguaio”. “As esquerdas latino-americanas ainda mantêm uma certa aliança e eu disse hoje ao presidente Bolsonaro que lamentava a decisão do Uruguai”, disse Sartori, que também está em Davos. O brasileiro lhe respondeu com uma sugestão: “Vença as eleições e mude a posição do Uruguai”. 

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Fonte Estadão

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