60% das multinacionais querem manter ou aumentar investimentos

Publicado em 06/01/2009 12:41 1542 exibições
Uma pesquisa exclusiva de EXAME com mais de 100 multinacionais instaladas no Brasil mostra que mais de 60% delas vão manter ou aumentar seus investimentos aqui em 2009.

Com o agravamento da crise internacional, é possível dividir o mundo imaginariamente em dois blocos: de um lado, estão os países que terão recessão e, de outro, os que ainda têm chance de crescer em 2009. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas, as economias de Estados Unidos, União Européia e Japão já recuam, enquanto os emergentes devem crescer ao menos 2,7%. O Brasil, felizmente, está no segundo time. As previsões de crescimento do produto interno bruto brasileiro variam de mero 0,5% a razoáveis - dadas as circunstâncias - 3%. Seja como for, é um cenário bem melhor que o do mundo rico. Isso coloca o Brasil, ao lado de China e Índia, entre os poucos mercados em que as empresas podem ambicionar uma expansão das vendas. É essa perspectiva que pode influenciar o investimento direto estrangeiro no país - dinheiro aplicado na economia real que, em 2008, deve bater o recorde de 40 bilhões de dólares. A projeção para 2009, feita pela Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais (Sobeet), é de queda para a faixa de 34 bilhões de dólares. Hoje, os cenários para a economia são múltiplos - e pouco confiáveis. Há os pessimistas. E há os mais otimistas. Entre eles está o que mostra o Brasil como porto de novos investimentos de algumas das maiores empresas do mundo. A crise seria assim uma oportunidade.

Mas, como a prudência manda, é melhor ficar com os fatos. Para identificar a tendência do investimento estrangeiro, EXAME realizou em dezembro uma pesquisa com 108 multinacionais que atuam no Brasil. Mesmo num ambiente de cautela, os resultados mostram um horizonte favorável - pelo menos quando se leva em conta a magnitude da crise que assola o mundo. Seis de cada dez multinacionais pesquisadas deverão manter em 2009 os investimentos planejados no país, sendo que pequena parte afirmou que vai aumentá-los. A pesquisa também mostra que 39% das subsidiárias esperam ter resultados acima dos previstos para as matrizes, o que elevará sua importância nos respectivos grupos. O dado que mais surpreende é que 46% das companhias prevêem crescer mais de 5% - bem acima do esperado para a economia brasileira. "Como o Brasil é uma economia relativamente fechada, setores ligados ao varejo e a serviços devem ser menos afetados pela crise e, portanto, têm chances de obter melhor resultado aqui do que em outros países", diz o economista Luís Afonso Fernandes Lima, presidente da Sobeet.

O que sustenta a previsão de crescimento das multinacionais (e naturalmente também de empresas brasileiras) é o mercado doméstico. O aumento da renda observado no país nos últimos anos e a inserção de cerca de 20 milhões de consumidores no mercado devem garantir a expansão em 2009 para muitas empresas do varejo. É o caso do Wal-Mart, maior varejista do mundo. A rede americana inaugurou quatro supermercados no início de dezembro, um no Rio de Janeiro, dois em São Paulo e outro em Londrina, no Paraná. Em 2009, deve abrir no país 80 lojas, de vários formatos, com investimento de 1,6 bilhão de reais. Por trás da manutenção - e até da expansão - dos investimentos de multinacionais no Brasil e em outros países emergentes está a própria natureza dos negócios, algo que nenhuma crise pode mudar. Por mais nefasta que seja a crise, há mercado, e as empresas terão de achá-lo e lutar por ele. É a lei da sobrevivência. Nessa busca, a globalização pode ser uma poderosa aliada. E a emergência de países como o Brasil, uma esperança. A anglo-holandesa Unilever, uma das maiores fabricantes de produtos de consumo do mundo, vendeu divisões nos Estados Unidos, Canadá, Itália e Turquia e há pouco anunciou o fechamento de três fábricas na França. Mas no mercado brasileiro os planos de investimento foram mantidos. A empresa acaba de anunciar a ampliação de uma fábrica de sabão em pó em Pernambuco, orçada em 85 milhões de reais. "Num ano em que se fala de crise, acabamos de aprovar um plano de investimentos até 2012", diz Luiz Carlos Dutra, vice-presidente de assuntos corporativos da Unilever.

