Toque de recolher pelo 2.o dia no Chile; Exército nas ruas impede mais vandalismo

Publicado em 20/10/2019 16:44 e atualizado em 21/10/2019 11:29
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Soldados patrulham as ruas da capital chilena, em estado de emergência. Tumultos começaram após aumento de passagem do metrô

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Por Fabian Cambero e Aislinn Laing

SANTIAGO (Reuters) - Autoridades decretaram toque de recolher no país pelo segundo dia, adiantando o início da medida para as 19h (18h em Brasília), em meio ao "estado de emergência" em cinco regiões do país. Autoridades militares chilenas estenderam neste domingo o toque de recolher na capital, Santiago, além das cidades de Valparaíso e Concepción. 

Apesar do decreto e da mobilização de quase 10 mil militares ajudando na segurança, os distúrbios continuaram. Esta é a primeira vez que o governo chileno mobiliza o Exército nas ruas desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990.

As violentas manifestações em várias cidades do Chile deixaram pelo menos três mortos ao amanhecer deste domingo, apesar do toque de recolher imposto pelos militares em Santiago e em dois outros polos urbanos para conter protestos contra o aumento da tarifa do transporte, que resultaram em saques e confrontos.

Cinco pessoas morreram em um incêndio na fábrica de roupas Kayser, também na capital. O grupo ficou preso no segundo andar, onde estavam armazenadas roupas íntimas. 

O presidente chileno, Sebastián Piñera, suspendeu no sábado a alta da passagem de metrô que detonou as manifestações na capital, que mais tarde se espalharam para outras cidades do país.

Em pronunciamento à nação na noite de domingo (20), Piñera afirmou que o país está "em guerra". "Estamos em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada, nem ninguém, e está disposto a usar a violência e o crime sem nenhum limite", disse. "Mas vamos ganhar esta batalha."

A restrição de movimento e reunião, aplicada em Santiago pela primeira vez desde o final da ditadura de Augusto Pinochet, não impediu ações durante a noite com novos incêndios e saques de estabelecimentos comerciais. Várias estações do metrô foram incendiadas com coquetéis molotov.

Além da paralisação do metrô, as linhas de ônibus também estão suspensas temporariamente, depois que cinco veículos foram queimados no centro de Santiago, o que deixou sete milhões de pessoas sem transporte público. “Estamos vivendo um alto nível de delinquência, pilantragem e roubos”, declarou Alberto Espina, ministro de Defesa.

O governo anunciou que as aulas foram suspensas na capital pelo menos até a próxima sexta-feira (25).

Os militares vagavam pelas ruas em tanques e outros veículos, sobrevoados por helicópteros, tentando evitar novos incêndios na rede de metrô, a mais moderna da América Latina, que pode ter algumas linhas paralisadas por até quatro meses, disse Louis de Grange, Presidente do Metro Board.

O ministro do Interior, Andrés Chadwick, explicou que em uma cidade populosa no sul de Santiago, duas pessoas morreram e uma foi gravemente ferida por um incêndio após a pilhagem de um supermercado. O promotor Xavier Armendáriz confirmou a morte de um homem em outro incêndio.

Durante a madrugada, duas pessoas foram feridas a tiros em um posto de patrulha militar, o que as autoridades militares disseram estar sendo investigado.

Chadwick também informou que 716 pessoas foram presas em todo o país devido aos tumultos, enquanto 244 foram detidas por violar o toque de recolher. Além disso, ele não descartou a extensão do estado de emergência - em vigor na região da capital, Valparaíso, Bío Bío, Coquimbo e O'Higgins - para outras regiões, se necessário.

Soldados patrulham as ruas da capital chilena, em estado de emergência

SANTIAGO (Reuters) - Soldados armados patrulhavam as ruas da capital chilena na manhã de sábado, após o presidente Sebastián Piñera decretar estado de emergência, em meio a protestos violentos que começaram devido ao aumento das tarifas de metrô, vital para o transporte em Santiago.

Javier Iturriaga del Campo, general designado por Piñera para guardar a capital, disse em uma entrevista coletiva no palácio presidencial de La Moneda que suas tropas se concentrariam no patrulhamento "nas áreas com mais conflitos", mas que nenhum toque de recolher seria imposto, por enquanto.

"A recomendação para as pessoas é que elas possam ir para suas casas com suas famílias e ficar quietas", disse ele.

"Estamos assumindo o controle, mobilizando nossas forças para que eles possam impedir que atos de vandalismo continuem", acrescentou.

Por causa dos protestos que se instalaram no Chile desde sexta-feira (18), dezenas de voos foram cancelados ou adiados, deixando milhares de pessoas ilhadas no aeroporto internacional de Santiago.

Segundo informações do jornal chileno La Tercera, na manhã de domingo, haviam sido registrados 95 cancelamentos de voos e 20 reprogramações

No aeroporto, não havia funcionários para dar informação, nem locais abertos para se comprar comida ou água. Tampouco havia funcionários das companhias aéreas para dar orientações.

Muitos passageiros já estavam no terminal havia mais de 12 horas, e vários dormiam no chão do aeroporto.

Tentativa de desmantelar o modelo de progresso chileno

Analistas da imprensa afirmam que a alta das passagens do metrô foi apenas o gatilho, que os problemas são mais profundos na sociedade chilena. Tal como desigualdade, endividamento, baixo poder aquisitivo. Por trás da estabilidade política e seus invejáveis números macroeconômicos, diversos setores ficaram excluídos, o que levou ao longo dos anos a um descontentamento social que explodiu com força .

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo "as manifestações não têm um líder definido ou uma lista precisa de demandas. Até o momento aparece como uma crítica generalizada a um sistema econômico neoliberal que, por trás do êxito aparente dos índices macroeconômicos, esconde um profundo descontentamento social".

— A educação falhou em incutir respeito irrestrito às regras básicas da civilidade entre todos os chilenos. A resposta fraca e acomodada de alguns políticos, incluindo os mais jovens, demonstra o atraso. A cultura da violência não foi erradicada — afirma o acadêmico Sergio Urzúa. — Obviamente, a situação é explorada por quem aposta no desmantelamento do modelo de progresso. Isto não é novo. (em O Globo).

Vejja abaixo a opinião de Fernando Melo, do canal "Comunicação e Política", na internet:

Veja abaixo imagens e videos dos protestos:

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Fonte: Reuters

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