Governo faz ofensiva diplomática para reverter imagem de destruição da Amazônia

Publicado em 22/08/2019 22:22
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BRASÍLIA (Reuters) - Acossado por reações negativas no mundo inteiro pelo desmatamento crescente e as queimadas na região da Amazônia, o governo brasileiro começou uma ofensiva diplomática para mostrar ao mundo que defende a Amazônia e distribuiu uma circular de 12 páginas para todos os postos diplomáticas como subsídios para a defesa do governo.

Os 59 pontos da circular a que a Reuters teve acesso tentam responder cada um dos pontos sobre questões em que o Brasil tem sido criticado no exterior, mas usam políticas e dados de governos anteriores --inclusive algumas hoje criticadas pelo presidente Jair Bolsonaro.

Ao tratar do desmatamento, que dados iniciais mostram que vem crescendo em taxas aceleradas este ano, o documento enviado pelo Itamaraty a seus postos diz que a taxa foi reduzida em 72% entre 2004 --quando atingiu o maior pico desde a metade da década de 1990, com 27,7 mil quilômetros quadrados desmatados-- e 2018, onde 7,9 mil km2 de floresta foram derrubados.

No entanto, deixa de lado o fato de que desde 2012 a taxa voltou a subir, com a crise fiscal e a queda nas atividades de fiscalização por falta de recursos.

"É importante ter em mente que nas últimas décadas o Brasil desenvolveu capacidade de conciliar produção agropecuária com preservação. Mais de 60% do território brasileiro é coberto por vegetação nativa, com atividades agropecuárias limitadas a cerca de 30% do território" diz o texto enviado aos postos.

A limitação ao uso da terra e o fato de 60% do território nacional ser composto de reservas ambientais de diversos tipos e terras indígenas é uma das grandes críticas do presidente à política ambiental adotada por seus antecessores.

Bolsonaro afirma que o país está "amarrado" e lembra sempre que votou contra a criação da reserva Yanomâmi, que seria "maior que o Estado do Rio de Janeiro".

O texto ainda destaca justamente as terras indígenas, mais de 60 reservas que seriam "as maiores áreas de preservação de vegetação nativa do Brasil", mas que são alvos de algumas das maiores críticas de Bolsonaro. Desde a campanha eleitoral o presidente promete que não irá aprovar nem mais uma reserva, e defende a abertura das terras para exploração de minérios.

"O país tem atuado intensamente no controle e na restrição a atividades irregulares com envolvimento de grileiros, madereiros e garimpeiros, de modo a reduzir índices de desmatamento e invasão a terras indígenas", diz a circular.

Um projeto que regulariza o garimpo nas terras indígenas está em estudo pelo Ministério de Minas e Energia a pedido de Bolsonaro.

O texto ainda defende a ação do Brasil dentro do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, o mesmo que, segundo Bolsonaro, "se fosse bom os Estados Unidos não tinham saído."

A circular diz ainda que críticos tentam associar o Brasil à destruição do Meio Ambiente para obrigar o país a aceitar compromissos maiores em acordos internacionais.

"Há, da mesma forma, grande interesse de competidores internacionais do agronegócio brasileiro em divulgar imagem negativa da produção agrícola nacional", diz o texto que pretende subsidiar a defesa que os diplomatas farão do país.

Diplomatas ouvidos pela Reuters contam que nos últimos dias tem aumentado a pressão sobre o tema ambiental e, inclusive, mensagens duras tem sido enviadas às embaixadas. Em meio à crise mais recente, com as imagens das queimadas na Amazônia ganhando o mundo, o governo começa a tentar reagir.

Nesta quinta, começou a discutir uma campanha internacional para ser divulgada na Europa e nos EUA em defesa do agronegócio.

O próprio Itamaraty colocou em sua conta no Twiiter, na noite de quarta-feira, uma série de publicações em defesa das políticas públicas ambientais brasileiras.

"Quem vai salvar a Amazônia? O Brasil", diz o texto que desfila alguns dados positivos sobre produção de energia limpa, uso da terra e outro números que constam da mesma circular.

Várias embaixadas brasileiras no exterior, orientadas pelo ministério, replicaram o mesmo material.

Em sua conta no Twitter, o assessor especial da Presidência Filipe Martins, fez uma sequência de 10 textos em que, usando tom irônico em inglês, defendeu o governo.

