Conflito no Irã pode antecipar parada do ciclo de cortes da Selic, diz Ceron
Por Bernardo Caram
BRASÍLIA, 2 Mar (Reuters) - O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse nesta segunda-feira que o conflito no Irã pode eventualmente antecipar a parada do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central caso se intensifique um cenário de incerteza e de repasse para preços, ponderando que o novo cenário geopolítico pode gerar mais efeitos positivos do que negativos para o Brasil.
Após a eclosão do conflito no final de semana, com ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no sábado, o Ministério da Fazenda reunirá equipes durante os próximos dias para coletar primeiras impressões e avaliar cenários com possíveis impactos para o país, acrescentou uma fonte da pasta.
Em evento promovido pelo Valor Econômico, Ceron disse ver possíveis ganhos para a arrecadação de tributos e para a balança comercial do Brasil com a venda de petróleo mais valorizado.
O preço do petróleo subia perto de 8% na manhã desta segunda, depois que ataques retaliatórios do Irã interromperam o transporte marítimo no crucial Estreito de Ormuz, após o bombardeio do fim de semana que matou o líder supremo iraniano Ali Khamenei.
Na avaliação de Ceron, o Banco Central não deve mudar seu cenário de curto prazo porque o efeito inflacionário de uma valorização do petróleo até certo patamar é mitigado pela recente valorização do real.
"O que pode acontecer lá na frente é o momento de parada (do ciclo de corte de juros) acontecer antes, caso esse cenário de incerteza, de repasse a preços comece a ficar mais intenso", disse.
Ele afirmou ser cedo para avaliações mais precisas, enfatizando que em cenários mais radicais, como uma disparada do barril de petróleo para acima de US$100, haveria de fato pressão inflacionária e outras repercussões.
O BC tem mantido a Selic em 15%, mas indicou que iniciará neste mês um ciclo de cortes de juros. A autarquia não deu sinais sobre qual será a magnitude ou o período do ciclo.
Com projeções feitas até semana passada, antes dos ataques, o boletim Focus do BC mostrou nesta segunda que o mercado passou a ver a Selic em 12% no fim deste ano, contra mediana de 12,13% da semana passada. Os juros futuros de mercado, no entanto, registravam alta nesta segunda.
Ceron acrescentou que em um ambiente de atritos geopolíticos globais, o Brasil está bem posicionado e também acaba sendo um "porto seguro" para investimentos externos, com o governo podendo diversificar emissões da dívida pública.
PROGRAMAS SOCIAIS
O secretário ainda disse ver uma janela para debate sobre reorganização de programas sociais do governo, citando a existência de iniciativas sobrepostas e ações com crescimento insustentável de despesas.
Ceron ecoou fala recente do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao afirmar que é preciso repensar o modelo de assistência social como um todo, que enfrenta muita judicialização, citando a possibilidade de integrar programas.
Segundo ele, o país observa uma redução de indicadores de pobreza e não está precisando hoje de incremento de despesa para apoio social.
Em outra área, Ceron afirmou que não há discussão no governo sobre federalização do BRB, que vive uma crise financeira. Para o secretário, isso é problema que deve ser resolvido pelo Distrito Federal e pela própria instituição financeira.