Brasil pode realocar fluxos de exportações do agro em meio a acordo EUA-China
Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 18 Mai (Reuters) - Um acordo para a China comprar mais produtos agropecuários dos Estados Unidos poderia levar o Brasil a aproveitar brechas deixadas pelos norte-americanos em outros mercados, em um momento em que os EUA focariam embarques para o principal parceiro comercial brasileiro, disseram analistas.
Estimativas sobre impactos para o agronegócio brasileiro advindos do acordo anunciado no domingo pela Casa Branca ainda seriam prematuras, de acordo com analistas ouvidos pela Reuters, mas integrantes do setor destacaram também a competitividade do Brasil, que pode disputar com os EUA mercado na própria China ou em outros países importadores.
As exportações do agronegócio brasileiro para a China alcançaram US$55,22 bilhões em 2025, ou cerca de um terço de tudo que o setor exportou no ano passado, segundo dados do governo, com a soja do maior exportador global respondendo por US$34,5 bilhões em divisas ao país, seguida pelas carnes (US$9,82 bilhões).
No caso da soja, caso se confirmem mais compras da China nos EUA -- estimadas pela Casa Branca em pelo menos 25 milhões de toneladas --, os fluxos comerciais seriam realocados em vez de expandidos, apontou a corretora Stag International.
"Um programa de compra de soja chinesa de 25 milhões de toneladas deslocaria principalmente os compradores de fora da China para o Brasil e outras origens", apontou em relatório nesta segunda-feira a corretora, com sede em Chicago e escritório em São Paulo, entre outros lugares.
Além de Brasil, que deve exportar um recorde de 116 milhões de toneladas em 2026, segundo a estatal Conab, a Argentina é outro produtor relevante de soja, juntamente com os EUA.
Segundo a Stag, o Brasil permanece estruturalmente competitivo, com uma safra recorde acima de 180 milhões de toneladas em 2026, e deve continuar capturando uma demanda significativa fora da China.
Procuradas para comentar o tema, as associações de tradings e processadoras de soja Anec e Abiove não se manifestaram sobre o assunto imediatamente.
Na carne bovina, outro mercado liderado pelos brasileiros, o país sul-americano poderia ironicamente elevar exportações para os EUA, se o país da América do Norte, que enfrenta uma oferta escassa do produto, for levado a vender a proteína aos chineses.
"Em tese, se se confirmar a renovação das habilitações das plantas norte-americanas (pelos chineses), pode sim haver um interesse dos EUA em tentar recuperar parte de sua participação no mercado chinês. Neste caso, considerando o elevado déficit da produção dos EUA para suprir sua demanda interna, podem se abrir oportunidades para que outros países, como o Brasil, ampliem suas vendas para os EUA", afirmou o presidente-executivo da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Paulo Mustefaga.
A China renovou mais de 400 licenças de exportação expiradas de processadores de carne bovina dos Estados Unidos, mostrou na sexta-feira o site da alfândega chinesa, após os presidentes Donald Trump e Xi Jinping concluírem um encontro de cúpula em Pequim.
"É preciso lembrar, porém, que os Estados Unidos, assim como o Brasil, também estão sujeitos a uma cota para exportações de carne bovina, no âmbito das medidas de salvaguardas (da China), o que deve limitar a ampliação das vendas norte-americanas para o mercado chinês", ponderou Mustefaga.
ALGODÃO DIVERSIFICADO
Para o presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), Dawid Wajs, se a China tomar uma decisão de comprar mais algodão norte-americano, o Brasil estará mais preparado do que esteve no passado, já que conseguiu diversificar seus mercados desde que se tornou o maior exportador global da pluma.
"O Brasil, sem sombra de dúvida, soube diversificar risco, diversificar destinos e fazer com que um possível efeito de que qualquer um desses países deixe de importar o algodão brasileiro, por determinado motivo, a gente tenha ainda muitos outros países que importam o algodão", disse.
Ele lembrou que a China está entre os maiores importadores de algodão do Brasil, mas que o Brasil tem vendido mais para outras nações da Ásia.
Ele citou Vietnã, Bangladesh, além de Paquistão e Turquia, como países que poderiam compensar uma eventual redução de compras da China.
Em abril, Bangladesh liderou as compras de algodão do Brasil, respondendo por 18,4% dos embarques, seguido por Paquistão (17,5%), China (14,8%), Vietnã (12,2%), Turquia (11,8%) e Índia (11%), segundo dados do governo compilados pela Anea.
Com a competitividade do seu algodão, o país poderia ainda aproveitar espaços deixados pelos EUA caso norte-americanos acabem focando mais a China para cumprir o acordo.
"Isso é o que a gente tem feito para minimizar os impactos de um possível acordo entre China e Estados Unidos... e aí nos abre espaço para crescer mais nos outros países... afinal, todo mundo vai precisar de algodão."
Ele lembrou ainda que a Índia tem se tornado um grande importador do algodão brasileiro. "Vamos agora, na próxima semana, para o Vietnã e para a própria China... Temos planos de fazer este ano missões para outros países e seguir esse bom trabalho de diversificação de destinos."
(Por Roberto Samora; edição de Pedro Fonseca)