Governo vê decisão política dos EUA ao propor novas tarifas ao Brasil
Por Lisandra Paraguassu
BRASÍLIA, 2 Jun (Reuters) - O anúncio do Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de que propôs uma tarifa de 25% sobre várias exportações brasileiras foi visto pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um movimento político, ao não levar em conta as negociações em curso e os esclarecimentos apresentados pelo Brasil, disseram à Reuters duas fontes que acompanham as negociações.
Ainda não há uma reação oficial do Brasil. Questionados pela Reuters, Itamaraty e Presidência da República não responderam de imediato.
A decisão foi apresentada pelo USTR na noite de segunda-feira. Em declaração, o representante de comércio norte-americano, Jamieson Greer, alega que algumas políticas brasileiras relacionadas a comércio eletrônico, pagamentos digitais, tarifas preferenciais, desmatamento, mercado de etanol, entre outras questões, restringem o comércio norte-americano e por isso o país pode ser alvo de medidas sob a Seção 301 de uma lei norte-americana sobre comércio.
"São as mesmas alegações de quando eles abriram a 301 (investigação), desconsideraram todas as explicações. É político mesmo", disse uma das fontes.
A investigação foi aberta em julho de 2025, no mesmo momento em que os EUA anunciaram tarifas de 50% contra as exportações brasileiras e uma série de sanções a membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do governo, com base em uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Desde então, depois de Lula e do presidente norte-americano, Donald Trump, terem estabelecido uma relação, uma porção razoável das tarifas foi suspensa, o restante, derrubado desde a decisão da Suprema Corte dos EUA de que a base legal para imposição de tarifas comerciais amplas não tinha fundamento.
A expectativa, no entanto, era de que a Seção 301 pudesse ser usada como base legal para retomada de taxações - desde a decisão da Suprema Corte, os EUA abriram investigações contra mais de 80 países com base na 301.
A decisão anunciada nesta segunda, no entanto, descumpre, ainda que por poucos dias, o prazo acordado entre os presidentes durante a viagem recente de Lula a Washington. Na conversa na Casa Branca o acerto foi que, por 30 dias, os dois países tentariam chegar a um acordo, antes de tarifas serem anunciadas.
Apesar da boa relação entre os presidentes, há pontos de conflito generalizados entre as equipes dos governos dos dois países. Recentemente, uma disputa entre Brasil e Estados Unidos sobre uma moratória para impostos em comércio eletrônico, dentro da Organização Mundial do Comércio azedou as relações comerciais um pouco mais, com Greer dizendo que não teria mais "boa vontade" com o Brasil.
No entanto, o governo brasileiro vê o Departamento de Estado dos EUA como principal bastião de apoio ao bolsonarismo dentro do governo Trump, e aponta um crescimento das articulações neste ano eleitoral.
"O Departamento de Estado é um lado consistentemente contrário ao Brasil, a gente sabe disso", disse uma segunda fonte.
Na semana passada, depois do encontro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência na eleição deste ano, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a inclusão das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas internacionais, uma medida que o governo brasileiro havia tentado evitar.
Em publicação em suas redes sociais nesta terça, Flávio publicou um trecho de entrevista que deu à rádio Itatiaia na qual afirma que pediu "expressamente" nas reuniões com Trump e com outras autoridades norte-americanas que os EUA não impusessem tarifas sobre empresas brasileiras. Após o tarifaço dos EUA sobre o Brasil no ano passado, o governo Lula passou a adotar o discurso de defesa da soberania nacional e a responsabilizar o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, também filho do ex-presidente, por influenciar na imposição das taxas. A estratégia levou a uma recuperação de Lula nas pesquisas de opinião.
Nesta semana também foi anunciada a indicação de um novo embaixador dos EUA para o Brasil, cargo vago há mais de um ano. Daniel Perez, um deputado estadual da Flórida, filho de imigrantes cubanos, é um seguidor fiel do movimento Make America Great Again (Maga), núcleo duro da base de apoio de Trump, e não um diplomata de carreira.
A imposição das tarifas propostas não é obrigatória, cabe a Trump decidir quando, como e se vai impor as tarifas.
"A Casa Branca vai ficar com essa carta na manga para usar quando quiser, e em um ano eleitoral", aponta uma das fontes ouvidas pela Reuters.
(Reportagem de Lisandra Paraguassu; Edição de Eduardo Simões)