Produção industrial no Brasil cresce mais que o esperado em abril com impulso de petróleo em meio à guerra
Por Camila Moreira e Rodrigo Viga Gaier
SÃO PAULO/RIO DE JANEIRO, 3 Jun (Reuters) - A indústria brasileira marcou em abril o quarto mês consecutivo de alta e o melhor resultado para o mês em 13 anos com o impulso do aumento da produção de petróleo, iniciando o segundo trimestre com desempenho acima do esperado mesmo em meio a uma política monetária ainda restritiva.
A produção industrial registrou avanço de 0,7% em abril na comparação com o mês anterior, com destaque para a indústria extrativa em meio à guerra no Golfo Pérsico, com expansão de 2,7% em relação ao mesmo período de 2025.
Os dados, divulgados nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficaram acima das expectativas de economistas apontadas em pesquisa da Reuters, de altas de 0,4% no mês e de 1,7% na base anual.
O avanço no mês foi o mais alto para abril desde 2013, quando houve ganho de 1,7%, mas ainda assim a indústria brasileira opera 12,9% abaixo do nível recorde, alcançado em maio de 2011, de acordo com o IBGE.
"O resultado confirma que a atividade industrial segue aquecida", disse Leonardo Costa, economista do ASA. "Vale notar que o principal destaque positivo veio das indústrias extrativas, ... movimento que reflete em parte o impacto do conflito no Oriente Médio sobre a produção de petróleo bruto e gás natural, fator de natureza essencialmente transitória."
A indústria teve no primeiro trimestre alta de 1,0% sobre os últimos três meses do ano passado, de acordo com os dados do PIB divulgados pelo IBGE no mês passado, recuperando-se da queda de 0,7% no final de 2025 e registrando o melhor resultado desde o quarto trimestre de 2023.
A indústria brasileira vem buscando se recuperar em meio aos juros altos, com a Selic a 14,50% ao ano, um mercado de trabalho favorável e renda em alta. Também pairam os efeitos da guerra no Oriente Médio, que interrompeu o fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz e vem pressionando a inflação, embora o Brasil também registre impactos positivos.
INDÚSTRIA EXTRATIVA
Os dados mostraram que 14 dos 25 ramos industriais pesquisados mostraram avanço na produção em abril sobre março, com as influências mais significativas vindas das indústrias extrativas (3,1%) e de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (3,1%).
Os setores "extrativo e de derivados têm usado uma estratégia de aumento de produção em sequência. Isso tem sim algum reflexo da guerra. Os setores atuam para minimizar os impactos e as consequências da guerra, fechamento do estreito de Ormuz e outros impactos", disse André Macedo, gerente da pesquisa no IBGE.
Nestas atividades, as pressões mais relevantes foram exercidas por óleos brutos de petróleo, gás natural e minério de ferro, no caso do setor extrativo; e de álcool etílico e dos derivados do petróleo, especialmente o óleo diesel, para a atividade dos derivados do petróleo e biocombustíveis, segundo Macedo.
"Não obrigatoriamente é aumento de exportação. Alguns setores estão aproveitando o aumento de preços por conta da guerra para ampliar produção e receita", acrescentou.
Dados da reguladora ANP mostraram que a produção de petróleo do Brasil registrou recorde pelo terceiro mês consecutivo em abril, ao atingir 4,34 milhões de barris por dia (bpd).
Entre as categorias econômicas, tiveram resultados positivos em abril bens intermediários (1,5%) e bens de capital (0,1%). Por outro lado, os segmentos de bens de consumo semi e não duráveis (-0,2%) e de bens de consumo duráveis (-3,2%) registraram quedas.
"A produção industrial tende a enfrentar um ambiente menos favorável ao longo dos próximos meses", disse Rafael Perez, economista da Suno Research. "A política monetária contracionista, a perspectiva de menos cortes de juros, a manutenção de condições de crédito restritivas e a pressão observada na curva de juros devem reduzir gradualmente o ritmo de crescimento da atividade, especialmente nos segmentos mais dependentes da demanda doméstica."
(Edição de Eduardo Simões e Isabel Versiani)