A atração permanece 

Além das perspectivas negativas de crescimento no mundo rico, o Brasil tem sido favorecido porque Rússia e Índia, fortes concorrentes na captação de investimentos estrangeiros, enfrentam hoje o recrudescimento de velhos problemas. A instabilidade política na Rússia, após a invasão da Geórgia, e o terrorismo na Índia, depois do atentado em Mumbai, voltaram a assustar. A China, com sua população de mais de 1,3 bilhão de pessoas, continua a ser o principal destino de investimentos entre os emergentes. Mas, tal como ocorre no resto do mundo, pairam sobre o país as dúvidas quanto ao real impacto da crise no crescimento de sua economia e o que uma desaceleração brusca pode significar em termos sociais e políticos. "Se comparado com os outros grandes emergentes, o Brasil representa menos risco", diz Ira Kalish, diretor de pesquisas globais da Deloitte Research. Isso explica por que 42% das multinacionais ouvidas por EXAME indicam que a subsidiária brasileira ganhou importância perante a matriz. A TIM é uma dessas empresas que desfrutam de prestígio com o controlador, no caso, a Telecom Itália. "A matriz já disse que pode se desfazer de operações na Alemanha e na Holanda, mas não sai do Brasil", diz Mario Cesar Pereira de Araújo, presidente da operação local da TIM. A operadora planeja investir 2,3 bilhões de reais em infra-estrutura em 2009, 15% mais que em 2008. Boa parte do setor de serviços, em especial os ligados a tecnologia, deve manter os investimentos - isso porque, em época de crise, as empresas costumam preservar os projetos de informática, recorrendo mais à terceirização. Com perspectiva de crescer nesse contexto, a americana IBM tem centenas de vagas a preencher, tanto nas divisões que atendem o mercado doméstico como nas de exportação. Embora não divulgue números, a empresa deverá elevar o volume de investimentos no Brasil em 2009, em comparação a 2008.

No momento em que se comprometem a colocar milhões de dólares numa operação, executivos e empresários estão assumindo riscos. E também estão tentando olhar para um horizonte que vai além de um ano fiscal. É o que se chama de estratégia. A Rhodia, operação brasileira do grupo francês Rhône Poulenc, tem participação de 17% no faturamento global. Durante muito tempo, essa posição foi encarada como de alto risco por investidores. Hoje, segundo Marcos De Marchi, presidente da Rhodia, é vista como um trunfo. "Para a matriz, o Brasil, com suas características naturais e com o tamanho de seu mercado, sempre foi visto como estratégico", diz. "Além disso, tivemos cinco anos de crescimento contínuo, o que nos deu status de mercado de primeira classe." O país está recebendo o maior investimento do grupo no mundo, com a ampliação de 25% da capacidade de produção da fábrica de Paulínia, no interior São Paulo.

Olhar favorável, apesar da crise 

Para quem tem caixa - algo que nos tempos de bonança era visto com algum desprezo, mas que hoje pode significar a diferença entre ganhadores e perdedores (veja reportagem na pág. 120) - o Brasil ficou barato. Numa frente, houve a rápida e brutal desvalorização do real em relação ao dólar. Em outra, as companhias abertas continuam a sofrer na bolsa. Eis um campo fértil para aquisições e fusões. Recentemente, a alemã MAN adquiriu a VW Caminhões por 1,2 bilhão de euros, justificando a compra pelo fato de o Brasil ser um dos mercados que mais crescem no mundo. A brasileira Positivo, fabricante de computadores, tem sido assediada por gigantes mundiais, como a chinesa Lenovo e a americana Dell. (Em dezembro, a Positivo recusou oferta feita pelos chineses.) "Existe potencial de crescimento nas fusões e aquisições, pois há empresas fragilizadas pela falta de crédito", diz Carlos Asciutti, sócio da consultoria Ernst & Young.

É evidente que o Brasil não será uma ilha da fantasia em 2009. A crise mundial existe, está aí, vai afetar com intensidade diferente setores e empresas. Mas as decisões de companhias como Unilever, Rhodia e Wal-Mart em relação ao Brasil são fatos. E é preciso não deixar que o medo coletivo em relação ao futuro faça com que eles sejam simplesmente negados.

Fonte:
site Uol

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