Calibração da Selic não é afrouxamento e ciclo do BC vai terminar em ponto restritivo, diz diretor David
Por Bernardo Caram
5 Mar (Reuters) - O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, disse nesta quinta-feira que a esperada "calibração" na Selic neste mês não representa um afrouxamento da política monetária, enfatizando que a autarquia não busca uma taxa de juros real neutra e que o ciclo de corte vai terminar ainda em ponto restritivo.
Em evento do Goldman Sachs, em São Paulo, David afirmou que a indicação futura de corte de juros dada pelo BC em janeiro "segue válida", ressaltando que essa orientação vale apenas para a reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom).
"É um processo de calibração, não é um processo de afrouxamento da política monetária. A busca aqui não é a taxa de juro neutro", disse. "Esse processo de calibração passa por terminar em ponto restritivo."
O diretor acrescentou ser esperada uma maior volatilidade no mercado neste ano por conta das eleições presidenciais, o que diminui a eficácia da política monetária. Para ele, a "camada extra de juros" aplicada pelo BC até o momento será bastante útil nesse ambiente.
"Com tudo isso posto, o Comitê decidiu que o processo de calibração deve começar na próxima reunião, e por isso que é uma calibração, a gente está vendo até onde a gente pode ir", disse.
Em janeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano, mas sinalizou de forma clara a intenção de iniciar o processo de corte da taxa neste mês.
No mercado, a principal dúvida é sobre qual será o tamanho do corte na reunião, após a incerteza global ter aumentado com o início da guerra de EUA e Israel contra o Irã. Desde então, investidores reduziram as apostas em um corte de 50 pontos-base e elevaram as posições em uma redução de 25 pontos-base.
Em sua fala, David disse não poder antecipar decisão do Copom, acrescentando que o acontecimento no Irã é relevante, mas cercado de incertezas e será analisado pelo BC com serenidade.
"Serenidade não significa inação, é tirar a emoção do tratamento dos dados", afirmou.
O diretor disse que uma eventual alta persistente da cotação do petróleo, sob efeito do conflito, geraria pressão inflacionária. Ele ponderou que a materialização de um cenário desse tipo seria menos complexa de ser enfrentada no atual momento do que se tivesse ocorrido há seis meses.
David pontuou que o BC "não reage a ruídos" e não se emociona com um dado melhor ou pior, e que o horizonte da política monetária é de 18 meses.
"Estamos pilotando um petroleiro", comparou.
Na apresentação, o diretor disse que o crescimento econômico do país -- que vinha apresentando dinamismo maior que o esperado -- parece estar agora dentro do seu potencial.
Ele acrescentou que as expectativas de mercado para os preços à frente apresentaram melhora, mas ainda estão desancoradas.
(Reportagem de Bernardo Caram; reportagem adicional de Fabrício de Castro)