Dólar vai à máxima em quase 2 meses com exterior negativo; contas externas pesam

Publicado em 27/01/2020 17:16

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar começou a semana em firme alta, encerrando a sessão no maior patamar em quase dois meses e chegando a superar 4,23 reais na máxima, puxado por demanda global por segurança e fuga de risco diante de crescentes temores econômicos na esteira da propagação do coronavírus para além da China.

Dados negativos de contas externas e novas quedas nas taxas de DI de curto prazo --indicação de mais apostas em corte de juros-- também pesaram sobre a moeda doméstica, que caminha a passos largos para o pior começo de ano em uma década.

O medo do vírus na China se intensificou desde o fim da semana passada, quando o número de mortes e de infectados saltou. A infecção já matou 81 pessoas e isolou milhões de pessoas no principal feriado festivo da China. Apenas no país o número de casos confirmados já é de 2.835.

O receio do mercado é que o surto afete a demanda dos consumidores e tenha impactos mais diretos e abrangentes sobre a atividade econômica, já que o mercado tem na memória a epidemia de SARS de 2002 a 2003, também na China.

O dólar subia ante várias divisas de risco pares do real, evidência da ampla demanda dos investidores por segurança, movimento que também impulsionava o iene, divisa de melhor desempenho global nesta sessão.

"Achamos que posições compradas em dólar e iene contra moedas emergentes devem se mostrar exitosas num cenário de aversão a risco", disseram estrategistas do Morgan Stanley em nota a clientes.

O dólar à vista encerrou em alta de 0,59%, a 4,2101 reais na venda.

É o nível mais alto para um término de sessão desde 2 de dezembro de 2019 (4,2139 reais na venda). No pico desta segunda, a cotação bateu 4,2322 reais na venda.

Na B3, o contrato de dólar futuro mais negociado tinha ganho de 0,63%, a 4,2105 reais.

Analistas citaram ainda que o número das transações correntes ajudou a piorar o sinal para o câmbio. O rombo nas contas externas subiu para 50,762 bilhões de dólares, alta de 22,2% sobre 2018 e no pior dado em quatro anos, afetado pela queda do superávit comercial do país.

Estrategistas do Goldman Sachs dizem que até há algum interesse de investidores estrangeiros por posições favoráveis ao real, mas que ainda assim o caso para um movimento de alta na moeda brasileira parece menos claro --entre outros fatores, pelo desnível negativo do real em relação a seu valor "justo" ainda estar em moderados 5% ante o dólar, contra 18% para o peso chileno, por exemplo.

"Embora acreditemos que o real possa certamente se beneficiar de uma melhora no sentimento de risco nos próximos dias, o espaço para um movimento de força significativa no médio prazo parece limitado devido ao juro real em nível muito baixo, à inflação contida, ao baixo nível nominal do 'carry' e à renovada deterioração das contas externas brasileiras", disseram os analistas do Goldman em nota.

Fonte: Reuters

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