Guaidó convoca levante na Venezuela, mas militares permanecem leais a Maduro

Publicado em 30/04/2019 17:18 e atualizado em 01/05/2019 11:14
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Por Vivian Sequera e Angus Berwick

CARACAS (Reuters) - O líder da oposição na Venezuela Juan Guaidó fez seu apelo mais contundente até agora para que os militares o ajudem a derrubar o presidente Nicolás Maduro, mas não houve sinais concretos de que as lideranças nas Forças Armadas tenham mudado de lado. 

No início desta terça-feira, dezenas de soldados armados acompanhando Guaidó se confrontaram com soldados que apoiavam Maduro em um comício em Caracas, e grandes protestos contra o governo nas ruas se tornaram violentos. Mas até a tarde de terça-feira, uma paz instável retornou e não havia indícios de que a oposição planejavam tomar o poder através de força militar. 

O Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, disse à CNN que "no nosso entendimento", Maduro chegou a estar pronto para embarcar em um voo para Cuba, país que é um aliado socialista, mas foi persuadido a permanecer pela Rússia, país que é um forte aliado do atual líder venezuelano. 

Maduro não fez um discurso formal na terça-feira, mas disse pelo Twitter: "Nervos de aço! Eu peço uma mobilização popular máxima para assegurar a vitória da paz. Venceremos!". 

Ele disse ter falado com a liderança militar e que eles haviam mostrado a ele "sua total lealdade". 

Outros oficiais norte-americanos disseram que três dos principais apoiadores de Maduro --o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, o presidente da Suprema Corte, Maikel Moreno, e o comandante da guarda presidencial, Ivan Rafael Hernandez Dala-- estavam em negociação com a oposição e estariam prontos para apoiar uma transição pacífica de poder. 

"Eles negociaram por um bom tempo sobre os meios para restaurar a democracia, mas parece que hoje não avançaremos mais", disse o enviado dos Estados Unidos para a Venezuela Elliott Abrams. O assessor de Segurança dos Estados Unidos John Bolton disse: "Todos concordaram que Maduro tem que sair". Eles não apresentaram evidências desses comentários. 

O embaixador da Venezuela na ONU, Samuel Moncada, rejeitou os comentários de Bolton como "propaganda". 

Cercado de homens uniformizados, Padrino disse em uma transmissão que as Forças Armadas continuariam a defender a Constituição e "as autoridades legítimas", e disse que as bases militares estavam operando normalmente. Moreno fez um pedido por calma no Twitter. 

Guaidó disse em tuítes que iniciou a "fase final" de sua campanha para derrubar Maduro, conclamando os venezuelanos e as Forças Armadas a apoiá-lo antes dos protestos planejados para o 1º de Maio.

"O momento é agora!", escreveu. "O futuro é nosso: o povo e as Forças Armadas unidas para pôr um fim" ao tempo de Maduro no governo.

Guaidó, líder da Assembleia Nacional, invocou a Constituição para assumir a Presidência de maneira interina em janeiro, argumentando que a reeleição de Maduro em 2018 foi ilegítima. Mas Maduro se manteve no poder apesar do caos econômico e do apoio da maioria dos países ocidentais a Guaidó, além de novas sanções dos Estados Unidos e de gigantescos protestos. 

 

MOVIMENTO AUDACIOSO, PORÉM ARRISCADO 

O ato de terça-feira foi o mais ousado de Guaidó até agora para persuadir os militares a se levantarem contra Maduro. Caso fracasse, isso pode ser visto como uma evidência de que não possui apoio suficiente, além de ainda encorajar as autoridades, que já retiraram sua imunidade parlamentar e iniciaram múltiplas investigações contra ele, a prendê-lo. 

Dezenas de milhares de pessoas que faziam uma passeata em Caracas para apoiar Guaidó nesta terça-feira entraram em confronto com a tropa de choque na avenida Francisco Fajardo. Um veículo blindado da Guarda Nacional avançou sobre manifestantes que atiravam pedras e o atingiam.

Setenta e oito pessoas ficaram feridas nos incidentes, a maioria delas atingidas por estilhaços ou balas de borracha, disse o dr. Maggi Santi, do centro de saúde Salud Chacao em Caracas. Nenhum dos ferimentos foi grave, acrescentou. 

A Venezuela está imersa em uma profunda crise econômica apesar de suas vastas reservas de petróleo. A escassez de alimentos e medicamentos levou mais de 3 milhões de venezuelanos a emigrarem nos últimos anos. 

Em um vídeo em sua conta no Twitter, Guaidó estava acompanhado de homens em uniformes militares e do político Leopoldo López, uma aparição pública surpresa de um homem que tem estado em prisão domiciliar desde 2017. 

