Petrobras desiste de subir diesel após pressão de Bolsonaro, diz fonte; gera críticas

Publicado em 12/04/2019 11:37
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BRASÍLIA/RIO DE JANEIRO (Reuters) - A Petrobras desistiu de elevar o preço do diesel nas refinarias a partir desta sexta-feira após pressão do presidente Jair Bolsonaro, que defendia uma alta menor, disse uma fonte à Reuters, levantando incertezas quanto à independência da estatal no que tange a sua política de reajustes de combustíveis.

Na véspera, por volta do meio-dia, a Petrobras chegou a anunciar elevação de 5,7 por cento no valor do diesel para esta sexta-feira, mas à noite anulou o aumento e decidiu manter a cotação em 2,1432 reais por litro, praticada desde 22 de março.

O movimento ocorre diante de uma recente insatisfação de caminhoneiros em razão dos valores do diesel e dos fretes. No ano passado, a categoria organizou uma greve histórica por causa da alta do combustível mais consumido no país, o que abalou a Petrobras, culminando com a renúncia do então CEO Pedro Parente.

Conforme uma fonte do Palácio do Planalto, Bolsonaro ligou ao atual presidente da empresa, Roberto Castello Branco, logo após conversa com o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, pedindo por um reajuste mais brando.

"O presidente pediu para reduzir o aumento, de 5 para 1 por cento... É manter o aumento, mas não nesse percentual", afirmou a fonte palaciana, sob condição de anonimato, dada a sensibilidade do assunto.

Indagada pela Reuters sobre eventual interferência do governo, a assessoria de imprensa da Presidência da República não respondeu de imediato. A Petrobras também não respondeu.

Contudo, em comunicado ao mercado após desistir de elevar o valor do produto, a Petrobras afirmou que "em consonância com sua estratégia para os reajustes dos preços do diesel... revisitou sua posição de hedge e avaliou, ao longo do dia, com o fechamento do mercado, que há margem para espaçar mais alguns dias o reajuste".

"A empresa reafirma a manutenção do alinhamento com o Preço Paridade Internacional (PPI)", concluiu.

A política de preços da Petrobras buscando a paridade está em vigor desde 2016, tendo passado por ajustes desde então. O mais recente movimento, anunciado em março, prevê que a companhia pode segurar a cotação do combustível por períodos mais longos nas refinarias, com alterações acontecendo em intervalos não inferiores a 15 dias.

A notícia atingiu as ações da estatal logo na abertura da B3. Os papéis caíram mais de 5 por cento.

CRÍTICAS

O movimento tomado pela Petrobras foi recebido com críticas por lideranças ligadas ao setor de combustíveis.

"É impressionante, o governo se diz tão forte, tão liberal, e fica refém dos caminhoneiros. Foi mais um retrocesso e muito ruim para o país, porque deixa de atrair investimento, muito ruim para a Petrobras, porque perde dinheiro, e muito ruim para o governo, porque perde credibilidade", afirmou o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, referindo-se à notícia de interferência do governo.

Na mesma linha, o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sergio Araujo, disse que "a intervenção do governo na Petrobras está declarada".

"Existem soluções para atender aos pleitos dos caminhoneiros sem prejudicar os acionistas da Petrobras e preservando os projetos do Roberto Castello Branco para o desinvestimento nas refinarias... O governo está dando uma péssima sinalização para os investidores nacionais e internacionais. E sem investimentos em infraestrutura, estaremos condenados à estagnação", acrescentou.

Uma outra fonte, ligada à estatal, disse que o movimento da Petrobras a colocaria em uma zona de risco que remete aos tempos de interferência de governos anteriores, quando os preços de diesel e gasolina eram "congelados" para ajudar a segurar a inflação.

"O Bolsonaro está fazendo exatamente o populismo perigoso que a (ex-presidente) Dilma (Rousseff) fez, e isso é uma afronta às regras de governança e compliance da empresa", afirmou a segunda fonte. "Se quer questionar a política, que se manifeste através do conselho de administração, mas quem decide preço é a diretoria executiva, e não o presidente da República."

Para essa fonte, esse foi o segundo revés da Petrobras nesta semana. O primeiro foi o acordo para atualizar o contrato do excedente da cessão onerosa aprovado pelo CNPE, que prevê o pagamento de cerca de 9 bilhões de dólares à estatal, enquanto cálculos da empresa apontavam para o direito de 14 bilhões, disse.

(Por Lisandra Paraguassu, em Brasília, Rodrigo Viga Gaier e Marta Nogueira, no Rio de Janeiro; reportagem adicional de José Roberto Gomes, em São Paulo)

Fonte: Reuters

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