Campos Neto reconhece que comunicado gerou ruídos e não se compromete quanto ao Copom de agosto

Publicado em 29/06/2023 13:33 e atualizado em 29/06/2023 14:18

 

Por Fabricio de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fez nesta quinta-feira uma defesa da comunicação recente do Banco Central, ao explicar a mudança do tom entre o comunicado e a ata do Copom, mas reconheceu que o primeiro documento gerou ruído no mercado financeiro, ainda que não tenha afetado as expectativas para os juros de forma relevante.

"Quando você tem situação de reunião dividida e você tem que escrever opinião de consenso que seja curta, você não tem como escrever muita coisa", comentou Campos Neto. "O comunicado, na nossa opinião, tinha deixado a porta aberta, mas houve bastante ruído quanto a isso", acrescentou.

Na semana passada, o comunicado do BC não trouxe indicações claras, na opinião de parte do mercado, de que a instituição iniciará o processo de cortes da taxa básica Selic em agosto. Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), publicada na terça-feira desta semana, o Copom foi mais claro quanto a esta possibilidade, o que gerou críticas quanto à comunicação passada anteriormente.

Além disso, a ata trouxe a informação que houve divergência, entre os membros do Copom, em relação aos próximos passos da política monetária, divisão que não havia sido citada no comunicado. Conforme a ata, a informação predominante foi de que a continuação do processo desinflacionário poderia permitir o início de um processo "parcimonioso" de corte da Selic, atualmente em 13,75% ao ano.

"O comunicado tem função de comunicar e expressar opinião de consenso. A ata tem o objetivo de explicar as discussões", justificou Campos Neto. "A intenção do comunicado era espelhar consenso, deixando a porta aberta. Algumas interpretações eram de que não deixou a porta aberta", disse, acrescentando que "nenhuma ata e nenhum comunicado são perfeitos".

Ainda assim, ele frisou que o mercado seguiu precificando, ao longo dos dias, um corte de juros na reunião do Copom de agosto.

O presidente do BC evitou, no entanto, dizer se a precificação de corte de 50 pontos-base da Selic em agosto, que já começa a aparecer no mercado de juros futuros, ainda que de forma minoritária, está correta ou não.

Ele afirmou que o BC não tem a intenção de "olhar" o que o mercado precifica. Segundo ele, é o mercado que tem que entender o que o BC faz.

"A palavra ‘parcimônia’, a gente fala sobre os próximos passos", disse Campos Neto, em relação ao termo utilizado na ata. "Não tenho como adiantar o que vai ser feito."

CMN

Questionado sobre a possibilidade de o Conselho Monetário Nacional (CMN) na reunião desta quinta-feira alterar o sistema de metas de inflação, passando o prazo para cumprimento do objetivo do ano-calendário para a meta contínua, Campos Neto disse que isso representaria um aperfeiçoamento interessante, mas ressaltou não ter visto ainda o texto do voto sobre a meta no CMN, que deve ser encaminhado pelo governo.

Ele também pontuou que será preciso entender como será feita a aferição da meta, caso ela seja contínua.

Segundo Campos Neto, o Brasil é um dos poucos países que utilizam o ano-calendário no regime de metas e que há um estudo que mostra que a meta contínua é mais eficiente.

Durante toda a coletiva de imprensa, porém, ele afirmou que não poderia antecipar seu voto no CMN, formado ainda pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e pela ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet.

TAXA DE CÂMBIO

Campos Neto fez ainda comentários a respeito do recuo mais recente do dólar ante o real no Brasil.

De acordo com o presidente do BC, o rali recente do real está ligado a uma série de fatores, como a queda da moeda norte-americana ante outras divisas de emergentes no exterior, os bons resultados do setor agrícola no início do ano, a redução dos prêmios de risco em função da melhora do horizonte fiscal e a percepção de que o BC está fazendo o "trabalho correto" no controle da inflação.

Em outro momento, Campos Neto foi questionado a respeito da pressão exercida por diversos setores do governo -- incluindo o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva -- para que a instituição reduza a Selic.

Em sua resposta, Campos Neto listou uma série de realizações do BC e de reconhecimentos do trabalho da instituição por parte de órgãos e agências internacionais.

"O país está comemorando inflação mais baixa, que em parte é trabalho que o BC fez; está comemorando juros futuros mais baixos", disse, sem tratar diretamente das críticas de Lula sobre a política monetária.

Fonte: Reuters

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Chefes de Finanças do G7 dizem que é preciso reabrir Estreito de Ormuz e resolver desequilíbrios em contas correntes
Dólar sobe ante o real na abertura sob influência do exterior
Minério de ferro amplia perdas após China revelar controle mais rígido da capacidade siderúrgica
Ações da China sobem com otimismo IA compensando preocupações com títulos
Trump diz que EUA ficarão satisfeitos se Irã concordar em não possuir armas nucleares
Nasdaq lidera as perdas nas ações, com petróleo e custos de financiamento no foco