Dólar tem maior alta semanal em 9 meses com aumento de risco político-fiscal e dúvidas sobre BC

Publicado em 26/03/2021 17:08 e atualizado em 26/03/2021 18:06

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar fechou em forte alta nesta sexta-feira, acima de 5,74 reais, em meio a um expressivo movimento de compras defensivas diante de intensos ruídos sobre a postura do Banco Central em relação ao câmbio e da falta de perspectivas de fluxo e de melhora econômica de curto prazo.

Na semana, o dólar teve a maior alta em nove meses, alavancado por um combo que inclui aumento de percepção de risco político-fiscal e fortalecimento da moeda no exterior.

O dólar à vista subiu 1,25% nesta sexta, para 5,7406 reais. A moeda variou entre 5,6548 reais (-0,26%) e 5,7576 reais (+1,55%).

"O que ninguém entende é o racional do BC para atuar no câmbio. Vendeu a 5,58 reais e agora não faz nada com a moeda tendo pior performance relativa?", comentou Sérgio Goldenstein, consultor independente da Ohmresearch Independent Insights.

Na quinta-feira, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse ser equivocada a visão de que intervenções no câmbio feitas pela autoridade monetária em dias em que o real está apreciando estariam ligadas ao cenário inflacionário e reforçou que o câmbio é flutuante.

"Gostaria de deixar bem claro que nós entendemos que o efeito que o câmbio traz para nós é o efeito inflacionário através dos canais, a gente tem olhado isso há bastante tempo", disse Campos Neto em entrevista à imprensa, em evento no qual sinalizou que os juros poderiam subir menos do que o projetado pelo mercado --o que seria um revés para o câmbio.

"O BC se comunicou mal sobre o dólar", disse um gestor. "A sensação que deu é que eles vão deixar o câmbio ir embora (depreciar)", completou, avaliando que o BC está "atrás da curva".

Nessa linha, circularam nesta sexta nas mesas de operação informações de que a equipe econômica teria debatido o custo/benefício de intervenções mais agressivas no câmbio e que, no fim, teria convencido a diretoria do BC a se afastar de maior ativismo.

A impressão gerada no mercado pela recente postura do BC é oposta à percebida apenas duas semanas atrás --quando a autarquia chegou a fazer oferta de moeda à vista mesmo com o dólar em queda, surpreendendo o mercado-- e reforça a falta de leitura comum dos investidores em relação à visão do BC sobre o momento de forte pressão cambial.

Em meio às dúvidas sobre a estratégia do Bacen, o mercado embute nos preços do câmbio nova deterioração das expectativas econômicas no Brasil, na esteira do recrudescimento da crise sanitária, que já afeta projeções para PIB, inflação e juros, enquanto outras economias aceleram a retomada da crise da Covid-19.

O Credit Suisse rebaixou nesta sexta a estimativa de crescimento do PIB em 2021 de 3,7% para 3,2%. Para 2022, o prognóstico foi reduzido de 2,9% para 2,4%. Ao mesmo tempo, o banco privado passou a esperar mais inflação e Selic de 6,5% ao fim deste ano.

RISCO POLÍTICO-FISCAL

Investidores comentam ainda sobre uma constante tensão diante de recorrentes pressões de governadores por mais gastos em combate à pandemia e eventual volta do estado de calamidade pública --que ampliaria a margem de despesas que podem ficar fora das restrições das metas fiscais--, enquanto ainda digeriam o Orçamento aprovado na véspera.

"O Congresso aprovou um Orçamento irreal para 2021", disse a XP em nota, avaliando ainda que uma "manobra fiscal" relacionada ao abono salarial de 2022, emendas parlamentares e o programa BEM aumentou a percepção de risco nos mercados.

E com isso vem aumento do ruído político, com o Congresso mostrando mais descontentamento com a gestão da pandemia pelo Executivo. Relatórios de instituições financeiras voltaram a lembrar nos últimos dias que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é o único que pode aceitar abertura de processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro.

Na semana, o dólar saltou 4,68%, maior valorização desde a semana encerrada em 19 de junho de 2020 (+5,41%). Em março, a cotação sobe 2,46%, elevando os ganhos em 2021 para 10,58%.

O real teve o segundo pior desempenho nesta sessão --apenas a lira turca caiu mais--, e a performance relativa mais fraca ficou evidente contra o peso mexicano --considerado um termômetro do sentimento mais geral sobre os mercados emergentes.

O real chegou ao fim da tarde em queda de 2,2% ante o peso, para mínimas em 17 anos.

"O Brasil, com dívida próxima a 93% do PIB, tem juros reais negativo de 2,5%. Já o México, com o fiscal bem melhor, não tem esses juros negativos. Isso demonstra o quanto estamos errados", disse Alfredo Menezes, sócio-gestor na Armor Capital.

Fonte: Reuters

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Lula abre vantagem de 12,5 pontos sobre Flávio em eventual segundo turno, diz CNT/MDA
Zelenskiy diz que líderes do G7 discutiram novas sanções contra a Rússia
Ibovespa volta a trabalhar abaixo de 170 mil pontos com pressão de Petrobras
Trump diz que memorando de entendimento aponta claramente que Irã não terá arma nuclear
Rússia deveria firmar acordo de paz, diz Trump após reunião “muito boa” com Zelenskiy
Acordo entre EUA e Irã promete fim da guerra, mas ainda não está claro como isso vai funcionar