Vacas leiteiras integram a lista dos produtos com superoferta

Publicado em 05/01/2009 16:34 1234 exibições
Vacas sobrando? [Seria trágico se não fôsse cômico!], jornalista é assim: Procura dar um tom enganador à informação. As vacas no caso referem-se à vacas de leite... porque as de produção de bezerros, pelo que me constam, estão em falta e é bom que continue assim para manter a pecuária lucrativa. (Telmo Heinen)
 
Califórnia (EUA), 05 de Janeiro de 2009 - O longo boom econômico, alimentado pelo crédito fácil que permitiu que as pessoas gastassem dinheiro que não tinham, levou a uma enorme oferta de carros, casas e shopping centers, como deixaram claro os meses recentes. Agora, acrescente mais um item à lista: uma superoferta de vacas.

Encerrar a oferta de leite não é tão fácil quanto fechar uma linha de montagem de automóveis. À medida que uma expansão perigosa na indústria global de laticínios se torna um fiasco, Roger Van Groningen tem de lidar com as consequências. Em um armazém administrado pela sua empresa aqui, de 8 a 10 caminhões estacionam todo dia para descarregar leite em pó. Sacos do produto - excedente que ninguém vai comprar, pelo menos não no preço em que a indústria de laticínios considera aceitável - são descarregados e empilhados em fileiras altas que quase enchem o armazém.

A companhia de Van Groningen não é dona do leite em pó excedente, simplesmente o armazena para os novos donos: os contribuintes americanos. Até essa data, o governo concordou em comprar cerca de US$ 91 milhões em leite em pó.

"O problema é que eles vão produzi-lo porque têm de ordenhar as vacas", disse Van Groningen. "É como um rio. Ele continua vindo". Além disso, os pecuaristas estão todos cientes de que, diferentemente do maquinário industrial, as vacas não podem ser desligadas e armazenadas até que as condições econômicas melhorem. Elas têm de ser alimentadas e cuidadas, a um gasto contínuo.

Os sacos de leite em pó representam uma reversão impressionante de sorte para a indústria de laticínios, que floresceu nos últimos anos em parte devido ao apetite crescente por leite, queijo, sorvete e pizza em lugares como o México, Egito e Indonésia. Muitos desses países estavam se beneficiando de um boom econômico global conduzido por consumidores que gastavam sem limites no Estados Unidos.

À medida que os pecuaristas aumentaram os carregamentos de leite em pó, queijo e outros ingredientes para mercados estrangeiros, suas receitas aumentaram. O aumento da demanda ajudou a aumentar o preço do leite para as famílias americanas. A média nacional para o leite integral chegou a US$ 3,89 o galão (3,78 litros) em julho, uma alta em relação à média de US$ 3,20 o galão em 2006.

Mas agora, a demanda por produtos de laticínio está diminuindo em meio à desaceleração econômica global e à crise de crédito, mesmo à medida que as ofertas aumentam. O resultado é um excesso de oferta de leite - e seus variados subprodutos, como o leite em pó, a manteiga e as proteínas do soro do leite - que tem levado a uma queda grande dos preços.

O preço do leite em pó desnatado - usado nas fórmulas infantis, produtos de laticínio e alimentos processados - caiu dia 2 de janeiro de cerca de US$ 2,20 em meados de 2007 para aproximadamente US$ 80 centavos a libra (453,5 kg). Outros produtos de laticínio também caíram. O leite integral nas mercearias não recuou com tanta rapidez quanto o leite em pó no atacado, mas caiu para US$ 3,67 o galão, queda de quase 6% em relação ao pico.

Enquanto os consumidores estão, sem dúvida, satisfeitos com os preços mais baixos, os pecuaristas lutam. "Tudo estava indo muito bem", disse Joaquin Contente, fazendeiro em Hanford, Califórnia. "O produto estava se movendo. Então essa crise financeira veio e a coisa toda parou".

Abate de vacas?

