Trump deixa Pequim com poucas vitórias, mas com palavras calorosas para Xi

Publicado em 15/05/2026 06:24 e atualizado em 15/05/2026 07:50

 

PEQUIM, 15 Mai (Reuters) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou a China na sexta-feira sem grandes avanços nas negociações comerciais nem ajuda concreta de Pequim para pôr fim à sua guerra contra o Irã, apesar de ter passado dois dias elogiando efusivamente seu anfitrião, Xi Jinping.

A visita de Trump ao principal rival estratégico e econômico dos EUA, a primeira de um presidente norte-americano desde sua última viagem em 2017, tinha como objetivo obter resultados tangíveis para reforçar seus baixos índices de aprovação antes das eleições cruciais de meio de mandato.

A cúpula foi repleta de pompa, mas, a portas fechadas, Xi emitiu um aviso severo a Trump de que qualquer mau tratamento da principal preocupação da China, Taiwan, poderia levar a um conflito.

Trump se recusou a comentar sobre o assunto, mantendo-se excepcionalmente contido durante toda a visita, com seus comentários improvisados focados principalmente em elogiar o calor e a estatura de Xi.

"Foi uma visita incrível. Acho que ela trouxe muitas coisas boas", disse Trump a Xi em sua reunião final no complexo Zhongnanhai, um antigo jardim imperial que abriga os escritórios dos líderes chineses, antes do almoço com lagostas e vieiras Kung Pao.

Enquanto Trump buscou vitórias comerciais imediatas, como um acordo para vender jatos da Boeing que não impressionou os investidores, Xi falou sobre uma redefinição de longo prazo e um pacto para manter laços comerciais estáveis com Washington, ressaltando suas diferentes prioridades.

NENHUMA AJUDA TANGÍVEL EM RELAÇÃO AO IRÃ

Pouco antes de os líderes se reunirem nesta sexta-feira, o ministério das Relações Exteriores da China emitiu uma declaração contundente descrevendo sua frustração com os Estados Unidos e a guerra de Israel contra o Irã.

"Esse conflito, que nunca deveria ter acontecido, não tem motivo para continuar", disse o ministério, acrescentando que a China apoiava os esforços para chegar a um acordo de paz em uma guerra que havia interrompido o fornecimento de energia e a economia global.

Em Zhongnanhai, Trump disse que os líderes haviam discutido o Irã e se sentiram "muito parecidos", embora Xi não tenha comentado.

Esperava-se que Trump pedisse à China que usasse sua influência sobre o Irã para fazer um acordo. Mas os analistas duvidam que Xi esteja disposto a pressionar Teerã ou a encerrar o apoio às suas forças armadas, dado o valor do Irã para Pequim como um contrapeso estratégico para os EUA.

Um breve resumo dos EUA sobre as conversações de quinta-feira destacou o que a Casa Branca chamou de desejo comum dos líderes de reabrir o Estreito de Ormuz, ao largo do Irã, por onde antes passava um quinto do petróleo e do gás mundiais, bem como o aparente interesse de Xi em comprar petróleo americano para reduzir sua dependência do Oriente Médio.

“O que chama a atenção é que não há nenhum compromisso da China em tomar medidas específicas em relação ao Irã”, afirmou Patricia Kim, pesquisadora de política externa da Brookings Institution.

AÇÕES DA BOEING CAEM POR CAUSA DE ACORDO DECEPCIONANTE

Autoridades americanas afirmaram que também chegaram a acordos para a venda de produtos agrícolas e avançaram na criação de mecanismos para gerenciar o comércio futuro, com a expectativa de que ambas as partes identifiquem US$30 bilhões em produtos não sensíveis. 

No entanto, houve poucos detalhes sobre os acordos e nenhum sinal de avanço na venda dos chips avançados de IA H200 da Nvidia para a China, apesar da inclusão de última hora do CEO Jensen Huang na viagem.

Trump disse à Fox News que a China havia concordado em encomendar 200 jatos da Boeing, sua primeira compra de jatos comerciais fabricados nos EUA em quase uma década, mas esse número ficou muito aquém dos cerca de 500 esperados pelos mercados, e as ações da Boeing caíram mais de 4%.     

As ações chinesas caíram quando os investidores perceberam que a cúpula havia rendido poucos resultados.

Trump também partiu sem uma solução oficial para o problema do abastecimento de terras raras, que vem prejudicando as relações desde que a China impôs controles de exportação sobre esses minerais essenciais, em resposta à enxurrada de tarifas imposta por Trump em abril de 2025. Durante os dois dias de cobertura da cúpula, a mídia estatal chinesa não mencionou o assunto sequer uma vez.

Embora os líderes tenham firmado uma trégua em outubro passado para que Washington reduzisse as tarifas em troca da China manter o fluxo de terras raras, os controles de Pequim causaram escassez para fabricantes de chips e empresas aeroespaciais dos EUA. 

Ainda nem sequer foi decidido se a trégua será prorrogada para além de seu vencimento no final deste ano, disse o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, que acompanha Trump, à Bloomberg TV na sexta-feira.

Tal prorrogação seria “o parâmetro mais básico” para o sucesso da cúpula, disse Kim, do Brookings.

ADVERTÊNCIA SEVERA SOBRE TAIWAN

Os comentários de Xi a Trump de que a má administração de Taiwan, a ilha democraticamente governada que Pequim reivindica, poderia levar a um conflito, foram um aviso incisivo, se não sem precedentes, durante uma cúpula que, de outra forma, parecia amigável e descontraída.

Taiwan, a apenas 80km da costa da China, há muito tempo é um ponto crítico nos laços, com Pequim se recusando a descartar o uso de força militar para obter o controle da ilha e os EUA obrigados por lei a fornecer os meios de autodefesa.

"A política dos EUA sobre a questão de Taiwan permanece inalterada a partir de hoje", disse à NBC News o secretário de Estado Marco Rubio, que também está viajando com Trump. O ministro das Relações Exteriores de Taiwan, Lin Chia-lung, agradeceu aos Estados Unidos na sexta-feira por expressar seu apoio.

Rubio disse que Trump havia abordado com Xi a questão do maior crítico da China em Hong Kong, o magnata da mídia Jimmy Lai, preso por 20 anos em fevereiro no maior caso de segurança nacional do centro financeiro asiático, que Pequim chama de assunto interno.

Apesar da falta de grandes avanços, os dois lados comemoraram uma base mais estável em um relacionamento que Xi chamou de o mais importante do mundo.

"Devemos fazê-la funcionar e nunca estragá-la", disse ele no banquete de quinta-feira.

(Reportagem de Trevor Hunnicutt, Liz Lee, Antoni Slodkowski e Mei Mei Chu em Pequim; Ben Blanchard em Taipé)

Fonte: Reuters

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