Quanto o Fed pode reduzir seu balanço? Aqui está o que as autoridades avaliarão

Publicado em 26/01/2022 11:30 18 exibições

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Por Jonnelle Marte

(Reuters) - Conforme o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) se prepara para reduzir sua carteira de títulos mais cedo e mais rápido do que no passado, autoridades dizem que uma nova ferramenta, combinada com lições anteriores, deve ajudar a suavizar o processo e evitar a turbulência que os mercados sofreram em outros processos de corte do balanço.

Ainda assim, os líderes do Fed terão que agir com cuidado ao avaliar o quanto podem, realisticamente, reduzir sua carteira de aproximadamente 9 trilhões de dólares, e alguns analistas acreditam que precisarão empregar medidas mais agressivas do que da última vez.

É uma questão crítica que o banco central enfrenta ao tentar dimensionar corretamente suas participações em ativos, que praticamente dobraram em menos de dois anos depois que o Fed acumulou Treasuries e títulos lastreados em hipotecas para ajudar a reduzir os custos de empréstimos e proteger a economia e os mercados da pandemia de coronavírus.

Com o desemprego de volta aos níveis pré-pandemia e a inflação muito alta, autoridades dizem que a mesma quantidade de apoio econômico não é mais necessária. Mas não está claro o quanto será reduzido o balanço patrimonial. Conforme autoridades buscam um balanço menor, precisarão observar de perto os mercados e a economia para saber se foram longe demais.

O QUE PODERIA DAR ERRADO?

Da última vez que autoridades tentaram reduzir suas participações em títulos, do final de 2017 ao outono (no Hemisfério Norte) de 2019, elas só conseguiram encolher o balanço patrimonial em cerca de 15% antes de ter problemas. Isso ocorreu porque o nível de reservas, ou depósitos que os bancos mantêm com o Fed, ficou muito baixo, o que levou a um aumento nos custos de empréstimos de curto prazo em setembro de 2019.

As autoridades estão mais ambiciosas desta vez, com algumas defendendo que o balanço chegue a nível abaixo de onde estava antes da crise global de saúde começar, no início de 2020 --uma redução superior a 50%. Mas alguns economistas dizem que ainda não está claro se serão capazes de chegar tão longe, ou se podem ir ainda mais baixo graças a outras ferramentas do Fed agora em vigor.

NOVA FERRAMENTA PODE AJUDAR

Uma nova ferramenta criada no ano passado, conhecida como mecanismo de recompra permanente ("Standing Repo Facility", ou SRF, em inglês), pode servir de apoio para os bancos que precisam de dinheiro e pode ajudar a evitar outro aumento nas taxas de curto prazo. As empresas financeiras poderiam, em vez de aumentar os juros, pegar empréstimos do mecanismo se estiverem com poucas reservas.

Mas analistas e economistas dizem que isso só funcionará se os bancos sentirem que não serão criticados por recorrerem ao Fed para empréstimos temporários em dinheiro. Bill Nelson, economista-chefe do Bank Policy Institute e ex-economista do banco central, comparou o novo programa à janela de desconto, ferramenta de tomada de empréstimos de emergência que muitos bancos relutam em usar porque não querem ser vistos como arriscados.

Com a SRF em vigor, algumas empresas devem se sentir mais confortáveis ??mantendo títulos do governo norte-americano com o entendimento de que "se necessário, podem convertê-los em dinheiro", disse Nelson. Mas isso depende de o Fed deixar claro que usar a ferramenta é um "caminho normal de negócios", afirmou ele.

DINHEIRO EXTRA 'ESPIRRANDO' POR AÍ

Ao longo do ano passado, as empresas financeiras têm lidado com muito dinheiro --uma tendência que é evidente na alta popularidade de outra ferramenta do Fed que permite que empresas estacionem dinheiro com o banco central de maneira "overnight". O uso do programa, conhecido como mecanismo de recompra reversa, atingiu uma média de 1,5 trilhão de dólares por noite nos últimos três meses.

Isso sugere que o Fed provavelmente é capaz de reduzir seu balanço pelo menos nessa quantia antes de começar a enfrentar problemas de escassez, afirma Tiffany Wilding, economista da PIMCO e ex-analista do Fed de Nova York. "Há mais dinheiro circulando no sistema agora do que os bancos querem", disse Wilding. Mas o uso do programa de recompra reversa pode não cair diretamente à medida que o banco central reduz suas participações, afirma Nelson, de modo que as autoridades precisarão agir com cuidado.

O FED TERÁ QUE VENDER TÍTULOS ATIVAMENTE?

Essa é uma grande incógnita e, embora as autoridades do Fed não tenham descartado nada, geralmente evitam a discussão de vender ativos diretamente, em vez de permitir que a redução do balanço ocorra passivamente, permitindo que os títulos saiam do portfólio à medida que vencem.

Não está claro se o cronograma de vencimento da carteira permitirá que o banco central reduza suas participações tão rápido quanto alguns gostariam, no entanto.

Alguns analistas, como Zoltan Pozsar, do Credit Suisse, argumentam que o Fed pode ser pressionado a vender títulos desta vez devido ao tamanho da ameaça inflacionária, ao salto dos ativos de risco durante a fase de flexibilização quantitativa do banco central e ao achatamento da curva de juros dos Treasuries.

COMO SABERÃO SE REDUZIRAM DEMAIS SEU BALANÇO?

Os níveis de balanço vistos antes da pandemia podem não ser um bom indicador de quão baixa pode ficar a carteira do Fed desta vez. Um fator é que "a demanda dos bancos por reservas varia ao longo do tempo", disse Lorie Logan, vice-presidente executiva do Grupo de Mercados do Fed de Nova York, no início deste mês durante uma entrevista ao podcast Macro Musings.

Para descobrir se as reservas estão caindo excessivamente, o Fed ficará de olho nos mercados monetários, afirmou Logan.

Como ela e outras autoridades do Fed de Nova York explicaram em um post recente em um blog, a relação entre a taxa efetiva das fed funds, ou a taxa básica de juros do Fed, e a taxa de juros que o banco central paga sobre os balanços de reservas (Iorb, na sigla em inglês) é importante.

As duas taxas são negociadas mais distantes entre si quando as reservas são abundantes, como foram entre 2013 e 2014. E as taxas são negociadas mais próximas quando os saldos das reservas estão em declínio, como foram entre 2017 e 2019.

Fonte:
Reuters

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