A lógica poderia sugerir que os pecuaristas simplesmente vendessem algumas de suas vacas para uma fábrica de hamburgueres a fim de reduzir a oferta de leite e elevar os preços. Na verdade, a indústria de laticínios tem um esforço conjunto em andamento para fazer o aparte do rebanho.

Mas os fazendeiros relutam em fazer isso caso esperem uma recuperação da demanda, uma vez que formar novamente um rebanho pode levar anos. O programa de aparte do rebanho é relativamente pequeno, e pelo menos até agora, a maioria dos fazendeiros agarram-se às suas vacas.

"As pessoas não querem entrar em pânico", disse Brian W. Gould, economista especializado em agricultura da Universidade de Winsconsin, acrescentando que os fazendeiros estavam recebendo US$ 20 por cada 100 libras de leite cru apenas poucos meses atrás. Espera-se que o preço caia para cerca de US$ 14 para cada 100 libras de leite cru nos próximos meses. "Não está claro se isso vai ser uma correção de curto ou longo prazo. Tudo depende de quanto tempo vai levar para a economia americana se recuperar", disse ele.

Outros setores agrícolas também estão lutando com a desaceleração na demanda de compradores estrangeiros devido à recessão global e a um aumento no valor do dólar, o que deixou as exportações americanas mais caras no exterior. O Departamento de Agricultura espera quedas grandes nas exportações de milho, trigo, soja e carne de porco.Embora o governo tenha programa para a sustentação dos preços para cerca de duas dúzias de produtos agrícolas, até agora o leite em pó é a única commodity que teve queda suficiente para começar o fluxo de dólares governamentais. Alguns esperam que os contribuintes logo estejam comprando blocos de queijo, também, dado o preço em queda.

A sustentação dos preços realizada pelo governo fornece um piso para o preço de produtos agrícolas como uma maneira de manter os fazendeiros a salvo durante tempos difíceis e assegurar uma oferta de alimentos adequada. O Departamento de Agricultura se comprometeu a comprar 11,6 milhões de libras, por cerca de US$ 91 milhões, o que inclui algumas taxas. Antes de outubro, a última vez que o governo comprou leite em pó foi em junho de 2006. O leite foi usado em programas do governo para nutrição, dado como ração animal ou vendido no mercado aberto, disse Steve Gill, diretor de operações de commodities do departamento. Ele disse que a agência não decidiu o que fazer com o estoque de leite em pó na Califórnia.

Críticas

Alguns críticos dos subsídios agrícolas argumentam que os programas de sustentação dos preços são antiquados e permitem que os fazendeiros continuem produzindo mesmo quando a economia não faz qualquer sentido, uma vez que os contribuintes sempre vão comprar o excesso de produção.

"Eles não querem contrair ou responder ao sinal do mercado. Eles querem continuar produzindo", disse Kenneth Cook, presidente do Environmental Working Group, uma organização de pesquisa que há muito tempo é crítica da política agrícola do governo. "Uma vez que você entra em uma dificuldade como essa, isso se torna nosso problema coletivo", disse Cook.

As aquisições do governo vêm depois do que o departamento chama de "período eufórico de preços recordes e um boom de exportações" para a indústria de laticínio americana. Desde 2003, as exportações de laticínios aumentaram de US$ 1 bilhão por ano para cerca de US$ 4 bilhões este ano, com as exportações de leite em pó aumentando seis vezes durante o mesmo período.

O leite em pó é um produto atraente para exportar porque não requer refrigeração, tem uma longa vida nas prateleiras e pode ser usado para produzir várias bebidas e alimentos.

Muito do aumento dos embarques foi causado pela demanda maior nos países em desenvolvimento, onde uma classe média crescente substituiu o amido em suas dietas por fontes de proteínas como a carne e produtos de laticínio. Alguns países asiáticos tinham um pequeno histórico de comer produtos lácteos mas foram apresentados ao leite e a queijos suaves pelos programas de nutrição governamentais ou por cadeias de restaurantes como o McDonald""s e a Pizza Hut.

(The New York Times)

Fonte:
Gazeta Mercantil

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