O ministro das Relações Exteriores do Chile disse mais tarde nesta terça-feira que López e sua família estavam na residência diplomática chilena. Mais tarde, o chanceler chileno, Roberto Ampuero, informou que o político venezuelano havia ido para a embaixada da Espanha em Caracas.

 

QUEM APOIA QUEM?

A crise tem colocado os aliados de Guaidó, incluindo os Estados Unidos, Brasil, a União Europeia, e a maioria dos países latino-americanos, contra os aliados de Maduro, que incluem a Rússia, Cuba e a China. 

A Casa Branca se recusou a comentar se o governo dos EUA sabia com antecedência sobre os planos de Guaidó. 

Carlos Vecchio, o enviado de Guaidó aos Estados Unidos, disse a jornalistas em Washington que o governo Trump não ajudou a coordenar os eventos de terça-feira. "Esse é um movimento liderado pelos venezuelanos", disse. 

Mas o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, afirmou que os eventos haviam sido "diretamente planejados" por Washington, sem apresentar evidências concretas. 

O ministro das Relações Exteriores da Rússia acusou a oposição venezuelana de recorrer à violência no que chamou de uma tentativa descarada de promover confrontos entre as Forças Armadas do país. 

A Organização das Nações Unidas (ONU) e outros países exigem diálogo e uma solução pacífica para a situação venezuelana. 

(Reportagem de Angus Berwick, Vivian Sequera, Corina Pons, Mayela Armas, Deisy Buitrago, e Luc Cohen em Caracas; reportagem adicional de Matt Spetalnick, Patricia Zengerle, Lesley Wroughton e Roberta Rampton em Washington; Madeline Chambers em Berlim; e Michelle Nichols nas Nações Unidas)

Brasil mantém política de não intervenção e avalia que apoio a Guaidó é menor que anunciado

BRASÍLIA (Reuters) - O governo brasileiro não tem clareza do tamanho do apoio militar ao autoproclamado presidente Juan Guaidó, que parece ser menor do que o inicialmente anunciado, e mantém a posição de não intervenção nos assuntos internos da Venezuela, afirmou o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general da reserva Augusto Heleno.

O presidente Jair Bolsonaro convocou uma reunião no início deste tarde para discutir a crise venezuelana com o vice-presidente Hamilton Mourão e os ministros Heleno, Fernando Azevedo (Defesa) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). O encontro foi rápido e serviu para reafirmou a posição de não intervenção do Brasil na crise do país vizinho.

De acordo com Heleno, o governo vai aguardar os acontecimentos e está analisando hipóteses para o resultado da crise venezuelana.

"A posição do governo não vai se modificar. Desde o início, o governo tem adotado uma postura bastante prudente, cuidadosa, tomando a posição correta que é apoiar o presidente Guaidó e vai seguir nessa posição aguardando os acontecimentos", disse o ministro.

Heleno levantou dúvidas sobre o sucesso da operação armada por Guaidó e disse não haver uma expectativa de solução no curto prazo.

A avaliação do governo brasileiro é que o apoio militar a Guaidó é menor do que anunciado pelo político venezuelano ao chamar a população para tomar as ruas.

"Essa é a grande incógnita dessa situação. No início desta situação, quando se caracterizou uma antecipação do movimento que estava previsto para amanhã não se percebeu movimentação militar, mas foi anunciado pelo Guaidó um maciço apoio. Logo depois isso foi colocado na dimensão correta. Ou seja, havia algum apoio, mas não chegava a atingir os altos escalões", avaliou Heleno.

O general considera que há um apoio ao autoproclamado presidente venezuelano, mas que pode ser mais "quantitativo e não qualitativo".

"Não sabemos a quantidade e a qualidade desse apoio. O que tem parecido é que esse apoio tenha um valor quantitativo mas qualitativo ele ainda não foi expressado. Não ouvimos de nenhum chefe militar um apoio ao presidente Guaidó", disse. Ao contrário, lembrou o general, no início da tarde foram divulgadas fotos de comandantes das forças armadas venezuelanas dando apoio a Maduro.

"De manhã parecia que as coisas iriam se encaminhar para uma solução, mas ao longo do tempo não se transformou em massificação do movimento, explicou Heleno. "Temos a impressão de que o lado de Guaidó é fraco militarmente."

O ministro avalia que a situação no país vizinho ainda está longe de uma solução.

O vice-presidente Hamilton Mourão, que também participou da reunião, confirmou que as informações que o governo brasileiro teve acesso até agora mostram uma situação confusa e é preciso aguardar uma definição do cenário.

Mourão, que já foi adido militar em Caracas, diz que os oposicionistas Guaidó e Leopoldo López foram para "o tudo ou nada."

"Foram para uma situação que não tem mais volta, não há mais recuo. Depois disso ou eles vão ser presos ou Maduro vai embora", disse.

Fonte: Reuters

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