"Então você realmente pensa que a Amazônia está em perigo e deveria rezar para salvá-la? Primeiro um conselho: a primeira coisa que você deveria fazer era parar de espalhar mentiras", escreveu no primeiro.

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  • Colunas de fumaça durante incêndio na Floresta Amazônica perto de Porto Velho (21/08/2019) REUTERS/Ueslei Marcelino

A sequência de mensagens foi compartilhada pelo presidente em suas redes sociais.

Até Madonna e Macron compartilham fotos antigas de queimadas em meio a polêmica sobre Amazônia (no ESTADÃO)

Perfil do presidente francês Emmanuel Macron compartilha foto antiga de incêndio da Amazônia ao comentar a convocação do G7 sobre o tema. Foto: Twitter / Reprodução

Diversas imagens antigas de queimadas na Amazônia estão sendo compartilhadas nas redes sociais como se fossem atuais, confundindo até mesmo personalidades públicas como MadonnaEmmanuel Macron e Cristiano Ronaldo. As fotos mostram árvores incendiadas e animais feridos – algumas delas nem sequer foram feitas na floresta brasileira.

Por meio de ferramentas de busca reversa, como o Google Imagens e o TinEye, o Estadão Verifica localizou seis fotos descontextualizadas sendo replicadas nas redes sociais.

foto compartilhada pelo presidente francês Emmanuel Macron, por exemplo, retrata um incêndio na Amazônia, mas é encontrada em artigo da revista Nature de setembro de 2012. Foi tirada pelo fotógrafo Loren McIntyre, que faleceu em 2003, e está à venda no banco de imagens Alamy. A publicação de Macron está invertida – o fogo aparece da esquerda para a direita, diferentemente do contexto original.

modelo Gisele Bündchen, o jogador de futebol Daniel Alves, a cantora Camila Cabello e o ator Leonardo diCaprio também divulgaram a imagem em meio a mensagens sobre a conscientização da Amazônia.

cantora Madonna, por sua vez, divulgou uma foto de 1989 feita na Amazônia. O clique foi feito para a agência Sipa Press e posteriormente vendida para a Rex Features. A imagem integra um álbum sobre o desmatamento na região naquela época.

ATÉ CRISTIANO RONALDO

futebolista português Cristiano Ronaldo também compartilhou uma imagem antiga, e que nem sequer foi clicada na Amazônia: mostra um incêndio na Estação Ecológica do Taim, no Rio Grande do Sul, em março de 2013. O fotógrafo é Lauro Alves, da Agência RBS.

The Amazon Rainforest produces more than 20% of the world’s oxygen and its been burning for the past 3 weeks. It’s our responsibility to help to save our planet. #prayforamazonia

Ver imagem no Twitter

Outra foto bastante difundida é a de um incêndio atingindo uma floresta à noite. A cena retrata uma queimada em São Félix do Xingu, no Pará, em 2008. O autor, Daniel Beltrá, a republicou em seu Instagram nesta quinta-feira, 22.

Vítimas. Fotos de animais feridos também se espalharam rapidamente nas redes sociais. Uma delas retrata uma macaca com um filhote aparentemente morto. A cena, porém, é de Jabalpur, na Índia. Em entrevista ao site britânico The Independent, o fotógrafo Avinash Lodhi explicou ainda que o macaquinho não estava morto, mas havia acabado de tropeçar.

Uma imagem de um coelho morto, que viralizou nas redes sociais, também não ilustra um caso brasileiro. O animal morreu durante um incêndio em Malibu, na Califórnia (EUA), no ano passado. O autor da foto é Chris Rusanowsk.

Apesar das imagens acima estarem descontextualizas, a polêmica sobre as queimadas na Amazônia tem relação com fatos reais. Desde 1º de janeiro até esta quinta-feira, 22, foram contabilizados 75.300 focos de queimadas em todo o País, de acordo com o Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pela contabilização dos dados desde 2013. O número representa alta de 85% em relação ao mesmo período do ano passado.

 

As imagens foram sinalizadas para checagem por meio da parceria entre o Estadão Verifica e o Facebook. O AosFatos e a AFP Checamos também desmentiram estes conteúdos.

 

 

Fonte: REUTERS/ESTADÃO

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